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"Seguros de Oito Milhões" Capítulo 1

正文开头

— Assina aqui, amor. É só para proteger as crianças.

Ricardo empurrou as duas apólices pela mesa do café. O sol de sexta-feira atravessava as janelas da casa no Jardim Europa e acendia o cabelo de Clara, curvada sobre um caderno de desenho. Bento tentava equilibrar uma colher no nariz. Helena segurou a caneta que o marido deixara aberta ao lado de sua xícara.

— Oito milhões? — perguntou, depois de ler a primeira página.

Ricardo acertou o nó da gravata.

— Quatro por criança. É o padrão para uma família com o nosso patrimônio.

Clara levantou a cabeça.

— Quanto eu valho viva?

A colher caiu do nariz de Bento. Ricardo riu alto demais e bagunçou o cabelo da filha.

— Você vale tudo, princesa.

Helena fechou a pasta. Havia duas reuniões do conselho naquela manhã e uma visita à nova unidade hospitalar do Grupo Alencar. Ela assinava contratos desde os vinte e quatro anos, mas nunca fazia isso entre o pão tostado e a lancheira das crianças.

— Levo para o escritório.

— O corretor precisa protocolar hoje.

— Então ele espera vinte minutos.

Ricardo abriu a boca, desistiu e sorriu para os filhos. O sorriso continuou no rosto enquanto os dedos apertavam a borda da mesa.

Mauro Figueiredo aguardava na sala menor da vice-presidência. Tinha deixado uma pasta cinza sobre o colo e recusado café duas vezes. Quando Helena entrou, ele se levantou, fechou a porta e verificou se a parede de vidro estava opaca.

— O senhor pediu urgência — disse ela.

— Seu marido pediu.

Helena pôs as apólices sobre a mesa. Mauro conferiu o corredor antes de abrir a primeira na página dos beneficiários. O Grupo Alencar aparecia como estipulante. Helena e Ricardo eram responsáveis legais. Uma cláusula adicional concedia ao pai poderes para conduzir qualquer sinistro caso a mãe estivesse ausente, incapaz ou também envolvida no evento.

— Essa redação é usual?

— Em parte.

— Qual parte não é?

Mauro tirou os óculos, limpou uma lente e tornou a colocá-los.

— O senhor Ricardo fez três perguntas durante a cotação. Pediu prazo de carência. Perguntou se afogamento em embarcação particular estava coberto. Depois quis saber quanto tempo a companhia levaria para pagar se os dois menores morressem no mesmo acidente.

A ponta da caneta de Helena tocou a linha da assinatura.

Mauro segurou o papel.

— Não assine.

Do outro lado do vidro, Ricardo atravessou a recepção com o telefone no ouvido. Cumprimentou uma secretária, mostrou os dentes para alguém na tela e apontou para o relógio. Helena apertou o botão que manteve a parede fosca.

— Ele falou em algum passeio?

— Mencionou uma embarcação. Pediu confirmação de cobertura para este sábado.

Sábado era o aniversário de dez anos de Clara. Ricardo insistira numa comemoração pequena a bordo do Atlântica, iate adquirido pelo grupo para receber investidores. Helena tinha cedido depois de três semanas de pedidos da filha.

正文1

— Quero os registros das perguntas.

— Foram por telefone.

— Há gravação.

Mauro não respondeu. Abriu a pasta cinza e retirou uma folha com horários, ramais e protocolos.

— Oficialmente, a seguradora só entrega mediante ordem judicial. Isso aqui é meu controle interno. A senhora não recebeu de mim.

Helena fotografou a página. Seus dedos não tremiam. O reflexo na tela, porém, mostrava uma mulher com os lábios sem cor.

A porta abriu antes que Mauro guardasse o documento. Ricardo entrou com a mão ainda na maçaneta.

— Interrompo?

— Mauro estava explicando as coberturas.

Ricardo olhou para a caneta e depois para a assinatura vazia.

— E?

— E eu quero ler tudo.

— Helena, é uma apólice. Não uma aquisição bilionária.

— São nossos filhos.

Mauro fechou a pasta e se levantou.

— Posso retornar na segunda.

