"Seu Último Pedido Foi Ver Seu Cachorro… E O Que Ele Fez Calou A Prisão Inteira" Parte 6
Gabriel permaneceu diante da caixa sem saber qual envelope abrir primeiro.
Havia dezenas.
Onze anos de palavras guardadas em silêncio.
"Por que ele fez você prometer isso?"
Rafael puxou uma cadeira e sentou diante dele.
"Porque, no começo, Henrique acreditava que escrever para você era a única forma de continuar sendo seu pai."
Gabriel apertou o primeiro envelope.
"E depois?"
"Depois ele começou a achar que estava fazendo isso por ele mesmo."
Gabriel não entendeu.
Rafael apontou para as cartas.
"Leia."
O primeiro envelope tinha uma data de poucos meses depois da prisão.
Gabriel abriu.
A letra de Henrique era firme, muito diferente da caligrafia trêmula da carta que recebera recentemente.
"Gabriel, eu sei que você está com raiva."
Ele continuou lendo em silêncio.
"Mas preciso que você venha me ver."
"Preciso explicar."
"Preciso olhar para você."
"Preciso ouvir sua voz."
Gabriel apertou os lábios.
A carta seguia por páginas.
Henrique pedia perdão.
Depois pedia outra vez.
Dizia que estava arrependido.
Que daria qualquer coisa para voltar no tempo.
Que não suportava imaginar o filho crescendo sem ele.
Gabriel deixou a folha sobre a mesa.
"Ele queria que eu fosse até lá para fazer ele se sentir melhor."
Rafael não discordou.
"Naquela época, sim."
Gabriel pareceu surpreso.
"Você admite?"
"Seu pai estava desesperado."
"Isso não responde."
Rafael encarou Gabriel.
"Henrique queria seu perdão porque não conseguia conviver com a própria culpa. Existe uma diferença entre estar arrependido e entender o peso que o arrependimento coloca nos outros."
Gabriel ficou em silêncio.
Thor dormia perto dos pés dele.
Gabriel pegou outra carta.
A data era do ano seguinte.
Henrique perguntava sobre a escola.
Sobre as notas.
Sobre Helena.
Perguntava se Gabriel ainda jogava futebol aos sábados.
No fim, voltava a pedir:
"Venha me ver."
Gabriel fechou a carta.
Pegou outra.
E outra.
A mesma ansiedade atravessava todas.
"Me responde."
"Me deixa explicar."
"Me dá uma chance."
Até que Gabriel encontrou uma carta escrita quase três anos depois da prisão.
A letra parecia diferente.
Mais lenta.
Ele começou a ler.
"Hoje eu percebi uma coisa que deveria ter entendido desde o primeiro dia."
Gabriel parou.
Rafael não falou.
"Eu venho pedindo que você me perdoe como se o perdão fosse algo que eu tivesse direito de receber."
Gabriel respirou fundo.
"Não tenho."
Ele continuou.
"Você tem direito à sua raiva."
"Luciana tem direito à dela."
"A família de Marcelo tem direito a nunca querer ouvir meu nome."
"Meu arrependimento não cria uma dívida em ninguém."
Gabriel releu aquela última frase.
"Ele escreveu isso?"
Rafael assentiu.
"Foi quando as cartas começaram a mudar."
Gabriel voltou ao papel.
Henrique dizia que tinha passado anos pensando no próprio sofrimento.
Na cela.
Na vergonha.
Na saudade.
Até perceber que tudo aquilo ainda colocava Henrique no centro da história.
"Marcelo não está aqui para sentir arrependimento."
Gabriel leu.
"Eu estou."
"Isso não me torna a maior vítima daquela noite."
Gabriel abaixou a carta.
A garganta estava seca.
Por muitos anos, imaginara o pai atrás das grades dizendo que sua vida tinha acabado.
Nunca imaginara Henrique reconhecendo que havia alguém que perdera mais.
Ele pegou outra carta.
Quinto ano.
Dessa vez, não havia pedido de visita.
Nenhum.
"Hoje é seu aniversário."
Gabriel sentiu o peito apertar.
"Vinte e um anos."
Henrique dizia que lembrava perfeitamente do dia em que Gabriel nasceu em uma maternidade de São Paulo.
