"O Menino Que Quebrou o Farol do Milionário" Capítulo 2
Um envelope escorregou do lençol e parou junto ao sapato de Adriano.
Ele se abaixou. Seu nome estava escrito na frente, acompanhado do endereço da sede do Grupo Montenegro. Um carimbo vermelho atravessava a caligrafia de Olívia: DESTINATÁRIO RECUSA CONTATO.
— Eu nunca vi isto.
— Eu mandei quarenta e três.
Olívia empurrou a pasta. Havia cartas para o escritório, a mansão, o clube e a casa de Heloísa. Algumas tinham fotografias presas por clipes. Caio aos dois anos, com bolo no rosto. Caio numa cama de pronto atendimento. Caio segurando um certificado escolar.
— Quem devolveu?
— Camila.
Adriano abriu o primeiro envelope. A carta continuava lacrada. No verso, abaixo do carimbo dos Correios, havia uma rubrica do protocolo interno da empresa.
— Ela era minha assistente quando Caio nasceu.
— Eu sei o cargo que ela tinha.
— Controlava minha agenda, não minha vida.
Olívia o encarou. A cânula se moveu com sua respiração curta.
— Ela controlou as duas coisas.
Os paramédicos entraram com a maca. Adriano se afastou enquanto examinavam Olívia. Pressão baixa, saturação instável, pulso irregular. A voluntária ajudou Caio a pegar a mochila.
— Eu vou com ela — disse o menino.
— Criança não pode ir sozinha — respondeu um paramédico.
— Eu sempre vou.
Adriano mostrou o documento.
— Sou o pai.
Olívia ergueu a cabeça.
— Ainda não provou nada.
— Então sou o responsável que vai acompanhar os dois até você escolher outra pessoa.
Ela fechou os olhos. O paramédico esperou a objeção. Olívia não tinha fôlego para oferecê-la.
Caio entrou na ambulância ao lado da maca. Adriano sentou no banco oposto. Quando o veículo arrancou, Bento apareceu no portão com o SUV avariado. Adriano apontou para a pasta deixada na cama.
— Leve aquilo para Renata. Ninguém toca nos envelopes sem luvas.
No caminho, Olívia manteve os olhos fechados. Caio monitorava cada ruído da máquina.
— Ela fica assim quando está com medo — explicou.
— E você?
— Eu jogo pedra.
Adriano baixou o rosto. O menino observou o movimento.
— Você vai mandar me prender?
— Não.
— Vai cobrar o farol?
— Também não.
— Gente rica cobra tudo.
Olívia abriu os olhos.
— Caio.
— Foi o que a dona do quarto falou.
Adriano tirou o paletó e colocou-o dobrado sob os pés de Olívia, impedindo que batessem na estrutura durante as curvas. Ela viu, mas não agradeceu.
No Hospital Santa Augusta, uma equipe aguardava na entrada. Adriano tentou acompanhar a maca e foi bloqueado.
— Apenas familiar autorizado.
— Ele é meu pai — disse Caio.
As palavras saíram por necessidade, sem afeto. Ainda assim, Adriano parou.
Olívia foi levada para exames. Uma assistente social acomodou Caio numa sala com sofá e ofereceu chocolate. O menino recusou. Sentou com a mochila no colo, perto da porta.
— Sua mãe tem algum parente?
— Não.
— Amigo adulto?
— A irmã Cecília do abrigo.
— E seu pai?
Caio apontou para Adriano sem olhar.
A palavra voltou a feri-lo. Adriano ligou para Heloísa. A mãe atendeu no segundo toque.
— Estou entrando numa reunião.
— Saia.
— O que aconteceu?
— Caio está vivo.
O silêncio durou tanto que Adriano verificou a tela.
— Mãe?
— Onde?
— Santa Augusta. Venha sozinha.
Renata chegou antes de Heloísa. Vestia o mesmo terno grafite da reunião cancelada e carregava a pasta azul dentro de um saco de evidências.
— Bento me contou a versão curta. Quero a longa.
Adriano falou sem tirar os olhos da porta dos exames. Renata fotografou os carimbos e pediu preservação das câmeras do protocolo da empresa.
— Camila tem acesso atual aos arquivos?
— É vice-presidente do conselho.
— E sua esposa.
— Por enquanto.
— Não diga isso por telefone, mensagem ou perto de microfone. Primeiro, prova.
O médico apareceu. Olívia tinha cardiomiopatia agravada por anos sem tratamento adequado. Precisava ser internada e submetida a uma cirurgia urgente.
— Quanto tempo temos? — perguntou Adriano.
— Dias seriam otimistas. Vamos estabilizá-la hoje.
Caio deixou a mochila cair.
— Ela vai morrer?
O médico se agachou.
— Estamos trabalhando para que isso não aconteça.
