"O Chefe da Máfia Descobriu os Trigêmeos" Capítulo 2
Olavo repetiu a pergunta durante todo o caminho para o apartamento de Clara em Perdizes.
Enzo queria saber se Gabriel tinha outros filhos. Lucas segurava a fotografia do casamento que carregava escondida na mochila. Quando Margarida abriu a porta, bastou olhar para o rosto da filha.
— Vocês o encontraram.
— Ele quebrou uma taça — contou Olavo. — Depois virou nosso pai.
Clara apoiou a testa no batente. Margarida levou os meninos para dentro, colocou pijamas e ouviu a versão de cada um sem corrigi-los.
Depois que dormiram, fez chá. Clara não bebeu.
— Gabriel sabe — disse.
— Era inevitável.
— Ele quer respostas.
— Merece algumas.
Clara empurrou a xícara.
— Você sempre achou que eu devia contar.
— Achei que devia permitir que ele mostrasse que pai seria. Como marido, ele já tinha escolhido.
— Na época parecia a mesma coisa.
— E hoje?
Clara ouviu um dos meninos se virar no quarto. A cidade respirava pela janela entreaberta.
— Hoje ele pediu permissão para vestir o casaco do Olavo.
Margarida ergueu as sobrancelhas e ficou em silêncio.
Às nove da manhã, um mensageiro entregou um envelope creme. Clara esperava uma petição de guarda. Havia uma única folha.
Gabriel informava que não falara com advogados nem jornalistas. Proibira sua equipe de procurar endereço ou escola. Pedia uma conversa sem funcionários, sem juristas e sem Serena.
Clara leu três vezes. A frase "sem Serena" incomodou mais do que "sem advogados".
Ligou às onze.
— Pode vir às sete.
— Ao seu apartamento?
— Sim. Você escuta antes de explicar.
— Eu escuto.
Gabriel chegou dois minutos antes, sem motorista visível, carregando três livros: dinossauros, espaço e trens. A ausência de extravagância pareceu calculada, mas os títulos eram corretos demais para ter sido ideia dele.
— Pedi ajuda numa livraria — admitiu.
Os meninos terminavam o jantar. Olavo abriu o livro de dinossauros. Lucas cheirou a caixa de lápis que Gabriel trouxera por engano como quarto presente. Enzo observou o visitante guardar o telefone antes de sentar.
Margarida ficou com eles na sala. Clara levou Gabriel à pequena varanda da cozinha.
— Estou ouvindo — disse ele.
Ela contou que descobrira a gestação após assinar o acordo. Gabriel corrigiu: a homologação levara meses, ainda havia tempo para interromper o processo.
— Você disse que não havia nada para salvar.
— Eu disse.
— Então não existia casamento para onde voltar.
O maxilar dele endureceu.
— Porque você viu Serena.
— No seu escritório. Sentada na sua mesa. Você entre as pernas dela. Depois o beijo.
Gabriel fechou os olhos.
— Eu beijei o rosto dela. Serena estava chorando.
— Três dias depois você pediu o divórcio.
— O divórcio foi minha decisão. Serena não foi o motivo.
Clara riu uma vez, sem humor.
— Você espera que eu acredite?
— Espero que escute, como eu escutei.
Ele contou que a Cruz Logística estava sob investigação. Dois diretores desviavam cargas e dinheiro por empresas ligadas a grupos violentos. Alguém acessara a agenda da casa. Daniel Valença, marido de Serena, descobrira parte do esquema e morrera pouco depois de um problema cardíaco.
— Achei que separar você do meu nome a protegeria.
— Você me fez acreditar que tinha outra mulher.
— Se você me odiasse, iria embora.
Clara bateu a palma na grade da varanda.
— Isso não é proteção. Você tirou minha escolha.
— Eu sei.
— Pare de chamar controle de cuidado.
Gabriel não se defendeu.
— Nosso casamento já estava quebrado. Eu nunca estava em casa. Você parou de perguntar onde eu ia. Eu fiz você se sentir sozinha.
