"A Casa Perfeita da Minha Irmã Escondia Meu Filho" Capítulo 2
Davi golpeou o piso outra vez.
A tábua se partiu, e uma nuvem de poeira cobriu seus braços. Elisa agarrou a perna dele. Maia correu para a porta, girou a chave e ficou diante dela com o rosto molhado.
— Você não vai sair — a menina disse.
Elisa rastejou pelo chão, deixando marcas de sangue onde os joelhos encontravam lascas.
— Davi, por favor! Você não entende. Eu mantive Leo seguro. O mundo é perigoso!
Ele arrancou mais um pedaço de madeira. O buraco revelou concreto, uma escada estreita e espuma escura colada às paredes. O ar que subia era quente, pesado de mofo, suor e dejetos.
Davi engasgou. Gritou o nome do filho.
Nenhuma resposta.
Ele se deitou e enfiou o braço até o ombro. Os dedos tocaram poeira, depois tecido. Algo recuou.
— Leo, sou eu. O papai chegou.
Uma mão pequena encontrou seu pulso. A força era mínima, mas o aperto carregava quatorze meses inteiros.
— Eu peguei você — Davi repetiu. — Segura o papai.
O espaço era estreito. Ele ampliou a abertura com as mãos, ignorando as farpas. Arrancou pregos, quebrou duas tábuas e voltou a se inclinar. Primeiro surgiu um braço fino. Depois, cabelos embaraçados e um rosto coberto de poeira.
Leo parecia menor do que no dia do desaparecimento.
A pele estava pálida, as bochechas fundas. Os olhos se fecharam diante da luz, e o menino não chorou. Davi o puxou com cuidado, apoiou a nuca e o colocou contra o peito.
Leo agarrou a gola da camisa do pai. Enterrou o rosto ali e ficou imóvel.
Davi sentiu as costelas do filho sob a camiseta suja. O peso era assustadoramente leve. A raiva subiu, mas ele a conteve com os dois braços ao redor do menino.
— Você está comigo. Acabou.
Maia se aproximou um passo.
— Leo?
O menino abriu os olhos. Viu a irmã e moveu os lábios.
— Mai...
Ela cobriu a boca. Queria correr até ele, porém ficou onde estava. O irmão tremia com qualquer movimento.
Elisa se levantou de repente.
— Ele precisa voltar. A luz faz mal depois de tanto tempo.
Davi virou o corpo para protegê-lo.
— Fique longe.
— Você vai estragar tudo. Ele já sabia a rotina. Lia duas horas, comia sem reclamar, não gritava.
Ela se lançou na direção de Leo.
Davi empurrou Elisa com o pé. A irmã caiu sobre a mesa de vidro. O tampo rachou em linhas brancas. Ela ficou entre os estilhaços, mais indignada com a recusa do que com a dor.
— Ele é meu! Eu o deixei perfeito!
Leo enrijeceu. As unhas entraram no pescoço do pai.
— Não olhe para ela — Davi falou. — Olhe para mim.
Maia trouxe a manta do sofá. Davi envolveu o filho sem cobrir seus pés. Uma tornozeleira de tecido estava amarrada a um deles; o outro tinha marcas avermelhadas.
— Papai fica — Leo murmurou.
— Fica.
Davi tirou o telefone do bolso com a mão ensanguentada e ligou para a emergência.
— Meu nome é Davi Monteiro. Estou no número 442 da Alameda Crestview, Lago Sul. Mandem polícia e ambulância. Encontrei meu filho.
A atendente fez perguntas. Davi respondeu sem afastar o rosto dos cabelos do menino. Respirava devagar para que Leo sentisse o ritmo do peito.
Elisa começou a rir.
— Eles vão devolvê-lo quando entenderem. Você não conhece seu próprio filho. Ele odeia barulho, odeia sujeira, odeia quando as pessoas chegam perto demais.
— Foi você que ensinou isso a ele.
— Eu ensinei disciplina.
Maia pegou o celular da tia no chão. A tela ainda exibia a mensagem para M. Outra notificação apareceu: "Está tudo bem?"
— Pai.
Davi viu, mas não tocou no aparelho. Pediu à filha que o deixasse sobre a mesa. A polícia precisaria encontrá-lo do modo exato.
O som das sirenes cresceu na rua. Elisa tentou se arrastar até o telefone. Maia colocou uma cadeira no caminho.
— Você mentiu para a mamãe — disse a menina.
Elisa ergueu o rosto.
— Eu dei um irmão melhor para você.