Quando permitiram a entrada, Olívia estava num leito monitorado. Adriano ficou do lado de fora até ela autorizar com um gesto.
— Eu pago tudo — disse.
Ela virou o rosto.
— Não quero seu dinheiro.
— Estou tentando manter a mãe do meu filho viva.
— Nosso filho precisava de você há sete anos.
— Eu enterrei vocês.
— E nunca abriu os caixões.
Adriano segurou a grade da cama. A resposta pronta morreu antes de chegar à boca.
— Conte desde o começo.
Olívia olhou para Caio. A assistente social o levou para escolher alguma coisa na lanchonete. Quando a porta fechou, ela falou.
Camila a visitara dois dias depois da viagem de Adriano. Levara um cheque e documentos de guarda. Dissera que Adriano se arrependia de ter um filho e queria evitar escândalo.
— Eu rasguei o cheque na frente dela.
— E depois?
— Três noites depois, um carro nos tirou da estrada.
Adriano perdeu a cor.
— Você caiu da ponte.
— Um caminhoneiro nos puxou antes do fogo. Acordei doze dias depois com outro sobrenome, sem documentos e sem telefone. Camila estava ao lado da cama.
— Por que ela?
— Disse que você sabia. Mostrou um documento com sua assinatura renunciando à paternidade.
— Eu nunca assinei.
— Eu estava com pontos na cabeça, um bebê nos braços e uma mulher dizendo que seus advogados me declarariam instável. Ela prometeu tirar Caio de mim se eu voltasse.
Adriano abriu a boca. Olívia ergueu a mão.
— Não me diga que eu devia ter lutado mais.
— Não vou.
A porta se abriu. Heloísa entrou e viu Caio chegando pelo corredor com um pacote de biscoitos. A bolsa escapou de sua mão.
Ela fixou os olhos na pulseira de prata no pulso do menino.
— Meu neto.
Caio se escondeu atrás da assistente social.
Heloísa cobriu a boca, chorando. Renata surgiu logo depois, segurando uma cópia do testamento do falecido patriarca.
— Adriano, precisamos falar sobre as ações que pertenciam ao seu primogênito.
Caio puxou a manga de Heloísa antes que ela acompanhasse Renata.
— Se minha mãe dormir, ela acorda?
— Os médicos vão cuidar para que acorde.
— Isso é promessa?
Heloísa abriu a boca e a fechou. Sentou no banco novamente.
— É o que eu desejo. Prometer seria mentir.
Caio examinou o rosto dela e ofereceu um biscoito do pacote. Heloísa aceitou. Adriano viu a mãe, acostumada a talheres de prata, comer um biscoito quebrado sem retirar as migalhas do colo.
No corredor, Renata entregou a Adriano uma cópia digitalizada da primeira carta. Olívia escrevera oito meses após o acidente. Contava que Caio tivera pneumonia e perguntava apenas pelo histórico médico da família. Nenhum pedido de dinheiro.
A segunda carta relatava os primeiros passos. A terceira trazia um endereço temporário e uma frase curta: "Se não quer nos ver, diga você mesmo."
— Quantas chegaram ao protocolo? — perguntou Adriano.
— Pelo menos vinte e sete. As demais voltaram da mansão ou do clube.
— Ninguém estranhou?
— Camila assinava o relatório de correspondência privada. Quando passou de assistente a diretora, manteve esse controle sob a justificativa de segurança.
Adriano lembrava das pilhas organizadas sobre sua mesa, dos envelopes que Camila separava e das condolências que respondia em nome dele. Depois do funeral, ele passara meses assinando o que ela indicava.
— Ela escolhia quais lembranças chegavam até mim.
— E você entregou a chave — disse Renata.
— Entreguei.
— Essa admissão será importante quando a defesa tentar transformar você em vítima perfeita.
— Não sou.
— Ótimo. Vítimas perfeitas não existem. Provas, sim.
Uma enfermeira chamou Adriano para informar dados de contato. Ele forneceu o próprio número e o de Heloísa. No campo "relação com a paciente", parou.
— Ex-companheiro — disse Olívia do leito.
Ele escreveu sem corrigir.
Caio apareceu na porta segurando a lancheira vazia.
— A gente não trouxe roupa para dormir.
— Bento pode buscar no abrigo.
— Não deixa ele mexer na gaveta de baixo.
— Por quê?
— Tem cartas que mamãe não mandou.
Olívia fechou os olhos.
— Caio.
— O quê? Agora ele já sabe das outras.
Adriano não perguntou pelo conteúdo. Ligou para Bento e repetiu exatamente quais roupas pegar e quais gavetas não abrir. Olívia ouviu cada instrução.
— Você costumava entrar em qualquer lugar — disse depois.
— Eu costumava achar que permissão atrasava soluções.
— E agora?
— A falta dela atrasou sete anos.
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