"Seguros de Oito Milhões" Capítulo 3
Lavínia parou sob o arco da sala, ainda com a chave da casa entre os dedos.
— Eu toquei a campainha — disse.
— Não tocou — respondeu Clara.
Ricardo apanhou a fotografia antes que a imagem terminasse de surgir. Dobrou-a ao meio e devolveu à filha.
— Sua mãe convidou a Lavínia para jantar.
Helena sustentou o olhar dele.
— Convidei?
— Falamos disso no carro.
Lavínia pousou uma sacola de confeitaria sobre a mesa e abriu um sorriso para as crianças.
— Trouxe o bolo de teste.
Bento correu até a caixa. Clara permaneceu junto à mãe. Ricardo levou Lavínia para a cozinha, a mão nas costas dela por tempo suficiente para confirmar um hábito. Helena seguiu com o olhar, guardou o telefone e pediu à governanta que servisse o bolo no jardim.
Durante o jantar, Lavínia contou histórias sobre o iate, o pôr do sol e os fotógrafos que já não iriam. Ricardo completava suas frases. Quando Helena perguntou quem pilotaria, os dois disseram "Nunes" ao mesmo tempo.
— Ele trabalha para o grupo há anos — acrescentou Ricardo.
Helena cortou o bolo.
— Há onze meses.
O garfo de Lavínia parou perto da boca.
Depois que ela saiu, Ricardo acompanhou Helena até o closet. Fechou a porta e apoiou a mão sobre a bolsa dela.
— Você está me investigando?
— Estou organizando o aniversário da nossa filha.
— Então por que perguntou pelo comandante?
— Porque meus filhos vão embarcar com ele.
Ricardo abriu a bolsa. Encontrou carteira, estojo, lenços, a caneta da empresa e uma segunda caneta de plástico preto.
— Desde quando usa duas?
Helena tomou a bolsa de volta.
— Desde que uma delas falhou numa assinatura de trezentos milhões.
A segunda caneta era um gravador fornecido pela equipe jurídica de Beatriz. Ainda não tinha sido ativado. Ricardo a girou entre os dedos e testou a ponta sobre a própria palma. Devolveu.
— Você anda estranha.
— Você anda com a chave de casa no bolso da sua diretora.
Ele ficou imóvel.
— Para emergências com as crianças.
— Ela não cuida delas.
— Cuida de nós.
Ricardo percebeu o peso da frase tarde demais. Abriu a porta e encerrou a conversa com um beijo no ar, perto do rosto da esposa.
Às sete da manhã, Helena entrou pela garagem da Delegacia de Repressão a Crimes Patrimoniais. Beatriz já a esperava numa sala sem janelas. A delegada Joana Siqueira colocou três copos de água sobre a mesa e ouviu o áudio duas vezes.
— A voz é identificável, mas a frase isolada admite explicação — disse Joana. — Eles podem alegar manutenção, brincadeira, qualquer coisa.
— A apólice e as perguntas sobre morte conjunta?
— Indício de preparação. Ainda falta ato de execução ou conversa clara sobre o resultado.
Beatriz bateu a unha no tampo.
— Minha filha não vai subir naquele barco para ajudar a senhora a completar uma frase.
— Concordo.
Joana abriu uma planta da marina. Explicou que uma equipe substituiria os coletes, instalaria rastreadores e permaneceria numa lancha de apoio. Clara e Bento seriam retirados do iate antes da saída, por uma passagem de serviço, e levados para um barco da polícia com vidros escuros. Bonecos com peso e altura aproximados ficariam sob cobertas na cabine infantil, longe da visão de Ricardo.
— Helena pode desistir em qualquer momento — continuou. — Se entrar, leva microfone, rastreador e agente na tripulação. Nenhuma prova vale a vida dela.
— Eu entro — disse Helena.
Beatriz virou-se.
— Você tem dois filhos.
— É por isso.
Joana não aceitou a resposta como autorização. Fez Helena repetir as rotas de saída, os sinais de interrupção e a ordem de prioridade: crianças, equipe, vítima, prova. Depois recolheu a caneta-gravador e entregou um broche idêntico ao de safira de Beatriz.
— Áudio e localização. Aperte duas vezes se perder o controle da situação.
— E a apólice?
Mauro entrou pela porta lateral com uma pasta. Colocou sobre a mesa uma via preparada pela seguradora. Parecia idêntica à original, mas anulava poderes de Ricardo e acionava um alerta interno caso ele tentasse abrir sinistro.
— A senhora assina esta — explicou. — Ele recebe uma cópia visualmente igual. A autenticidade só aparece no sistema.
Helena assinou.
Ao meio-dia, entregou a pasta a Ricardo em seu escritório. Ele conferiu a rubrica, folheou as páginas e relaxou os ombros.
— Viu? Não doeu.
— Proteção para as crianças — disse ela.
Ricardo guardou a apólice num cofre atrás de um quadro. Helena ouviu os quatro toques do código. Quando ele fechou a porta, puxou-a pela cintura.
— Depois de sábado, vamos viajar. Só nós dois.
O corpo dela ficou rígido. Ricardo interpretou como aceitação e beijou seu pescoço.
— Para onde?
— Qualquer lugar sem conselho, sem sua mãe e sem horários.
— E sem filhos?
— Sua mãe adora ficar com eles.
Helena afastou-se para atender uma ligação inventada. No corredor, apertou o broche uma vez para testar. O telefone de Joana respondeu com um ponto verde.
Naquela tarde, Beatriz reuniu os netos em sua casa. Disse que o passeio teria uma brincadeira secreta com policiais de verdade. Clara estreitou os olhos.
— O papai sabe?
— Ainda não — disse Helena.
— Ele fez coisa errada?
Helena sentou no tapete, na altura dos dois.
— Eu ainda estou descobrindo. Vocês vão seguir a dona Joana e ficar comigo assim que ela mandar.
Bento perguntou se haveria algema. Clara não riu.
— Foi por causa dos coletes?
Helena pegou as mãos da filha.
— O que você viu?
— O papai levou os novos para a garagem. A tia Lavi estava lá. Ela disse que a tira precisava parecer velha.
Joana, que aguardava do outro lado da sala, ligou o gravador do telefone.
— Clara, consegue contar de novo?
A menina olhou para a mãe antes de responder. Sua voz saiu baixa e inteira. Ao terminar, retirou do bolso outra fotografia. Mostrava Ricardo ajoelhado junto aos coletes, com uma tesoura de poda no chão.
Beatriz fechou os olhos por um instante. Helena não conseguiu.
Na sexta-feira à noite, Ricardo entrou no closet enquanto a esposa escolhia roupa para o passeio. Abriu a bolsa dela e encontrou a caneta preta no bolso interno.
— Essa aqui de novo — disse.
Helena estendeu a mão.
Ele não entregou. Pressionou o topo. Uma luz vermelha piscou.
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