Contava que Helena tinha passado horas reclamando porque ele não conseguia parar de andar pelo corredor.
Gabriel quase sorriu.
"Eu queria saber como você está."
A frase seguinte apagou o sorriso.
"Mas não vou mais pedir que venha."
Gabriel fechou os olhos.
"Se um dia quiser me procurar, eu estarei aqui."
"Se não quiser, vou respeitar."
"Ser seu pai não me dá o direito de exigir que você continue entrando numa penitenciária para cuidar da minha saudade."
Gabriel baixou lentamente a folha.
Rafael observava.
"Foi depois dessa que ele pediu para eu guardar tudo."
"Por quê?"
"Porque percebeu que até receber uma carta podia ser uma forma de obrigar você a voltar para aquilo."
Gabriel ficou irritado.
"Então ele decidiu por mim."
"Sim."
"Ele podia ter deixado eu escolher."
"Podia."
Rafael não tentou defender Henrique.
"Seu pai errou nisso também."
Gabriel se levantou.
Começou a andar pela varanda.
"Todo mundo fala dele como se esses anos tivessem transformado ele em outra pessoa."
"Eu não falei isso."
"Mas parece."
Gabriel apontou para a caixa.
"Cartas bonitas. Arrependimento. Um cachorro esperando. Agora ele está morrendo e parece que tudo precisa virar uma história de redenção."
Rafael ficou sério.
"Ninguém está apagando Marcelo."
"É exatamente isso que eu tenho medo de fazer."
Gabriel respirava rápido.
"Sentir pena do meu pai e esquecer que existe uma família que não teve carta nenhuma."
Rafael levantou.
"Então não esqueça."
Gabriel olhou para ele.
"Você pode amar seu pai e continuar sabendo que ele fez algo terrível."
A frase o atingiu.
"Não é tão simples."
"Eu não disse que era."
Gabriel voltou para a mesa.
Pegou outra carta.
Oitavo ano.
Havia apenas uma página.
"Rafael me contou que você terminou a faculdade."
Gabriel sentiu os olhos arderem.
"Arquitetura."
Henrique escrevera a palavra duas vezes, como se quisesse ter certeza.
"Eu queria dizer que tenho orgulho."
"Mas talvez isso pareça pretensioso vindo de alguém que não participou de nada."
Gabriel levou a mão ao rosto.
Henrique não perguntava por que ele não visitava.
Não reclamava.
Não pedia resposta.
Só queria saber se estava bem.
"Espero que você tenha amigos."
"Espero que tenha alguém com quem dividir seus dias."
"Espero que viaje."
"Espero que ria."
"Espero, principalmente, que quando alguém perguntar sobre sua vida, você tenha muito mais coisas para contar do que o nome do seu pai."
Gabriel precisou parar.
Thor acordou com o movimento dele.
O cachorro levantou a cabeça.
Gabriel respirou fundo e procurou o envelope mais recente.
Estava no fundo da caixa.
A data era de pouco mais de um ano antes.
Ele abriu.
Havia poucas linhas.
Henrique dizia que tinha ouvido por Rafael que Gabriel estava trabalhando em um grande projeto na Avenida Paulista.
Não sabia qual.
Não perguntava.
Apenas escrevia:
"Às vezes penso que talvez você tenha conseguido construir exatamente aquilo que eu tirei de você."
"Uma vida em que meu erro não esteja presente todos os dias."
Gabriel sentiu as lágrimas voltarem.
Então chegou à última frase.
"Se você tiver uma vida feliz sem mim, então talvez essa seja a única coisa boa que ainda posso aceitar."
Gabriel deixou a carta cair sobre a mesa.
Virou o rosto.
Não queria chorar na frente de Rafael.
Mas já era tarde.
"Por que ele nunca me mandou isso?"
A voz saiu quebrada.
Rafael demorou a responder.
"Porque ele começou a acreditar que amar você também significava deixar você ir."
Gabriel passou as duas mãos pelo rosto.
"Ele é meu pai."
"Eu sei."
"Eu passei anos achando que ele tinha esquecido."
"Ele nunca esqueceu."
Gabriel olhou para as dezenas de cartas.
Pela primeira vez, compreendeu algo que doía de uma maneira diferente.
Henrique não tinha parado de escrever porque deixara de amar o filho.
