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"O Chefe da Máfia Descobriu os Trigêmeos" Capítulo 4

正文开头

O nome do antigo advogado permaneceu no corredor depois que o elevador desceu.

Clara trancou a porta e abriu a pasta do divórcio. Martin recomendara rapidez, chamara o acordo de generoso e colocara marcadores amarelos onde ela devia assinar. Não havia qualquer menção a ações da Montenegro Navegação.

Serena chegou na manhã seguinte com jeans, suéter azul-marinho e uma pasta de couro. Sem maquiagem de campanha, parecia cansada e mais velha do que nas capas de revista.

— Eu devia ter entregado isso há cinco anos.

Ela bateu a pasta sobre a mesa. O som fez Clara lembrar dos papéis de Gabriel caindo ao lado da xícara.

— Por que não entregou?

— Daniel morreu três dias depois do divórcio. Minha casa virou um posto de imprensa. Eu não sabia quem estava envolvido nos desvios.

— Você podia ter me procurado.

— Procurei. Gabriel disse que você não queria contato.

Clara soltou uma risada seca.

— Ele decidiu por mim até depois de me expulsar.

— Sim.

A ausência de defesa desarmou a próxima frase.

Serena empurrou o envelope. O nome "Clara Cruz" estava escrito à mão. Clara rompeu o selo e encontrou quatro páginas de Daniel Valença.

"Se Serena lhe entregar esta carta, Gabriel fez algo espetacularmente estúpido."

Clara leu em voz alta. Serena deixou escapar um breve sorriso.

Daniel descrevia o marido como um homem que confundia responsabilidade com carregar tudo sozinho. Avisava que segredos impediam os outros de escolher. Se Gabriel afirmasse não querer o casamento, Clara deveria comparar palavras e comportamento. Não devia desculpar a mentira, mesmo motivada por medo. Também não devia confundir medo com indiferença.

Na última página, Daniel mencionava a carreira de Clara. Lembrava uma conversa sobre restauração de bibliotecas e teatros. Escrevera: "Não permita que as escolhas de Gabriel deem forma à sua vida inteira."

As letras perderam nitidez. Clara dobrou o papel.

— Você sabia que ele ia me deixar?

— Daniel suspeitava. Quando Gabriel contou que havia entrado com o pedido, tentei impedir.

— Você estava na mesa dele.

— Tive uma crise de pânico. Daniel acabara de falar dos desvios.

— E o beijo?

— No meu rosto.

Clara se levantou e caminhou até a janela. Cinco anos reduzidos a um ângulo visto de dentro de um elevador. Ainda assim, o beijo não assinara os papéis. Gabriel assinara.

— Vocês nunca ficaram juntos?

— Nunca. Anos depois, em Chicago, talvez tenhamos pensado nisso por dez minutos.

— Dez?

— Bebemos vinho e falamos dos nossos cônjuges mortos ou perdidos. Foi péssimo.

Clara riu contra a vontade.

Serena retirou uma cópia das anotações de Daniel. No alto apareciam Cruz Logística, Valença Capital e outras empresas. Uma data estava circulada: o dia do pedido de divórcio.

Ao lado, Daniel escrevera que Gabriel pretendia mover os ativos de Clara para uma estrutura independente sem informá-la.

— Que ativos?

— Não sei.

Naquela noite, Gabriel voltou. As crianças dormiam. Margarida lia no sofá, perto o suficiente para intervir. Clara jogou a anotação na mesa.

正文1

— Que patrimônio você moveu?

Gabriel leu e seu rosto se fechou.

— As ações do seu pai.

— Foram vendidas ao meu tio.

— Nem todas. O restante ficou numa holding familiar. Quando a investigação começou, transferi a administração para uma fiduciária independente.

— Quanto vale?

Ele demorou.

— Hoje, aproximadamente sessenta milhões de reais.

O copo de Clara bateu na mesa e a água se espalhou.

— Sessenta milhões, e você nunca me contou?

— Achei que seu advogado tivesse contado.

— O advogado recomendado pela sua empresa?

Gabriel ficou imóvel.

— Martin tinha obrigação legal.

