"Seu Último Pedido Foi Ver Seu Cachorro… E O Que Ele Fez Calou A Prisão Inteira" Parte 2
Thor continuou parado no meio da sala.
Não avançou.
Não latiu.
Não abanou o rabo.
Henrique sentiu o peito apertar.
Durante onze anos, imaginara aquele encontro de centenas de maneiras diferentes.
Em nenhuma delas Thor o olhava como um estranho.
Ele tentou sorrir, mesmo com os olhos cheios.
"Tudo bem… você não precisa lembrar."
Rafael baixou os olhos.
Mariana permaneceu imóvel perto da porta.
Nem os agentes disseram nada.
Henrique respirou fundo e forçou o corpo a permanecer de pé.
"Você ficou velho, garoto."
Thor inclinou levemente a cabeça.
Henrique sentiu o coração bater mais forte.
Talvez fosse apenas curiosidade.
Talvez aquele cachorro não reconhecesse mais sua voz.
Talvez onze anos fossem tempo demais até mesmo para um animal que costumava dormir na porta do seu quarto.
"Eu também fiquei."
Henrique soltou uma risada fraca.
"Bem mais do que você."
Thor deu um passo.
Henrique parou.
Depois outro.
Rafael afrouxou discretamente a guia.
O velho cachorro continuou caminhando.
Devagar no início.
Como se cada movimento precisasse confirmar alguma memória antiga.
Então alguma coisa mudou.
Thor ergueu o focinho.
Farejou o ar.
Deu mais dois passos.
E acelerou.
Henrique levou uma das mãos ao peito.
"Thor…"
O cachorro puxou a guia.
Rafael soltou mais um pouco.
Henrique tentou avançar também, mas as pernas perderam a força.
Ele caiu de joelhos.
Um dos agentes fez menção de ajudá-lo.
Mariana levantou a mão.
"Deixa."
Thor chegou até Henrique.
Não pulou.
Não latiu.
Não fez nenhum movimento brusco.
Apenas colocou uma das patas dianteiras sobre a coxa dele.
Depois encostou a cabeça contra seu peito.
Henrique ficou imóvel.
Por dois segundos.
Talvez três.
Então se desfez.
Os ombros começaram a tremer.
Henrique inclinou o rosto e enterrou o nariz no pelo grisalho do pescoço de Thor.
As mãos frágeis procuraram as orelhas do cachorro.
"Eu achei que você tivesse me esquecido."
Thor soltou um gemido baixo.
E pressionou ainda mais a cabeça contra Henrique.
Aquilo foi suficiente.
Henrique começou a chorar.
Não como alguém que tenta esconder as lágrimas.
Chorou com o corpo inteiro.
O som saiu preso, irregular, quase infantil.
"Eu demorei demais."
Thor não se moveu.
"Desculpa."
Outro gemido.
Henrique apertou os olhos.
"Eu devia ter pedido para ver você antes."
Paulo Mendes, o chefe de segurança, virou o rosto.
O agente mais novo baixou os olhos.
Até Mariana desviou a atenção para a janela por alguns segundos.
Rafael permanecia perto deles, segurando a guia sem fazer força.
Ele conhecia Thor havia anos.
Mas nunca tinha visto aquele cachorro daquele jeito.
Henrique passou a mão pelo focinho envelhecido.
"Olha só você."
Thor lambeu rapidamente os dedos dele.
Henrique riu no meio do choro.
"Você ainda faz isso."
Rafael finalmente falou:
"Algumas coisas não mudam."
Henrique ergueu os olhos.
Pela primeira vez em onze anos, ele e Rafael se olharam diretamente.
Havia culpa ali.
Mágoa também.
E tempo demais entre os dois.
"Obrigado."
Rafael apertou os lábios.
"Não me agradeça."
"Você cuidou dele."
"Alguém precisava cuidar."
A frase atingiu Henrique.
Ele entendeu o que Rafael não disse.
Alguém precisou fazer o que Henrique deixou de poder fazer.
Henrique abaixou a cabeça.
"Eu sei."
Thor se ajeitou ao lado dele.
Henrique começou a acariciar lentamente o pescoço do cachorro.
Seus dedos encontraram uma pequena cicatriz escondida sob os pelos.
Naquele instante, a sala desapareceu.
E uma lembrança antiga voltou inteira.
Henrique tinha trinta e nove anos quando viu o cachorro pela primeira vez.
Era fim de tarde.
Ele voltava de Campinas depois de visitar um fornecedor.
Chovia forte.
Próximo a uma estrada secundária, percebeu alguma coisa se movendo perto do acostamento.
Parou o carro.
Helena teria brigado com ele.
Gabriel também.
Henrique sempre tivera o hábito de se meter em problemas que não eram dele.
Mas quando desceu, encontrou um cão magro, sujo e com uma ferida profunda perto do pescoço.
O animal mostrou os dentes.
Henrique ficou a alguns metros.
"Calma."
O cachorro rosnou.
"Eu não vou chegar perto."
Henrique abriu a porta traseira do carro.
Colocou água em um recipiente improvisado.
Depois deixou um pedaço de pão no chão.
"Você decide."
Passaram quase vinte minutos.
No fim, o cachorro se aproximou.
Naquela noite, Henrique chegou em casa com um malinois machucado no banco traseiro.
Helena colocou as mãos na cintura assim que o viu.
"Henrique, você só pode estar brincando comigo."
"É só por uma noite."
Gabriel, então com quatorze anos, apareceu correndo.
"Pai, ele é nosso?"
"Não."
Henrique apontou para o cachorro.
"Uma noite."
Helena olhou para o marido.
