"A Madrasta Contratada pelo Don" Capítulo 1
A xícara bateu no mármore e se abriu em três pedaços.
O café correu até a beirada da mesa, pingou no vestido de Nora e manchou as folhas que Sebastião Ferraz acabara de empurrar contra o prato dela. No alto da primeira página, a palavra DIVÓRCIO ocupava uma linha inteira.
— Assina. Você me dá vergonha.
Nora ainda segurava o garfo. Havia uma fatia de bolo no prato, servida pela governanta depois de um jantar em que ela passara duas horas ouvindo a sogra falar sobre calorias.
— Você quebrou a xícara da sua mãe.
— Eu compro outra.
Sebastião ajeitou o nó da gravata diante do reflexo na porta de vidro. O gesto era o mesmo que fazia antes de reuniões, enterros e mentiras.
— É isso que você tem para dizer?
— O advogado marcou onde você precisa assinar.
Nora baixou o garfo. Três anos antes, entrara naquela casa com uma mala, um diploma de nutrição e a promessa de continuar trabalhando. Em seis meses, a mãe de Sebastião dispensara a babá do sobrinho. Em oito, Nora já faltava às consultas para buscar o menino na escola. Depois vieram os almoços da família, as viagens canceladas e as piadas sobre a mulher que estudara tanto para ficar em casa comendo.
— E o dinheiro da minha clínica?
— Que clínica?
— A sala que aluguei antes do casamento. O equipamento que vendi quando sua irmã disse que precisava de mim.
Sebastião soltou um riso curto.
— Você viveu três anos sem pagar uma conta. Considere quitado.
Nora virou a última página. O acordo previa renúncia a qualquer participação na Ferraz Capital, ausência de pensão e saída imediata da residência. O advogado indicado pela família deixara um adesivo amarelo junto à assinatura.
— Você preparou isso há quanto tempo?
— Tempo suficiente.
Ela olhou para o corredor. Nenhum dos empregados apareceu. Na casa dos Ferraz, as portas aprendiam a ficar fechadas antes das pessoas.
— Tem outra mulher?
— Tem uma vida que eu quero recuperar.
— Isso não responde.
Sebastião apoiou as duas mãos na mesa.
— Estou cansado de entrar num restaurante e ver gente olhando. Cansado de ouvir minha mãe dizer que você não se controla. Você come, dorme e cuida do filho dos outros como se isso fosse profissão.
Nora puxou as folhas para perto. A ponta da caneta tremia quando escreveu o primeiro nome. Sebastião sorriu antes de ela terminar o sobrenome.
— Vai sair mais fácil do que entrou.
Ela fechou a caneta.
— Ainda não terminei.
Riscou a cláusula que proibia comentários públicos sobre a família. Ao lado, escreveu que manteria o direito de relatar experiências pessoais sem divulgar dados empresariais. Assinou novamente e empurrou o documento.
— Seu advogado vai reclamar.
— Ele pode me ligar.
— Você não tem advogado.
— Vou ter.
O sorriso dele diminuiu. Sebastião pegou o telefone e mandou alguém buscar as coisas dela. Dez minutos depois, um motorista deixou um saco de viagem no hall. Duas mudas de roupa, uma nécessaire, documentos e um par de sapatos estavam amontoados ali. A caixa com os livros não veio.
Nora abriu o saco e encontrou a pasta transparente com o diploma. A governanta devia tê-la escondido entre as roupas. Nora passou o polegar pelo nome impresso: Nora de Almeida Batista, nutricionista.
— O carro leva você a um hotel — disse Sebastião.
— Por conta de quem?
— Não complica.
Ela pegou a bolsa e caminhou até a porta. A chuva fazia o jardim desaparecer atrás de uma cortina cinza.
— Nora.
Ela olhou por cima do ombro.
— Quando o dinheiro acabar, você vai entender. Peça desculpas à minha mãe, perca uns vinte quilos e talvez eu reconsidere.
Nora abriu a porta.
— Você vai se arrepender de ter me tratado assim.
— Isso é ameaça?
— É memória.
O motorista não estava no pórtico. Um segurança colocou o saco na calçada e fechou o portão. Nora tocou o interfone uma vez. Ninguém respondeu.
Ela tinha cento e oitenta e sete reais na carteira e um cartão adicional que parou de funcionar na primeira tentativa. Caminhou até um ponto de ônibus, abraçada ao saco. A água entrou pelos sapatos. Dois ônibus passaram sem parar.
Na marquise de uma farmácia, Nora ligou para três amigas. Uma estava fora da cidade. Outra dividia apartamento com quatro pessoas. A terceira atendeu, ouviu metade da história e desligou quando Nora perguntou se poderia passar a noite.
O letreiro da farmácia apagou à meia-noite. Nora continuou andando.
Um papel branco preso a um poste se soltou numa ponta e bateu contra o metal. Ela segurou antes que o vento o arrancasse.
PROCURA-SE MADRASTA PARA UMA CRIANÇA.
Moradia, alimentação e remuneração incluídas. Experiência com famílias particulares. Discrição obrigatória.
Havia um endereço no Jardim Europa e um número escrito à mão. Nora releu a palavra madrasta.
— Pelo menos não escreveram magra — murmurou.
Ligou.
Um homem atendeu no segundo toque.
— Nome?
— Nora Batista. Vi o anúncio.
— Experiência?
— Nutricionista. Cuidei de uma criança por dois anos.
— Está sozinha?
Nora olhou a rua vazia.
— Estou.
— Fique onde está.
Uma berlina preta encostou sete minutos depois. O motorista abriu a porta sem perguntar se ela era Nora. Dentro, um homem de cabelos grisalhos e luvas brancas indicou o banco oposto.
— Augusto Bianchi. Administro a residência Castellano.
O sobrenome atravessou o cansaço. Nora conhecia as fotografias de jornal, os processos arquivados e as histórias que ninguém contava diante de microfones.
— Castellano como Luca Castellano?
— Exatamente.
— O anúncio é verdadeiro?
— O menino também.
Augusto examinou o vestido encharcado e o saco de viagem.
— O Don precisa de uma mãe para o filho. Não de uma mulher para si. Ele é jovem, rico e recebe atenção demais. Não confunda funções.
— Acabei de sair de um casamento. Pode ficar tranquilo.
O carro entrou por portões de ferro e subiu uma alameda iluminada. A mansão de pedra ocupava o alto do terreno. Nora viu homens de terno junto às árvores e câmeras acompanhando o veículo.
Augusto a conduziu por um hall de mármore. O saco molhado deixou uma trilha atrás deles.
Ao passarem por uma porta entreaberta, um estampido sacudiu o corredor.
Um homem caiu no tapete do escritório.
Nora soltou a alça. O saco bateu no chão.
— Tem um homem caído ali.
Augusto fechou a porta com a mão enluvada.
— O Don só está resolvendo um problema.
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