Tinha parado de enviar porque acreditava que cada envelope podia puxar Gabriel de volta para uma tragédia da qual ele tentava escapar.
Isso não apagava nada.
Não devolvia Marcelo.
Não reconstruía a adolescência de Gabriel.
Não transformava Henrique em inocente.
Mas destruía uma certeza que Gabriel carregara por anos.
A certeza de que tinha sido esquecido.
Thor se levantou lentamente.
Caminhou até Gabriel.
Encostou o corpo na perna dele.
Gabriel olhou para baixo.
"Você sabia, não é?"
Rafael sorriu de leve.
"Thor não é tão inteligente assim."
Gabriel soltou uma pequena risada entre lágrimas.
Foi então que o som de um carro entrando na propriedade interrompeu os dois.
Rafael olhou para o portão.
Sua expressão mudou imediatamente.
Gabriel percebeu.
"Você está esperando alguém?"
"Não."
O carro parou.
Uma mulher saiu.
Devia ter pouco mais de cinquenta anos.
Vestia uma calça escura e uma camisa simples.
Os cabelos castanhos estavam presos.
Ela caminhou até o portão sem pressa.
Rafael ficou pálido.
"Luciana."
Gabriel ouviu o nome.
E o corpo inteiro ficou rígido.
"Luciana?"
Rafael abriu o portão.
A mulher entrou.
Gabriel não precisava perguntar quem ela era.
Já tinha visto aquele rosto anos antes.
Nos jornais.
No tribunal.
Sentada na primeira fila durante a sentença de Henrique.
Luciana Prado.
A viúva de Marcelo.
Ela parou diante de Gabriel.
Os dois se encararam.
"Você cresceu."
Gabriel não sabia o que responder.
"Senhora Luciana..."
"Não precisa me chamar de senhora."
Ela olhou para a caixa.
Depois para as cartas espalhadas sobre a mesa.
Sua expressão endureceu.
"Cartas do Henrique?"
Gabriel assentiu.
Luciana ficou alguns segundos em silêncio.
"Então finalmente resolveu ler."
Gabriel olhou para Rafael.
"Você contou para ela?"
"Não."
Luciana respondeu antes.
"Eu vim falar com Rafael."
Seu olhar voltou para Gabriel.
"Mas talvez seja melhor você estar aqui."
Gabriel sentiu o peito apertar.
"Melhor para quê?"
Luciana olhou para as cartas.
"Seu pai está morrendo."
A frase saiu sem crueldade.
Sem compaixão.
Apenas como um fato.
Gabriel abaixou os olhos.
"Eu sei."
Luciana respirou fundo.
"Meu marido não teve nem essa chance."
O silêncio caiu sobre a varanda.
Gabriel ficou imóvel.
Rafael não disse nada.
Até Thor pareceu perceber a mudança no ambiente e se deitou perto da cadeira.
Luciana se aproximou da mesa.
Pegou uma das cartas, mas não abriu.
"Henrique teve onze anos para pensar."
Colocou o envelope novamente no lugar.
"Onze anos para escrever."
"Onze anos para se arrepender."
Gabriel sentiu a culpa crescer dentro dele.
Luciana percebeu.
"Não olhe para mim assim."
"Assim como?"
"Como se eu tivesse vindo impedir você de sentir alguma coisa pelo seu pai."
Gabriel respirou fundo.
"Eu nem sei o que sinto."
"Então descubra."
Luciana olhou diretamente nos olhos dele.
"Mas descubra sabendo de tudo."
Gabriel franziu a testa.
"Eu sei o que aconteceu."
Luciana balançou lentamente a cabeça.
"Não."
Rafael ficou tenso.
"Luciana..."
Ela levantou a mão.
"Ele tem vinte e sete anos, Rafael."
"Eu sei."
"Então já passou da hora."
Gabriel olhou de um para o outro.
"Do que vocês estão falando?"
Rafael permaneceu calado.
Gabriel aumentou a voz.
"Que parte do acidente eu não sei?"
Luciana se aproximou.
Não havia ódio em seu rosto.
Havia algo pior.
Onze anos de dor transformada em uma calma dura.
"Antes de sentir pena dele, você precisa saber o que aconteceu naquela noite."
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