"Uma."
"Uma."
No dia seguinte, Henrique levou o animal ao veterinário.
Depois comprou remédio.
Depois comprou uma cama.
Depois uma coleira.
Gabriel escolheu o nome.
Thor.
Uma noite virou uma semana.
Uma semana virou meses.
E quando Henrique percebeu, Thor dormia perto da porta do quarto, entrava na caminhonete sem ser chamado e esperava todos os dias pelo barulho do motor chegando.
Henrique sorriu ao lembrar.
"Você roubava minhas meias."
Thor moveu uma orelha.
Rafael riu.
"Ainda rouba."
"Sério?"
"Principalmente as minhas."
Henrique soltou uma risada verdadeira.
Foi a primeira vez que Mariana o ouviu rir daquele jeito.
Por alguns minutos, a sala deixou de parecer parte de uma penitenciária.
Mas nenhuma lembrança boa podia apagar o que veio depois.
Henrique sabia disso.
A própria presença de Thor tornava tudo ainda mais doloroso.
Porque aquele cachorro também existira na última noite da vida antiga de Henrique.
A noite em que tudo terminou.
Henrique voltara tarde de uma confraternização de empresários em Alphaville.
Tinha bebido.
Mais do que devia.
Rafael ofereceu carona.
Henrique recusou.
Um funcionário chamou um aplicativo.
Henrique recusou também.
Disse que estava bem.
Não estava.
Entrou no carro.
Ligou o motor.
E tomou uma decisão que jamais poderia desfazer.
Na Rodovia dos Bandeirantes, perdeu o controle durante uma mudança de faixa.
O impacto atingiu o veículo de Marcelo Prado.
Marcelo tinha quarenta e três anos.
Era casado.
Tinha família.
E naquela noite não voltou para casa.
Henrique sobreviveu.
Marcelo não.
Durante muito tempo, algumas pessoas tentaram encontrar explicações.
A chuva.
A pista.
A velocidade dos outros carros.
Henrique sempre interrompia.
"Não."
Ele repetia isso para advogados.
Para jornalistas.
Para Helena.
Para si mesmo.
"Eu bebi."
"Eu dirigi."
"A responsabilidade é minha."
Na manhã em que foi preso, Thor correu atrás da viatura até o portão.
Henrique ainda conseguia ouvir os latidos.
Talvez por isso tivesse passado tantos anos evitando fotos.
Evitar Thor era também evitar lembrar quem ele tinha sido antes daquela noite.
E quem tinha destruído tudo depois.
Henrique voltou ao presente quando Thor encostou o focinho em sua mão.
"Você não sabe nada disso, né?"
Rafael franziu a testa.
Henrique continuou falando com o cachorro.
"Para você, eu ainda sou só eu."
A voz falhou.
"Talvez seja por isso que dói tanto."
Mariana observou sem interferir.
Henrique não estava pedindo absolvição.
Nem tentando transformar a fidelidade de Thor em prova de que era um homem bom.
Ele sabia que um cachorro não entendia tribunais.
Não entendia culpa.
Não entendia famílias destruídas.
Thor apenas conhecia um cheiro.
Uma voz.
Uma pessoa que tinha desaparecido de repente.
Henrique passou a mão por trás da orelha do animal.
"Como está sua pata?"
Rafael respondeu:
"Artrite."
Henrique fez uma careta.
"Ele sempre odiou demonstrar dor."
"Continua odiando."
"Come bem?"
"Melhor do que eu."
Henrique sorriu.
"E dorme onde?"
Rafael hesitou.
Henrique percebeu.
"Onde?"
"Perto da porta."
O sorriso dele desapareceu.
"Até hoje?"
Rafael respirou fundo.
"Quando escuta uma caminhonete parecida com a sua antiga, ele vai para o portão."
Henrique abaixou a cabeça.
Thor continuava encostado nele.
"Onze anos."
Rafael não disse nada.
"Onze anos esperando uma pessoa que não ia voltar."
"Ele não sabia disso."
Henrique fechou os olhos.
"Eu sabia."
A sala caiu novamente em silêncio.
Henrique acariciou Thor com mais cuidado.
"Se eu tivesse pedido antes..."
Rafael interrompeu.
"Não adianta fazer isso agora."
Henrique ergueu os olhos.
"Fazer o quê?"
"Transformar cada minuto que passou em uma nova condenação."
Henrique ficou calado.
Rafael respirou fundo.
"O Thor não está pensando nos onze anos."
"Como você sabe?"
"Porque ele está aqui."
Henrique olhou para o cachorro.
Rafael continuou:
"Para ele, você voltou hoje."
Henrique fechou os olhos.
Uma lágrima escorreu pelo rosto.
"Eu não mereço tanta facilidade."
"Não é sobre merecer."
Rafael respondeu sem hesitar.
"É só o jeito dele."
Thor começou finalmente a abanar o rabo.
Devagar.
Uma batida leve contra o chão.
Depois outra.
Henrique sorriu.
"Eu lembrava desse barulho."
Ele encostou a testa na cabeça do cachorro.
"Fica só mais um pouco."
Foi então que Paulo consultou o relógio.
Mariana percebeu antes mesmo que ele falasse.
Tentou encontrar alguma maneira de prolongar a visita.
Não havia.
O protocolo já havia sido estendido.
Paulo deu um passo à frente.
"Acabou o tempo."
Henrique congelou.
Thor parou de abanar o rabo.
O velho cachorro levantou lentamente a cabeça.
As orelhas ficaram rígidas.
Seu olhar deixou Henrique.
E se fixou diretamente no agente que começava a caminhar na direção deles.
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