"A Madrasta Contratada pelo Don" Capítulo 5
Léo manteve os olhos na janela durante todo o caminho.
Cada buzina fazia seus ombros subirem. Nora nomeava coisas simples: uma banca de flores, dois cachorros, um ônibus vermelho. Augusto acompanhava pelo carro de segurança, longe o bastante para não transformar o passeio em escolta militar.
Na clínica, Léo recusou a sala de espera. Nora pediu autorização e deixou a porta do consultório aberta. O menino sentou no chão com o boneco enquanto a médica examinava o joelho dela e solicitava exames.
— Você trabalha com nutrição? — perguntou a médica, lendo o cadastro.
— Trabalhei.
— Está procurando retorno?
Nora hesitou.
— Estou lembrando como se procura.
A médica entregou o contato de um centro infantil que precisava de consultoria alimentar. Nora guardou o cartão sem saber se Luca consideraria aquilo quebra de contrato.
Na saída, Léo apontou para uma praça.
— Cinco minutos — disse Nora.
Sentaram num banco. Léo observou crianças correndo até uma bola rolar perto dos seus pés. Um garoto pediu que devolvesse. Léo congelou.
Nora não respondeu por ele. Depois de alguns segundos, Léo empurrou a bola com a ponta do sapato. O garoto agradeceu e voltou para os amigos.
— Ele não me bateu — falou Léo.
— A maioria das pessoas não bate.
— Papai diz que tem homens ruins.
— Tem. Também tem gente que só quer a bola de volta.
Uma voz conhecida interrompeu.
— Nora?
Sebastião saiu de um café acompanhado por dois homens de terno. O olhar desceu até o vestido verde dela, parou no anel e foi até Léo.
— Então é verdade. Você virou babá.
Nora se levantou.
— Não é assunto seu.
— Minha mãe disse que viu você entrando num carro dos Castellano. Achei exagero.
— Diga a ela que encontrou outra pessoa para vigiar.
Sebastião aproximou-se. O perfume dele trouxe de volta o hall dos Ferraz e a sensação de pedir licença para abrir a própria geladeira.
— Isso é para me provocar?
— Você me expulsou.
— Eu queria que aprendesse.
Léo levantou do banco e ficou diante de Nora.
— Ela não é babá.
Sebastião riu.
— E você é quem?
— Filho dela.
A resposta surpreendeu os três. Léo agarrou a mão de Nora e apontou o queixo para o carro.
— Vamos para casa.
Nora não corrigiu a palavra. Passou por Sebastião.
— Você vai voltar quando cansar de brincar de família — disse ele. — Gente como os Castellano não mantém mulher como você à mesa.
Augusto abriu a porta do carro antes que Nora respondesse. Léo entrou e bateu a porta com as duas mãos.
Durante o trajeto, permaneceu calado. No portão, começou a respirar rápido. Nora pediu que Augusto parasse o veículo.
— O que foi?
— Ele vai pegar você.
— Não vai.
— Homens ruins pegam mães.
Nora tirou o cartão da clínica da bolsa e entregou a ele.
— Amanhã vou ligar para esse lugar. Quero voltar a trabalhar algumas horas. Depois volto para casa. Quando eu sair, você saberá onde estou e quando volto.
— Promete?
— Prometo o horário. Se atrasar, ligo.
Léo guardou o cartão dentro da roupa do boneco.
Naquela noite, Luca chegou antes da sobremesa. Augusto devia ter enviado um relatório. Ele ouviu Léo contar o encontro inteiro, inclusive a parte em que chamara Nora de mãe.
— Você fez bem em ficar perto dela — disse Luca. — Da próxima vez, chama Augusto. Não enfrenta adulto sozinho.
— Você vai matar ele?
Nora pousou o talher.
— Ninguém vai matar ninguém.
Luca enxugou a boca.
— Seu ex administra a Ferraz Capital?
— Luca.
— Perguntei o nome da empresa.
— Não faça nada por mim sem perguntar.
Léo olhava de um para o outro. Nora estendeu a mão ao menino.
— Hora da história.
Depois que ele dormiu, Luca esperava no corredor.
— A Ferraz Capital presta serviços a duas empresas minhas.
— Isso não lhe dá direito de usar meu divórcio numa decisão comercial.
— Dá direito de revisar contratos.
— Revise pelo trabalho deles. Não pelo que Sebastião falou de mim.
— Ele segurou você?
— Não.
— Ameaçou?
— Foi arrogante. Eu sobrevivo.
Luca aproximou-se. A mão dele subiu e prendeu uma mecha solta atrás da orelha de Nora. O toque durou menos de um segundo.
— Posso fazer com que nunca mais fale com você.
— Isso foi ameaça ou gentileza?
— Escolha.
Nora recuou.
— Eu escolho decidir por mim.
Luca baixou a mão.
— Certo.
Nas duas semanas seguintes, ele chegou para o jantar todos os dias. Desligava o telefone, montava blocos no tapete e lia a última página. Na terceira noite, Léo empurrou uma cadeira para Nora ficar entre os dois.
Helena anotou a mudança.
— Três pessoas repetindo a mesma rotina — disse. — Isso é família para o sistema nervoso de uma criança.
Luca colocou um bloco vermelho no alto da torre.
— Amanhã há um evento beneficente. Preciso de acompanhante.
Nora ergueu a cabeça.
— Contrate uma.
— Já contratei.
Ele apontou o anel no dedo dela.
Naquela mesma manhã, Luca acompanhou Léo até o jardim antes de sair para uma reunião. O menino levou uma bola, mas parou ao ver homens da segurança perto do portão. Luca dispensou dois e manteve um à distância.
— Eles vão embora se eu pedir? — perguntou Léo.
— Alguns, sim. Um fica para cuidar da casa.
Nora aprovou a resposta. Luca não prometera ausência total de perigo. Dera ao filho uma escolha possível. Léo chutou a bola e acertou a barra do portão. O som metálico o fez recuar, mas ele não correu para dentro. Pediu outro chute.
Antes do evento, Nora ligou para o centro infantil. A coordenadora pediu currículo e uma proposta curta. Ela trabalhou na mesa da cozinha enquanto Léo desenhava alimentos com rostos. Luca chegou e encontrou os dois discutindo se cenoura devia usar capa.
— Está procurando outro emprego? — perguntou.
— Estou procurando o meu.
Luca observou o currículo com três anos vazios. Nora esperou uma objeção.
— Coloque o projeto de alimentação do Léo — disse ele.
— Não posso expor seu filho.
— Descreva o método, sem o nome. Foi trabalho.
A palavra atingiu o lugar exato que Sebastião passara anos apagando. Nora acrescentou "intervenção doméstica em seletividade alimentar associada a trauma", com autorização escrita de Helena.
Luca não tentou assinar o texto. Apenas levou Léo para o banho para que ela terminasse.
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