"Seguros de Oito Milhões" Capítulo 7
A instrução foi impressa três vezes, lacrada e distribuída entre a perícia, o Ministério Público e a equipe de Joana.
Helena leu em silêncio. Abaixo da frase, uma tabela previa datas para declaração de ausência, pedido de indenização, convocação extraordinária do conselho e transferência provisória da guarda patrimonial das crianças. Ricardo reservara uma linha para cada consequência da morte da família.
— Ele planejava pedir a guarda de filhos que declararia mortos? — perguntou Beatriz.
Joana ampliou a planilha.
— A fórmula muda conforme o cenário. Se uma criança sobrevivesse, ele assumiria a administração do patrimônio dela. Se as duas morressem, receberia a indenização. Se Helena sobrevivesse incapacitada, usaria a procuração conjugal.
— Ele criou saídas para qualquer resultado — disse Helena.
— Quase qualquer.
Mauro apareceu por videoconferência. A seguradora recebera, às oito e doze daquela manhã, uma consulta de Ricardo sobre o procedimento de sinistro. Ele ainda não protocolara o pedido.
Joana propôs esperar. A tentativa formal de receber a indenização reforçaria fraude, motivo financeiro e consciência do plano. A seguradora preparou uma sala monitorada. Mauro responderia como se nada soubesse.
— Ele viu Helena viva no cais — disse Beatriz. — Como vai pedir pagamento?
— Pode alegar incapacidade, confusão cadastral ou tentar registrar um aviso preliminar — respondeu Mauro. — Ou pode estar desesperado para recuperar dinheiro.
Ricardo chegou à seguradora às dez e quarenta. Usava o mesmo terno azul-marinho das reuniões importantes, camisa nova e nenhum sinal do homem molhado que chorara diante das câmeras. Lígia o acompanhava.
Mauro recebeu os dois e deixou um formulário sobre a mesa.
— O aviso menciona óbito de dois segurados menores — disse. — Há certidão?
— Desaparecimento em acidente marítimo — respondeu Lígia. — Queremos preservar a data do evento.
— As crianças foram vistas vivas depois do acidente.
Ricardo inclinou-se.
— Minha esposa está manipulada pela mãe. Não tive acesso aos meus filhos desde o cais. Quero formalizar tudo antes que alterem documentos.
Mauro apontou para o campo de declaração.
— Ao assinar, o senhor confirma a ocorrência descrita.
Ricardo pegou a caneta.
Na sala de observação, Helena assistia ao monitor entre Joana e Beatriz. A mão do marido hesitou apenas quando Lígia tocou seu pulso.
— Meu cliente solicita uma pausa — disse a advogada.
— Libere os oito milhões — respondeu Ricardo. — Minha família está morta para mim.
Mauro manteve o rosto imóvel.
— Isso não é uma categoria de sinistro.
Ricardo riscou a palavra "óbito" e escreveu "presunção de morte", assinando abaixo. O carimbo de protocolo desceu. Uma luz vermelha acendeu na sala de observação.
Joana abriu a porta.
Helena entrou primeiro. Beatriz veio atrás. Lígia se levantou e fechou a pasta.
— Encerre a reunião, Ricardo.
Ele não olhou para a advogada. Seus olhos ficaram em Helena.
— Você está usando nossos filhos para me destruir.
— Você veio buscar o preço deles.
Mauro entregou o protocolo a Joana. Ela informou Ricardo de que o documento seria apreendido. Lígia protestou, exigiu mandado e tentou impedir a retirada do computador. Beatriz permaneceu junto à parede, gravando os horários.
— Isso é uma armação da família Alencar — disse Ricardo. — Eles nunca aceitaram que eu tivesse poder real.
Helena colocou sobre a mesa a página "PÓS-SINISTRO".
— Sua instrução. Seu acesso. Sua assinatura digital.
— Lavínia tinha minhas credenciais.
— Então você a culpa?
— Eu digo que ela administrava os arquivos.
Atrás do vidro, outra porta abriu. Lavínia entrou escoltada por dois agentes. Joana havia autorizado que ela acompanhasse parte da operação antes de ser interrogada. A amante ouviu a última frase de Ricardo.
— Covarde — disse.
Ele se virou.
— Não fala nada.
— Você acabou de jogar tudo em mim.
Lígia pediu uma sala reservada, mas Lavínia ergueu o telefone apreendido dentro do saco de evidência.
— Tem um áudio. Ele prometeu que a empresa seria nossa.
Joana conduziu todos para salas separadas. Helena permaneceu com Mauro enquanto os agentes catalogavam o material.
— Eu devia ter recusado a cotação no primeiro dia — disse ele.
— Se recusasse, procurariam outra seguradora.
— E talvez eu nunca soubesse.
Helena fechou o formulário. Mauro tinha uma marca vermelha no dedo, feita pela pressão da caneta durante a reunião.
— O senhor segurou a folha antes que eu assinasse. Foi o primeiro a ficar entre eles e meus filhos.
No interrogatório, Lavínia pediu acordo de colaboração. Contou que Ricardo começara a desviar dinheiro dois anos antes, depois que Beatriz bloqueou uma aquisição arriscada. A relação amorosa surgiu no mesmo período. Ele prometera casar-se assim que controlasse as ações dos filhos.
— Quem propôs as apólices? — perguntou Joana.
Lavínia olhou para a câmera.
— Eu encontrei o produto. Ele escolheu os valores.
— Quem falou em matar as crianças?
— Ele disse que um acidente resolveria a sucessão.
— E você mandou cortar os coletes.
— Nunes cuidaria disso. Eu só repassei.
— "Acaba logo." O que queria que acabasse?
Lavínia apertou as unhas contra a mesa.
— A discussão.
Joana desligou o gravador.
— Sem verdade completa, não há acordo.
A mulher pediu cinco minutos com sua advogada. Antes de sair, Joana recebeu uma mensagem do laboratório: o telefone continha um áudio apagado, recuperado pela metade.
A voz de Lavínia dizia: "As crianças primeiro. Helena depois."
A resposta de Ricardo veio nítida:
"Depois do passeio, a empresa é nossa."
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