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"Seguros de Oito Milhões" Capítulo 8

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Lavínia ouviu a própria voz sair do alto-falante e retirou as mãos da mesa.

— Essa gravação foi editada.

— A perícia vai responder — disse Joana. — Continue.

A advogada dativa que a acompanhava pediu uma pausa. Lavínia recusou. Queria falar antes que Ricardo construísse outra versão.

— Eu não queria matar Helena.

— Queria matar as crianças?

— Eu queria que ele saísse do casamento.

Joana esperou.

Lavínia desviou os olhos para o vidro escuro.

— Ricardo dizia que a única saída era um acidente. A família tinha blindado tudo. As ações de Helena não entravam na partilha, os filhos tinham cotas no truste, Beatriz controlava o conselho. Ele passou anos tentando ser tratado como dono e continuava dependendo de assinatura.

— Isso explica desvio. Não explica colete cortado.

— Ele me mostrou as dívidas.

As empresas abertas em nome de Lavínia deviam trinta e um milhões a fundos clandestinos. Ricardo usara os recursos desviados em apostas de câmbio e uma aquisição falsa no Paraguai. Dois credores ameaçavam revelar documentos ao Grupo Alencar.

— Com a indenização, pagaríamos a primeira parte — continuou. — Com Helena incapacitada, ele assumiria poderes. Se ela morresse, tentaria alegar esforço comum sobre dividendos e controlar a herança dos filhos.

— Filhos mortos não herdam da mãe depois dela.

Lavínia fechou os olhos. A ordem dos eventos expunha uma falha que eles haviam tentado corrigir: Helena precisava morrer primeiro ou junto. O plano do iate criava um único desastre, difícil de separar juridicamente, mas lucrativo em qualquer narrativa que Ricardo conseguisse impor.

Na sala vizinha, Lígia aconselhou o cliente a não responder. Ricardo caminhava de uma ponta a outra.

— Ela está inventando para salvar a própria pele.

— Então pare de confirmar detalhes — disse a advogada.

— Eu não confirmei nada.

— Chamou as empresas de "nossas" antes de eu mostrar os documentos.

Ricardo parou. Tocou o nó da gravata.

— Você trabalha para mim.

— Trabalho dentro da lei. A partir de agora, responda apenas ao que eu perguntar.

Enquanto os interrogatórios avançavam, Clara acordou de um pesadelo na casa de Beatriz. Encontrou Helena no corredor e entregou-lhe uma fotografia amassada.

— Eu escondi esta.

A imagem mostrava o instante em que Ricardo ajustava o colete de Bento na garagem. A tesoura aparecia aberta ao lado de seu joelho. Lavínia segurava um tubo de cola. No espelho do carro, o rosto de Clara surgia com a câmera.

— Por que escondeu?

— Ele disse que você seria presa se eu mostrasse fotos da família.

Helena sentou no chão do corredor. Abriu os braços. Clara entrou devagar e encostou a cabeça em seu peito.

— Ele falou isso quando?

— Sexta. Entrou no meu quarto e pediu a câmera. Eu disse que estava sem filme.

— Você estava com medo dele?

A menina assentiu.

Helena não prometeu que o medo acabaria naquela noite. Pediu que Clara escolhesse onde dormir, deixou a porta aberta e chamou a psicóloga indicada por Joana para a manhã seguinte.

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A fotografia foi entregue à perícia às seis. As digitais de Ricardo estavam na tesoura apreendida na garagem. O tubo de cola tinha sido jogado fora, mas a marca e o lote coincidiam com o resíduo dos coletes.

No Grupo Alencar, Beatriz convocou uma reunião extraordinária do conselho. A pauta oficial citava risco de governança. Ricardo tentou entrar remotamente usando a credencial de diretor financeiro. O sistema bloqueou o acesso e registrou sua tentativa de baixar o cadastro completo de acionistas.

Helena chegou ao edifício pela garagem. Funcionários pararam de conversar quando ela atravessou o saguão. Alguns a olharam com pena; outros, com curiosidade. Ela entrou no elevador e pediu à comunicação interna uma mensagem curta: as crianças estavam seguras, a empresa colaborava com a investigação e nenhum funcionário deveria comentar dados protegidos.

Na sala do conselho, Beatriz distribuiu as transferências para LM Estratégia, os pagamentos a Nunes e a planilha do pós-sinistro.

— Ainda falta o relatório final da polícia — observou um conselheiro.

— Para prisão, sim. Para afastar um diretor que usou credenciais em fraude, não — respondeu Helena.

Um oficial de Justiça chegou antes da votação. Trazia uma liminar obtida por Lígia que impedia demissão por justa causa até que Ricardo tivesse acesso aos documentos. Beatriz leu a ordem e colocou-a sobre a mesa.

— Ele ganhou vinte e quatro horas.

— Então usamos as vinte e quatro — disse Helena.

Mauro entrou com os registros da seguradora. Cada consulta feita por Ricardo estava vinculada a autenticação de voz e localização do aparelho corporativo. Um dos áudios continha uma pergunta que não aparecia no resumo entregue antes:

— Se a mãe também morrer, quem recebe as cotas das crianças antes da conclusão do inventário?

O conselheiro que pedira cautela retirou os óculos.

Na delegacia, Lavínia assinou uma autorização para acessar suas contas. Em troca, o Ministério Público apenas se comprometeu a considerar a colaboração, sem promessa de pena.

Antes de entregar a senha, ela escreveu num papel o endereço de um galpão no Guarujá.

— Nunes está lá — disse. — E guardou a versão completa do vídeo.

Joana mobilizou a equipe. No galpão, encontraram o comandante tentando queimar discos rígidos dentro de um tambor. Ele correu pelos fundos, foi cercado no cais e caiu de joelhos antes que os agentes sacassem as armas.

O disco menos danificado foi aberto ainda naquela madrugada. O vídeo mostrava Ricardo colando a tira cortada, Lavínia colocando peso no colete de Clara e Nunes testando a abertura do piso.

No último minuto, Ricardo olhava diretamente para a câmera.

— Amanhã, ela perde os filhos. Depois, perde o sobrenome.

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