"O Menino Que Quebrou o Farol do Milionário" Capítulo 3
Renata abriu o testamento numa sala reservada do hospital.
Heloísa permaneceu com Caio diante do aquário da pediatria. O menino não aceitara o abraço, mas permitira que ela sentasse no banco ao lado.
— Meu pai deixou vinte por cento do Grupo Montenegro ao primeiro filho que eu tivesse.
— Caio foi registrado no nascimento — disse Renata. — As ações chegaram a entrar num fundo em nome dele.
— Depois ele morreu.
— Depois alguém o declarou morto. As cotas reverteram para você. Três anos mais tarde, ao se casar sob comunhão parcial com Camila e alterar o acordo de acionistas, você deu a ela poder de voto sobre parte desse bloco.
Adriano encostou as duas mãos na mesa.
— Ela não queria apenas me afastar de Olívia.
— Precisamos provar o motivo financeiro. A sequência favorece essa hipótese, mas tribunal não condena sequência bonita.
— Renata.
— Fatos, Adriano. Quem informou a morte? Quem identificou o carro? Quem produziu as certidões? Quem recebeu as cartas? E onde está o documento falso com sua assinatura?
Ele olhou pela divisória de vidro. Caio apontava um peixe para Heloísa, mantendo meio metro entre os dois.
— Encontre tudo.
— Vou precisar de acesso aos arquivos pessoais de Camila.
— Concedido.
— Acesso legal. Não mande alguém arrombar gaveta.
Adriano puxou uma cadeira e sentou. O gesto fez Renata guardar a caneta.
— Eu ia fazer exatamente isso.
— Eu sei.
No quarto, Olívia assinava formulários de internação. Parou ao encontrar o campo de responsável financeiro.
— O hospital pode cobrar de mim — disse Adriano.
— Depois você usa a dívida para decidir por nós.
— O pagamento será feito por um fundo administrado pelo hospital. Eu não terei acesso ao seu prontuário nem poder sobre a alta.
Ela ergueu os olhos.
— Foi a advogada que ensinou essa frase?
— Foi.
— Pelo menos admite.
Olívia assinou. Adriano não tocou no papel.
Caio entrou com Heloísa e parou ao lado da cama. A avó retirou de uma corrente no pescoço uma pequena chave.
— A pulseira que você usa tinha uma placa com seu nome.
Caio cobriu o pulso.
— É da minha mãe.
— Eu dei a ela no dia em que você nasceu. Guardei a chave do fecho.
Heloísa mostrou a peça, mas não tentou se aproximar.
— Posso ver?
Caio olhou para Olívia. Ela assentiu. A chave encaixou no fecho, e a placa girou. No verso, sob riscos de sete anos, estavam as iniciais C.A.M.
— Caio Augusto Montenegro — disse Heloísa.
— Meu nome é Caio Duarte.
— É o nome que sua mãe lhe deu e o nome que vamos respeitar.
Olívia observou Heloísa.
— Você mudou.
— Não o suficiente e tarde demais.
O médico voltou com os resultados. O coração de Olívia apresentava uma lesão antiga, agravada pela falta de acompanhamento. A cirurgia poderia corrigir parte do dano, mas o risco era alto.
— Amanhã cedo — disse ele. — Precisamos de consentimento e uma indicação de guarda emergencial para Caio.
— Heloísa — respondeu Olívia.
Adriano virou o rosto para a janela. Renata o observara, preparada para impedir uma discussão.
— Entendo — ele disse.
Olívia demorou a voltar à assinatura.
— O homem que conheci teria discutido.
— O homem que você conheceu acreditava que dinheiro resolvia tudo.
— E você acredita em quê agora?
Adriano olhou para Caio, que contava os bipes do monitor.
— Que ele precisa de alguém em quem já confia.
Heloísa recebeu os documentos. Seus dedos tremeram sobre a linha da assinatura.
— Antes do acidente, Olívia me ligou — disse.
Adriano levantou a cabeça.
— O quê?
— Falou que Camila a estava ameaçando. Eu disse que era ciúme. Pedi que não criasse conflito enquanto você tentava salvar a empresa.
Olívia fechou os olhos.
— Você me mandou cuidar do meu filho e parar de imaginar inimigos.
Heloísa não procurou outra versão.
— Mandei.
— E depois organizou meu enterro.
— Organizei.
Caio olhou de uma mulher para a outra.
— Vovó fez uma coisa ruim?
Heloísa se agachou diante dele.
— Fiz. Sua mãe pediu ajuda, e eu escolhi a resposta mais fácil.
