"De Mendigo a Rei: A Queda dos Intocáveis" Capítulo 1
A garoa pesada e cinzenta de São Paulo caía sobre a imponente estrutura de ferro e vidro da Estação da Luz, misturando-se à fuligem, à fumaça dos trens e ao cheiro acre de urina e carvão molhado que impregnava o asfalto da praça.
Era o tipo de tarde em que a megalópole parecia respirar cinzas, engolindo implacavelmente os miseráveis que rastejavam por suas calçadas e buscavam um sopro de abrigo sob os arcos históricos.
Enzo estava encolhido em um canto úmido e esquecido, perto das grossas colunas de sustentação de tijolos aparentes, com o corpo de um menino de doze anos trêmulo sob trapos que já haviam perdido qualquer semelhança com tecido.
Ele não pedia esmola com gritos ou choros; apenas mantinha os olhos fixos no chão enlameado, guardando naquelas pupilas a vastidão fria de um oceano sem luz e sem qualquer vestígio de infância.
O eco abafado de passos firmes, caros e ritmados cortou subitamente o murmúrio abafado da multidão apressada que fugia da tormenta.
Renato caminhava com a imponência absoluta de quem acreditava ser o verdadeiro dono daquele estado, vestindo um terno de alfaiataria inglesa impecável, perfeitamente protegido por um guarda-chuva de marca importada.
O promotor federal sentia o cheiro doce da própria vitória política iminente e desprezava com todas as forças qualquer resquício de pobreza que pudesse manchar a paisagem de sua glória.
Ao notar o garoto bloqueando o caminho estreito de sua comitiva particular, a expressão até então serena de Renato distorceu-se em um nojo visceral e animalesco.
Sem que houvesse o menor aviso prévio ou palavra de advertência, a sola de seu sapato de couro de grife despencou com força brutal diretamente sobre os dedos descalços de Enzo.
O som seco e abafado do impacto contra a pedra úmida fez os pequenos ossos estalarem sob o peso insuportável daquela arrogância desmedida.
"Sai da minha frente, lixo inútil", rosnou Renato, com a voz grossa pingando um desprezo sádico que parecia rasgar o ar gélido da estação.
Em seguida, num gesto de pura depravação de poder, ele virou o copo de uísque escocês de doze anos que segurava na mão livre.
O líquido âmbar, misturado a pedras de gelo, foi derramado sem cerimônia diretamente sobre a cabeça e o rosto sujo de fuligem do menino.
O álcool forte queimou instantaneamente as feridas abertas e os cortes na testa de Enzo, misturando-se ao suor, à lama da calçada e às lágrimas invisíveis.
Atrás do promotor prepotente, o jovem policial militar Matheus deu um passo involuntário e tenso para a frente.
Com a mão crispada de raiva contida no coldre da arma, o peito do recruta arfava de indignação pura diante daquela covardia explícita.
"Isso é um claro abuso de autoridade, senhor! Ele é só uma criança indefesa...", começou Matheus, com a voz trêmula de quem ainda acreditava fielmente na honra da farda.
Antes que o rapaz pudesse avançar para socorrer a vítima, uma mão calejada, pesada e fria agarrou seu ombro com força dolorosa.
Carlos, o veterano e cínico chefe dos agentes secretos da comitiva, balançou a cabeça lentamente, com o rosto marcado por rugas profundas de conivência e tédio.
"Fica quieto no teu lugar, garoto novato", sussurrou Carlos bem perto do ouvido do subordinado, com um tom perfeitamente plano e desprovido de qualquer empatia.
"O homem que você quer peitar é dono deste estado inteiro. Quer perder o distintivo e a própria vida no primeiro mês de trabalho?"
Matheus engoliu em seco com extrema dificuldade, sentindo o gosto amargo e insuportável da impotência queimar-lhe a garganta enquanto via a injustiça acontecer a centímetros.
Enzo, por sua vez, não gritou, não soltou um único gemido de dor e nem tentou se encolher ainda mais para fugir daquela humilhação pública.
Ele ergueu lentamente o queixo, revelando um rosto magro e esquálido, esculpido em traços de uma beleza sombria, aristocrática e cortante.
Sob a franja encharcada de chuva e fuligem, suas pupilas exibiam um azul-marinho tão escuro e denso que parecia quase preto, transbordando uma quietude aterrorizante.
Renato parou de andar por um breve segundo, profundamente incomodado pela total ausência de medo naqueles olhos que pareciam analisá-lo como a uma mera carcaça.
"O que foi, moleque mudo? Vai chorar para a polícia agora?", zombou o promotor, soltando uma risada curta, seca e arrogante para impressionar os assessores.
Para humilhar ainda mais, Renato tirou uma nota amassada e suja do bolso interno do paletó e jogou-a na lama.
A cédula caiu bem em cima da poça de sangue que começava a se formar lentamente ao redor dos pés descalços e esmagados do menino.
"Compra um caixão decente com isso, seu desgraçado", acrescentou ele antes de virar as costas de vez e seguir rumo à saída VIP reservada.
Enzo permaneceu absolutamente imóvel na penumbra daquela pilastra, deixando o sangue escorrer pela ponta dos dedos sem emitir um único som.
Seus lábios pálidos, ressecados e rachados se moveram milimetricamente, articulando palavras que o barulho ensurdecedor da tempestade abafou para quase todos.
"Aproveita bem o teu trono de mentira, Renato", sussurrou a voz infantil, carregada de uma certeza glacial que desafiava todas as leis lógicas da física.
"Amanhã a esta exata mesma hora, você vai estar rastejando e implorando de joelhos bem na minha frente."
Carlos ouviu o eco sussurrado daquela frase misteriosa e sentiu um calafrio inesperado correr por toda a sua espinha dorsal, como um aviso de morte.
Matheus fixou o rosto ferido do menino firmemente na memória, gravando aquelas feições com uma mistura avassaladora de pavor e fascínio inexplicável.
Renato sequer olhou para trás, rindo displicentemente enquanto abria a porta de seu carro blindado com motorista particular estacionado na área restrita.
O veículo arrancou com um ronco abafado e potente, espirrando água podre em direção à calçada onde o pequeno corpo continuava abandonado à própria sorte.
Enzo esperou pacientemente os faróis sumirem completamente na neblina cinzenta antes de inclinar o torso trêmulo para a frente.
Com dedos firmes, frios e calculistas, ele recolheu a nota jogada na lama e a guardou junto ao peito, bem perto de um velho telefone celular de tela trincada.
Ele erguido o rosto desfigurado pela lama uma última vez, deixando que a escuridão absoluta daquela coluna o engolisse por completo.
A contagem regressiva para a derrocada e a destruição total do homem mais poderoso de São Paulo acabava de começar nas sombras, mas o que viria a seguir superaria qualquer pesadelo que a alta cúpula da justiça jamais ousara imaginar nas profundezas daquela noite chuvosa.
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