Ricardo bloqueou a passagem por um segundo. Então recuou, educado, e estendeu a mão ao consultor.

— Hoje. Minha assistente encontra um horário.

No corredor, Lavínia Moura surgiu de um elevador com um tablet contra o peito. Usava um vestido areia, liso, e o perfume chegou antes de sua voz.

— A imprensa confirmou presença no aniversário. Só precisamos da autorização de imagem das crianças.

Helena ergueu os olhos.

— Imprensa? A festa seria particular.

Lavínia virou-se para Ricardo. Ele tocou outra vez o nó da gravata.

— Duas revistas. Clara vai gostar das fotos.

— Clara tem dez anos. Ela gosta dos amigos.

Lavínia sorriu para Helena com uma intimidade que não lhe fora concedida.

— Posso cancelar, claro. O Ricardo queria transformar a data em algo memorável.

— Cancele.

A diretora de comunicação fez uma anotação. Quando passou por Ricardo, os dois evitaram se olhar. Foi um cuidado pequeno e ensaiado. Helena acompanhou o espaço exato entre os corpos até Lavínia entrar na sala ao lado.

À tarde, Beatriz presidiu o conselho com seu broche de safira preso à lapela. Ricardo apresentou números da divisão portuária e pediu autorização para movimentar uma reserva de contingência. Helena ouviu, marcou duas inconsistências e fez perguntas. Ele respondeu a todas sem tocar na gravata.

Depois da reunião, Beatriz recolheu as próprias folhas.

— Seu marido está com pressa.

— Ele sempre está.

— Hoje tropeçou em três datas.

Helena guardou o celular. Não contou sobre Mauro. A mãe transformava suspeitas em auditorias antes de terminar uma frase, e qualquer movimento visível poderia alertar Ricardo.

— Vou revisar os números.

— Revise a pessoa.

Em casa, Ricardo preparou massa para as crianças. Abriu vinho para Helena e deixou música baixa na cozinha. Clara filmava Bento coberto de farinha. Por alguns minutos, a cena teve a aparência das sextas-feiras anteriores.

— A apólice ficou no escritório? — perguntou ele.

— Ficou.

— Mauro exagera tudo. Está perto de se aposentar.

Helena girou a taça.

— Você perguntou sobre afogamento?

O garfo dele bateu na panela.

— Temos um iate.

— E sobre a morte dos dois no mesmo evento?

Ricardo pousou o garfo e olhou para as crianças. Clara tinha levado Bento para lavar as mãos. A torneira corria no lavabo.

— Planejamento financeiro exige cenários ruins.

— Você escolheu o pior.

Ele se aproximou e baixou a voz.

— Seu pai me ensinou a antecipar risco. Você me acusa quando faço o trabalho que sua família me deu?

Helena pegou os pratos. Ricardo segurou seu pulso com cuidado suficiente para não deixar marca.

— Assina amanhã cedo.

Ela olhou para a mão dele. Ricardo soltou.

— Vou terminar de ler.

O telefone dele vibrou sobre a bancada. A tela acendeu com uma mensagem sem nome, identificada apenas por um ponto: "Ela desconfiou?" Ricardo virou o aparelho antes que a frase desaparecesse.

Às onze e quarenta, Helena entrou no quarto dos filhos. Bento dormia atravessado, um pé fora da coberta. Clara ainda estava acordada, recortando fotografias para um mural.

— O papai está bravo com você? — perguntou.

— Por que acha isso?

— Ele falou no telefone que você podia estragar sábado.

Helena sentou-se na beirada da cama.

— Com quem?

— Não sei. Ele disse "Lá". Ou "Lavi".

Lavínia.

Clara pegou sua câmera instantânea, presente antecipado de aniversário.

— Posso levar no iate?

Helena passou o polegar pela tampa rosa do aparelho.

— Pode. E fica perto de mim o tempo todo.

No corredor, seu celular vibrou. Ricardo mandara uma fotografia das apólices abertas no lugar da assinatura.

"Assine hoje. O passeio de iate é sábado."

Segundos depois, Mauro enviou apenas uma linha:

"Então sábado já tem data."

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