— Martin não falou da holding.

Clara abriu o notebook e procurou a administradora. Gabriel recuou a cadeira, mantendo as mãos longe do teclado.

— Você não vai fazer nenhuma ligação por mim.

— Certo.

— Nem mandar seus homens investigarem.

— Certo.

Ela encontrou o telefone e anotou para a manhã seguinte.

Gabriel pegou o casaco.

— Existe uma declaração recusando distribuições futuras. Datada quatro meses depois do divórcio.

— Eu estava em Belo Horizonte com minha mãe.

— O endereço no documento é a casa do Morumbi.

Clara ergueu os olhos.

— Quem testemunhou?

— Martin Bell.

Margarida fechou o livro na sala. Gabriel colocou uma cópia diante de Clara.

A assinatura tinha cada curva da sua letra.

Antes de partir, Gabriel deixou seu telefone sobre a mesa e autorizou Maya a copiar as mensagens antigas com Martin. Clara percebeu o custo do gesto: naquele aparelho estavam negócios, contatos e segredos que ele nunca entregava. Ainda assim, não confundiu transparência com inocência. Agradeceu a prova e manteve a investigação independente.

Gabriel recolheu o aparelho apenas quando Maya confirmou a cópia. Não perguntou o que ela encontrara. Para um homem acostumado a antecipar toda ameaça, esperar o processo alheio era uma forma concreta de mudança.

Clara guardou a cópia numa pasta transparente. Não deixaria mais documentos desaparecerem sob pressa ou confiança. Fotografou cada página, enviou a Maya e escreveu a data no verso. O gesto simples era o oposto da mulher que assinara o divórcio sem ler: desta vez, ela permaneceria até compreender.

Maya chegou vinte minutos depois e fotografou cada folha antes que alguém a tocasse novamente. Pediu a Gabriel o e-mail original, os metadados e a identificação de quem retirara o documento do arquivo.

— Você acredita nela? — Gabriel perguntou.

— Eu acredito em cronologia — respondeu Maya. — E a cronologia diz que Clara já morava em Belo Horizonte quando esta folha afirma que ela assinou em São Paulo.

Clara corrigiu:

— Eu estava em repouso. Os meninos nasceram seis semanas depois.

Gabriel perdeu a cor.

— Eu não sabia.

— Essa frase vai aparecer muitas vezes.

Ele aceitou o golpe. Maya recolheu a cópia num envelope e marcou uma reunião com a fiduciária. Até lá, ninguém falaria com Martin.

Depois que ela saiu, Gabriel permaneceu junto à janela. Clara contou como a gravidez de risco a obrigara a abandonar o trabalho, como Margarida dormira numa cadeira durante duas semanas e como Enzo cabia entre o cotovelo e a palma de sua mão.

— Eles ficaram na UTI?

— Observação neonatal. Lucas teve dificuldade para respirar na primeira noite.

Gabriel fechou os olhos. Nenhuma investigação federal o preparara para sofrer por uma noite ocorrida cinco anos antes.

— Quero os prontuários.

— Não.

Ele abriu os olhos.

— Você pode pedir para conhecê-los. Não pode requisitar a infância deles como se fosse um relatório.

O velho reflexo de comando apareceu em sua mandíbula e desapareceu.

— Tem razão. Posso ver as fotografias quando você achar adequado?

Clara trouxe um álbum. Gabriel virou as páginas sem pressa: três incubadoras, três pulseiras minúsculas, três bebês dormindo no mesmo berço. Ao encontrar o primeiro aniversário, passou o polegar sobre o plástico.

— Eu estava em Brasília nesse dia, depondo.

— Eu sei. Vi no jornal.

Quando chegou à última foto, os meninos entraram correndo. Gabriel fechou o álbum, mas Enzo viu.

— Você perdeu tudo isso.

— Perdi.

— Está triste?

— Muito.

Enzo pensou, então empurrou uma folha em branco para ele.

— Pode desenhar o que vem depois.

Gabriel segurou o lápis sem saber como responder. Clara percebeu que a criança acabara de lhe oferecer algo que nenhum adulto naquela sala conseguia: futuro sem absolvição.

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