A confissão tirou dela o alvo simples que carregara por cinco anos.
— Serena sabia do divórcio?
— Não. Ela tentou me impedir quando descobriu.
Antes que Clara perguntasse mais, a porta da varanda abriu. Enzo apareceu de pijama, segurando a fotografia do casamento.
— Você parecia mais novo — disse a Gabriel. — Mamãe parecia feliz.
Ele olhou dos dois para a foto.
— Você amava minha mãe?
— Sim.
— Então por que pararam?
Gabriel se agachou.
— Tomei decisões sem ouvi-la.
Enzo assentiu como se a resposta resolvesse uma equação.
— Mamãe diz que ouvir é importante.
— Ela está certa.
Clara o mandou de volta para a cama. Enzo entregou a foto a Gabriel para que ele olhasse e desapareceu pelo corredor.
Gabriel permaneceu com a imagem nas mãos.
— Quero conhecer os três.
— Devagar.
— No ritmo deles. E no seu.
Na porta, ele parou.
— Serena quer falar com você.
— Não.
— Existe algo sobre o divórcio que ela sabe e eu só descobri depois.
Clara segurou a porta.
— O quê?
— Daniel deixou uma carta. Para você. Serena deveria entregá-la se nosso casamento terminasse.
— E ela guardou por cinco anos?
— Guardou.
Gabriel entrou no corredor do prédio. Antes que o elevador fechasse, completou:
— A carta fala sobre mim. E sobre uma coisa que fizeram com o seu patrimônio.
Antes de dormir, Clara anotou num caderno as perguntas que não permitiria que Gabriel respondesse por ela: o que os meninos queriam, o que ela devia saber e o que ainda pertencia ao passado. A lista não trouxe paz, mas transformou medo em algo que podia ser examinado.
Clara fechou a porta, mas não saiu dali. O trinco ainda vibrava sob sua mão quando Margarida apareceu no corredor.
— Que coisa?
— Ele não explicou.
Naquela noite, Clara abriu a caixa onde guardava certidões, exames e os primeiros gorros usados na UTI neonatal. Havia também cópias do divórcio, extratos antigos e o cartão de Martin Bell. Nada mencionava um patrimônio oculto. A ausência de papel a perturbou mais que uma acusação escrita.
Na manhã seguinte, os meninos encontraram os livros de Gabriel sobre a mesa. Enzo abriu o de astronomia e procurou a dedicatória. Não havia nenhuma.
— Ele esqueceu de escrever — disse.
— Talvez tenha achado cedo demais — Clara respondeu.
Lucas colocou o estojo de desenho ao lado do trem de madeira e perguntou se Gabriel podia assistir à apresentação da escola. Clara sentiu o impulso de dizer não antes de pensar. Em vez disso, ajoelhou-se.
— Você quer que ele vá?
— Quero que ele saiba onde eu fico quando canto.
Era uma explicação pequena para uma necessidade imensa: ser localizado pelo pai. Clara enviou o convite, acompanhado de regras. Gabriel deveria entrar sozinho, sentar na última fileira e não falar com jornalistas. Ele respondeu: "Entendido."
No dia da apresentação, chegou dez minutos antes, sem motorista visível. Sentou onde ela mandara. Quando Lucas esqueceu uma palavra da música, encontrou Gabriel no fundo e recomeçou. Gabriel não filmou. Apenas bateu palmas até todos saírem do palco.
Depois, no pátio, Enzo lhe entregou um desenho dos cinco sob um lustre. Gabriel observou a figura masculina toda pintada de preto.
— Sou eu?
— Ainda não sei — respondeu Enzo. — Por isso não desenhei seu rosto.
Gabriel dobrou o papel com cuidado.
— Quando descobrir, você me conta.
Clara viu o golpe atingir e viu também Gabriel permanecer parado, sem exigir absolvição de uma criança. Talvez a mudança não estivesse nas explicações que ele preparava. Talvez estivesse no que finalmente aprendia a suportar em silêncio.
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