"Seu Último Pedido Foi Ver Seu Cachorro… E O Que Ele Fez Calou A Prisão Inteira" Parte 1
A porta da enfermaria penitenciária se fechou atrás do médico, mas Henrique Vasconcelos continuou olhando para o teto como se não tivesse ouvido a sentença que acabara de receber.
Dessa vez, porém, não havia juiz, advogado ou possibilidade de recurso.
"Quanto tempo?"
O Dr. Eduardo Sampaio hesitou antes de responder.
"Talvez alguns dias. Uma semana, se o seu organismo reagir melhor do que esperamos."
Henrique soltou uma risada curta e amarga.
Depois de tantos anos contando meses, audiências, recursos e aniversários que passavam atrás das grades, agora sua vida podia ser medida em dias.
Aos cinquenta e dois anos, Henrique parecia muito mais velho.
O rosto estava magro, os cabelos escuros haviam sido tomados por fios grisalhos e o uniforme da penitenciária pendia sobre seus ombros como se pertencesse a outro homem.
Do outro lado da sala, a diretora Mariana Ferraz fechou lentamente a pasta médica.
Ela administrava aquele setor havia anos.
Já vira homens implorarem.
Já vira outros gritarem.
Henrique não fez nenhuma das duas coisas.
Ele apenas perguntou:
"Vai doer?"
O médico respirou fundo.
"Vamos controlar a dor."
Henrique assentiu.
"Então está certo."
Mariana franziu a testa.
Não estava certo.
Nada naquela sala estava certo.
Durante quase onze anos, Henrique Vasconcelos estivera preso por provocar um acidente fatal na Rodovia dos Bandeirantes depois de dirigir alcoolizado.
Marcelo Prado morreu naquela noite.
Uma família perdeu um marido e um pai.
E Henrique perdeu praticamente tudo o que possuía.
A empresa de transportes que administrava em São Paulo acabou sendo vendida.
O casamento terminou.
Os amigos desapareceram.
E o filho, Gabriel, deixou de visitá-lo antes mesmo de completar dezoito anos.
Henrique nunca tentou dizer que era inocente.
Nunca culpou a estrada.
Nunca culpou o carro.
Nunca culpou Marcelo.
Quando perguntavam o que havia acontecido, ele sempre dizia a mesma coisa.
"Eu bebi. Eu dirigi. E um homem não voltou para casa por minha causa."
Talvez por isso Mariana tivesse dificuldade para entender a serenidade dele naquele momento.
Ela puxou uma cadeira.
"Henrique."
Ele virou lentamente o rosto.
"Antes de você ser transferido definitivamente para a ala médica, podemos autorizar uma visita especial."
Henrique não respondeu.
Mariana continuou:
"Há alguém que você queira ver?"
O silêncio durou alguns segundos.
Mariana já imaginava a resposta.
Helena.
A ex-esposa.
Ou Gabriel.
Principalmente Gabriel.
Durante anos, havia cartas devolvidas e pedidos de visita não respondidos no prontuário de Henrique.
Mas ele não pronunciou nenhum daqueles nomes.
"Meu cachorro."
Mariana piscou.
"O quê?"
"Eu quero ver meu cachorro."
Até o médico levantou os olhos.
Mariana fechou a pasta.
"Henrique, estou falando de uma pessoa."
"Eu sei."
"Seu filho está vivo."
Henrique desviou o olhar.
"Eu sei."
"Você não quer tentar falar com ele?"
A mandíbula dele se contraiu.
"Gabriel não me deve uma despedida."
Mariana permaneceu em silêncio.
Henrique passou a língua pelos lábios secos.
"Mas o Thor..."
A voz dele falhou pela primeira vez.
Mariana percebeu.
"Thor?"
"Meu cachorro."
Henrique respirou devagar.
"Um pastor-belga-malinois."
"Quantos anos?"
"Treze."
Mariana ergueu as sobrancelhas.
"Treze?"
"Se ainda estiver vivo."
A última frase saiu quase como um sussurro.
Por alguns segundos, Henrique pareceu não estar mais dentro de uma penitenciária.
Parecia estar vendo alguma coisa muito distante.
Uma casa.
Uma garagem.
Um cachorro esperando diante de um portão.
"Eu encontrei o Thor perto de uma estrada em Campinas."
Mariana não interrompeu.
"Ele estava magro. Tinha uma cicatriz no pescoço e não deixava ninguém chegar perto."
Henrique sorriu levemente.
"Eu disse para a Helena que ele ficaria só uma noite."
"E ficou?"
"Treze anos, aparentemente."
Mariana quase sorriu.
Henrique olhou para as próprias mãos.
"Quando fui preso, disseram que ele ficou esperando na porta."
O sorriso desapareceu.
"Três dias."
Mariana fechou os olhos por um instante.
"Depois?"
"Helena não conseguia cuidar dele. O Gabriel também não."
Henrique respirou com dificuldade.
"Então meu amigo Rafael Moreira levou o Thor para a casa dele."
"Você manteve contato?"
"No começo."
"E depois?"
Henrique balançou a cabeça.
"Eu pedi para o Rafael parar de me mandar fotos."
Mariana pareceu surpresa.
"Por quê?"
"Porque doía."
Henrique ficou alguns segundos sem falar.
"Cada foto mostrava que ele estava ficando velho."
Os olhos dele finalmente se encheram.
"E eu continuava aqui."
Mariana se levantou.
"Vou verificar o que podemos fazer."
Henrique segurou o braço da cadeira.
"Mariana."
Ela parou.
"Se ele não estiver mais vivo..."
Henrique engoliu em seco.