Maia recuou como se tivesse levado um tapa.
Davi levantou Leo e foi para o vestíbulo. O menino gemeu quando o pé encostou na manta, então o pai ajustou o tecido. A porta se abriu com um golpe. Policiais entraram com armas apontadas, seguidos por paramédicos.
— Abaixe a criança — ordenou um agente, sem compreender a cena.
— É meu filho. Ele estava sob o piso.
O delegado Caio Nogueira chegou atrás da equipe. Seu olhar percorreu o sangue nas mãos de Davi, as tábuas quebradas, Elisa entre o vidro e Maia junto à parede.
— Armas no coldre — ele disse. — Afastem a mulher.
Dois policiais ergueram Elisa. Ela não resistiu. Continuava olhando Leo com uma ternura que fez Davi sentir náusea.
Os paramédicos aproximaram uma maca. Ao tentarem tocar o menino, Leo soltou um grito bruto, sem palavras, e se prendeu ao pescoço do pai.
— Ele fica comigo — Davi avisou. — Façam o que precisarem sem tirá-lo dos meus braços.
A médica avaliou pupilas, pulso e respiração enquanto Davi se sentava no chão. Maia segurava o sapato sujo do irmão, encontrado perto do buraco.
Nogueira iluminou a abertura. O feixe desceu por degraus até um cômodo de concreto. Havia espuma acústica nas paredes, uma cama estreita, um cartaz de leitura e um vaso sanitário portátil.
— Isolem a casa inteira — determinou. — Ninguém mexe em nada.
Elisa passou algemada por Davi.
— Não esqueça a leitura, meu amor. A mamãe volta logo.
Leo enterrou o rosto no peito do pai.
Davi olhou para o delegado.
— Tire essa mulher daqui.
Quando atravessou a porta com o filho nos braços, viu pela primeira vez o céu aberto sobre a rua. Leo apertou os olhos diante das luzes das ambulâncias. Davi cobriu seu rosto com a própria mão, deixando uma pequena fresta.
O menino respirou o ar da noite e sussurrou:
— A tia disse que vocês morreram.
Na ambulância, Maia entregou à policial uma folha retirada da mesa. Era um desenho que Leo fizera na cela: quatro pessoas sob um sol enorme, todas com nomes antigos escritos por cima. Elisa riscara "Sara" e escrevera "morta". Sobre "Davi", acrescentara "foi embora".
Davi fotografou a folha antes que a perita a ensacasse. Leo viu e começou a repetir que tinha obedecido. O pai guardou o telefone.
— Você sobreviveu — disse. — Isso é o que fez.
O menino perguntou se a polícia colocaria Elisa no quarto escuro. Davi respondeu que haveria cela, luz, advogada e regras. A diferença pareceu confundi-lo.
— Ela machucou e ganha porta?
— A porta fica trancada, mas ninguém vai esconder onde ela está.
Leo tocou o curativo na mão do pai. Davi sentiu vergonha por ter empurrado Elisa diante dele, embora soubesse que impedira um novo ataque. Pediu desculpa pelo barulho da madeira e pela luta.
— Você veio — o menino respondeu.
Na casa, Nogueira encontrou uma câmera conectada a um aplicativo. O histórico mostrava acessos de dois aparelhos. Um pertencia a Elisa; o segundo usara redes de Goiânia, Formosa e Campinas. Nas gravações, uma voz masculina corrigia Leo quando ele dizia o próprio nome.
O delegado ordenou preservação imediata do servidor. Antes que a equipe concluísse o download, alguém tentou apagar tudo remotamente.
O sistema registrou o endereço da tentativa por menos de cinco segundos. Era o primeiro movimento do cúmplice.
Nogueira preservou também o áudio da ligação de Sara com Maia. A gravação captara Elisa dizendo que Leo precisava voltar e que Davi destruiria o progresso. Aquela frase, pronunciada antes da chegada da polícia, enfraquecia qualquer versão de descoberta acidental.
Na emergência, Leo pediu que o pai repetisse os nomes da família. Davi enumerou Sara, Maia, os avós e o cachorro que morrera durante o desaparecimento. Ao ouvir sobre o animal, o menino chorou pela primeira vez. Não era o choro da dor física. Era tempo perdido encontrando saída.
A paramédica diminuiu as luzes e continuou trabalhando. Maia sentou no degrau da ambulância e respondeu às perguntas de uma agente infantil. Contou tudo em frases curtas, inclusive o olhar da tia para o tapete antes que qualquer adulto mencionasse o piso.
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