— Vai pedir desculpa?
— Todos os dias, se ela permitir.
O telefone de Olívia vibrou sobre a mesa. Número oculto. Adriano fez sinal para Renata, que ativou a gravação antes que Olívia atendesse no viva-voz.
— Alô?
A voz de Camila saiu clara.
— Soube que você reapareceu. Sempre foi inconveniente.
Adriano fechou a mão, mas permaneceu fora do campo da câmera.
— O que você quer?
— Renuncie à herança de Caio. Assine hoje, e sua cirurgia será paga.
— E se eu não assinar?
— Morra sabendo que seu filho ficará sozinho.
Olívia desligou. Renata salvou a gravação em dois dispositivos.
Adriano soltou os dedos um por um.
— Amanhã Camila oferece um almoço para mães enlutadas.
— Você não vai matá-la — disse Renata.
— Não.
Ele pegou a fotografia rasgada sobre a mesa.
— Vou deixá-la viva quando todos descobrirem sobre quais túmulos ela construiu a reputação.
Renata recolheu o telefone de Olívia para copiar a gravação. Antes de sair, pediu o nome do hospital onde ela despertara sete anos antes.
— Santa Marta, em Guarulhos. Pelo menos era o nome na pulseira.
— Houve alta formal?
— Uma mulher trouxe uma cadeira de rodas e papéis. Eu assinei com o nome falso que usaram na internação.
— Lembra qual?
— Lívia Santos.
Renata anotou. Heloísa reconheceu o sobrenome.
— A mãe de Camila se chamava Lívia.
O detalhe ligava o cadastro falso a alguém do círculo da antagonista, mas Renata ainda evitou conclusões.
— Vamos buscar o formulário original e as imagens da saída.
Olívia puxou o lençol até a cintura.
— As imagens não existem depois de sete anos.
— Talvez não. Registros de faturamento, descarte de medicamento e escala de pessoal costumam sobreviver mais que vídeo.
Miriam ainda não tinha sido localizada, mas o nome dela aparecia numa ficha parcial. Adriano pediu que Renata encontrasse a enfermeira sem envolver funcionários do grupo. Se Camila monitorava os arquivos, qualquer busca interna poderia avisá-la.
Caio perguntou se precisaria trocar de escola quando a imprensa descobrisse.
— Ninguém vai divulgar seu nome — disse Adriano.
— Você consegue mandar nos jornais?
— Não em todos.
— Então não promete.
— Vou fazer o possível para proteger sua privacidade.
— Melhor.
O menino se sentou perto da janela e começou a fazer a lição. Heloísa ofereceu ajuda na matemática. Caio recusou, depois empurrou o caderno quando encontrou uma divisão difícil.
Enquanto os dois trabalhavam, Olívia perguntou a Adriano sobre o funeral.
— Quem identificou minhas coisas?
— Camila acompanhou a polícia. Disse que queria me poupar.
— Minha mãe já tinha morrido. Não havia outra pessoa para perguntar.
— Eu deveria ter visto o carro.
— Deveria ter visto os caixões.
— Disseram que não havia corpos recuperáveis.
— E você aceitou.
— Aceitei.
Olívia fechou a mão sobre o lençol.
— Passei anos imaginando você lendo minhas cartas e jogando fora.
— Passei anos falando com uma pedra que tinha seu nome.
Ela virou o rosto. Adriano permaneceu na cadeira. A distância entre eles continuava do tamanho de um quarto, mas pela primeira vez as duas versões do luto estavam no mesmo lugar.
Uma técnica entrou para coletar sangue. Caio fechou o caderno e ficou ao lado da mãe. Adriano observou o menino preparar o algodão e percebeu que aquela competência vinha de repetição.
— Depois da cirurgia, isso muda — disse.
Olívia o encarou.
— O quê?
— Caio volta a ser criança. Os adultos cuidam dos horários.
— Quais adultos?
— Os que você escolher.
Naquela noite, Adriano pediu ao hospital uma poltrona, não uma sala particular. Ficou no corredor enquanto Caio dormia com a cabeça no colo de Heloísa. A cada troca de equipe, anotava nomes e horários num caderno barato comprado na farmácia.
Quando uma enfermeira perguntou se ele queria prioridade por ser Montenegro, respondeu que queria apenas o mesmo boletim dado a qualquer pai. Olívia ouviu da cama e não agradeceu.
Ainda assim, deixou a porta entreaberta. Para Adriano, aquela fresta valia mais que qualquer autorização obtida por influência.
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