"Não precisa me contar agora."
A diretora não respondeu.
Saiu da enfermaria carregando a pasta contra o peito.
Naquela mesma tarde, uma série de telefonemas começou.
Segurança.
Administração.
Veterinário.
Assessoria jurídica.
O pedido parecia simples quando Henrique o pronunciara.
Não era.
Animais não eram autorizados normalmente naquele setor.
Muito menos próximos a presos em estado delicado.
Mariana ouviu três negativas antes de bater a mão sobre a mesa.
"Ele não está pedindo para sair."
O chefe de segurança, Paulo Mendes, cruzou os braços.
"Um animal daquele porte pode reagir de forma imprevisível."
"É um cachorro de treze anos."
"Continua sendo um malinois."
Mariana encarou o homem.
"Então façam avaliação veterinária, usem guia e mantenham dois agentes na sala."
Paulo respirou fundo.
"Você está realmente disposta a criar toda essa operação por causa de um cachorro?"
Mariana ficou alguns segundos em silêncio.
"Não."
Fechou a pasta.
"Estou fazendo isso por causa de vinte minutos."
Naquela noite, em uma casa simples nos arredores de Atibaia, Rafael Moreira ouviu o telefone tocar enquanto colocava ração em uma tigela.
Thor estava deitado perto da porta da cozinha.
O focinho, antes completamente escuro, agora estava coberto de pelos grisalhos.
Uma das patas traseiras já não obedecia com a mesma rapidez.
Ele dormia mais.
Corria menos.
Mas ainda levantava as orelhas quando ouvia o motor da caminhonete de Rafael entrando pelo portão.
"Alô?"
"Senhor Rafael Moreira?"
"Sim."
"Aqui é Mariana Ferraz."
Rafael ficou sério assim que ouviu de onde vinha a ligação.
"É sobre o Henrique?"
Houve um pequeno silêncio.
"É."
Rafael olhou imediatamente para Thor.
"Ele morreu?"
"Não."
Rafael soltou o ar.
"Ainda não."
A maneira como Mariana pronunciou aquelas duas palavras fez Rafael se sentar.
"O que aconteceu?"
"O câncer avançou."
Rafael apertou o telefone com mais força.
"Quanto tempo?"
"Pouco."
Thor abriu os olhos ao ouvir a voz baixa do homem.
Mariana continuou:
"Henrique fez um pedido."
Rafael já sabia qual era antes mesmo que ela dissesse.
"Ele quer ver o Thor."
Rafael fechou os olhos.
Onze anos.
Durante onze anos, aquele nome nunca deixara completamente aquela casa.
No início, Rafael recebia cartas de Henrique.
Perguntas simples.
Se Thor estava comendo.
Se ainda dormia perto da porta.
Se tinha medo de trovão.
Se continuava roubando meias.
Depois as cartas diminuíram.
Até pararem.
Rafael olhou para o cachorro.
"Ele ainda está vivo."
"Consegue viajar?"
"Com algumas pausas."
"Precisamos de uma avaliação veterinária amanhã cedo."
Rafael passou a mão pelo rosto.
"Henrique sabe que ele está vivo?"
"Não."
"Então diga a ele."
Mariana ficou em silêncio.
Rafael olhou novamente para Thor.
"Não."
Mudou de ideia.
"Não diga nada."
"Por quê?"
"Porque eu mesmo vou levá-lo."
Depois que desligou, Rafael continuou sentado durante vários minutos.
Thor o observava.
Finalmente, ele se levantou.
Caminhou até o cachorro e se agachou diante dele.
"Velho..."
Thor piscou lentamente.
Rafael passou a mão pelos pelos grisalhos de seu pescoço.
"Você não faz ideia da viagem que vamos fazer amanhã."
Thor permaneceu imóvel.
Rafael tentou sorrir.
"Ele quer ver você."
Nenhuma reação.
Thor apenas apoiou novamente o focinho sobre as patas.
Rafael respirou fundo.
Depois pronunciou uma única palavra.
"Henrique."
As orelhas de Thor se levantaram imediatamente.
O cachorro ergueu a cabeça.
Rafael congelou.
Durante alguns segundos, homem e animal apenas se olharam.
Então Thor ficou de pé.
Devagar.
Com dificuldade.
Mas ficou.
Na manhã seguinte, Henrique não conseguiu dormir.
Às nove horas e vinte minutos, dois agentes o levaram até uma pequena sala de visitas adaptada.
Ele parecia ainda mais fraco.
As mãos tremiam.
"Ele veio?"
Mariana não respondeu.
Henrique olhou para ela.
"Mariana."
Ela apenas disse:
"Espere."
Do outro lado da porta de aço, ouviu-se um som.
Passos.
Depois outro.
Um ruído leve de unhas tocando o piso do corredor.
Henrique parou de respirar por um instante.
Seus olhos se encheram imediatamente.
A porta começou a abrir.
Primeiro apareceu Rafael.
Mais velho.
Cabelos grisalhos.
Henrique mal conseguiu olhar para ele.
Porque logo atrás surgiu Thor.
O cachorro entrou lentamente.
Focinho branco.
Corpo envelhecido.
Uma das patas ligeiramente rígida.
Henrique levou as mãos à boca.
Onze anos desapareceram de seu rosto.
Por um segundo, ele não era um presidiário.
Não era um homem doente.
Não era o responsável por uma tragédia.
Era apenas alguém vendo o melhor amigo depois de tempo demais.
"Thor..."
A voz saiu quebrada.
O velho cachorro parou.
Completamente imóvel.
Seus olhos se fixaram em Henrique.
E ele não deu mais nenhum passo.
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