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"O Avô Que Ela Nunca Conheceu" Capítulo 3

正文开头

Ricardo encerrou a ligação sem se despedir.

Por um segundo, a mão ficou suspensa junto ao ouvido. Depois ele guardou o aparelho, retirou as luvas e recuperou o rosto usado em reuniões.

—Antônio.

—Ricardo.

Sofia atravessou a sala com a cadeira.

—Pai, ele é meu avô. Ele me deu um sanduíche e conhece pedra melhor que você.

Ricardo olhou para Helena.

—Podemos conversar?

—Já estamos conversando.

—A sós.

—Não.

Antônio tocou o ombro de Sofia.

—Mostre sua coleção no quarto. Depois você me conta qual ganhou.

—Não é competição.

—Então preciso aprender isso também.

Helena confirmou com a cabeça. Sofia saiu, contrariada. Quando a porta do corredor fechou, Ricardo pendurou o casaco com cuidado exagerado.

—Não sei o que ele contou.

—Curioso você começar assim —disse Helena.

—Seu pai sempre teve uma versão própria dos fatos.

Antônio segurou o encosto da cadeira.

—Minha versão tem boletos, despejo e quinze anos.

—Você administrou mal uma empresa.

Helena bateu a matrícula sobre a mesa.

—Com que dinheiro você comprou a oficina do meu pai?

Ricardo não baixou os olhos.

—A Valença Urbanizações comprou ativos de um fundo.

—Um fundo ligado a Damião Cruz.

—Damião atendia centenas de clientes.

—Inclusive meu pai, quando apareceram empréstimos que ele não reconhecia.

Ricardo soltou o nó da gravata.

—Você está cansada. Encontrou Antônio na rua e está tentando encaixar quinze anos numa tarde.

—Responda.

—Falo quando estivermos calmos.

Ele pegou o casaco. Antônio moveu-se um passo e ocupou a passagem, sem erguer a voz.

—Você disse a ela que eu fugi.

Ricardo ajeitou a manga.

—Foi o que todos entenderam.

—Disse a mim que ela não queria me ver.

—Helena estava doente.

—Interceptou minhas cartas? —perguntou Antônio.

—Não lembro de cartas.

Helena retirou o envelope do plástico.

—A sua empresa recebeu esta.

Ricardo olhou para o carimbo e desviou.

—Uma recepção recebe centenas de objetos.

—Você mostrou a ele uma carta falsa com a minha assinatura?

O maxilar de Ricardo se moveu.

—De que carta está falando?

Helena ficou imóvel.

—Eu não disse o que havia na carta.

Ricardo olhou para ela. Antônio viu o cálculo rápido, a busca por uma saída.

—Você está transformando recordações confusas em acusação.

—Então leia a carta que falsificou.

—Não existe carta.

—Existiu quando precisava afastá-lo.

Ricardo apontou para Antônio.

—Esse homem estava afundado em dívidas. Sumiu. Agora encontra você por acaso num bairro onde nunca pisaria e aparece nesta casa no mesmo dia.

—Ele me deu a única comida que tinha —disse Helena.

—Uma boa encenação custa pouco.

Antônio tirou do bolso o recibo do hortifrúti e os sessenta reais dobrados.

—Trabalhei duas horas por oitenta. Guardei o aluguel e comprei o pão.

Ricardo riu pelo nariz.

—Quer que eu acredite que não quer nada?

—Não quero nada seu.

—Então saia.

Helena se colocou entre os dois.

—Ele não vai sair.

—Eu paguei esta casa.

—É isso que vamos apurar.

正文1

Pela primeira vez, Ricardo levantou a voz.

—Você não faz ideia do que está mexendo.

Helena aproximou a matrícula do peito dele.

—Essa frase não é uma negativa.

Ricardo arrancou o casaco do cabide.

—Seu pai nunca foi a vítima que você imagina.

Antônio deu um passo.

—Repita.

—Se abrirem o passado, estejam prontos para o que vai sair.

Ele abriu a porta. Helena falou antes que cruzasse.

—Não volte sem uma resposta.

Ricardo parou de costas.

—Esta também é a casa da minha filha.

—E Sofia fica comigo hoje.

Ele virou o rosto, mas não entrou. A porta fechou com força suficiente para fazer a pedra verde cair da mesa.

Sofia apareceu no corredor.

—Meu pai foi embora?

Helena recolheu a pedra.

—Foi dormir em outro lugar.

—Vocês brigaram por causa do vovô?

Antônio se agachou para ficar na altura dela.

—Os adultos esconderam documentos. Sua mãe precisa entender quais.

—Meu pai fez coisa errada?

Helena sentou-se no braço do sofá.

—Ainda estamos juntando os fatos.

Sofia aceitou a resposta sem sorrir.

Lúcia chegou quarenta minutos depois, trazendo sacos para provas, um scanner portátil e uma expressão que dispensava cumprimentos. Fotografou o carimbo, registrou os números dos documentos e pediu a Antônio que ditasse datas enquanto a memória estava recente.

—A oficina começou a ter problemas quando? —perguntou.

—Primeiro vieram cobranças de fornecedores que eu tinha pago. Depois, linhas de crédito. Quase dois milhões de reais no total de hoje.

Helena apertou as mãos.

—Ricardo dizia que eram investimentos ruins.

—Eu nunca investi. Ele se ofereceu para negociar com o banco. Pediu que eu não preocupasse você durante a gravidez.

—Depois eu perdi o bebê.

Antônio baixou a cabeça.

—Ele passou a filtrar minhas ligações.

Lúcia não comentou. Escreveu nomes, datas, bancos e endereços. Pediu acesso apenas aos documentos que pertenciam legalmente a Helena. Fez cópias das procurações patrimoniais e encontrou uma autorização ampla assinada por ela durante a internação.

—Esta assinatura é sua? —perguntou.

Helena analisou.

—É. Eu estava sedada em parte daquele período.

—Ricardo podia oferecer ativos em garantia.

—Que ativos?

Lúcia virou a página. Havia uma participação herdada de Teresa, mãe de Helena, numa empresa de materiais de construção.

—Estas ações.

Antônio reconheceu o nome.

—Na época valiam pouco.

—Hoje valem muito —disse Helena.

Lúcia fechou a pasta.

—Precisamos descobrir quando foram usadas e quem se beneficiou.

O celular de Helena vibrou. Mensagem de Ricardo:

Preciso de alguns dias. Não torne isso pior.

Lúcia pediu que ela não respondesse.

—Quem sabe que não fez nada escreve "você está enganada". Ele está pedindo tempo.

Antônio olhou para o corredor da filha.

—Para quê?

—Mover dinheiro. Falar com testemunhas. Destruir papel.

Lúcia abriu o registro societário completo. Uma sequência de empresas levava da Ponte Norte até uma assessoria contábil. O administrador tinha um nome conhecido.

—Damião Cruz —leu Helena.

Antônio apertou a beirada da mesa.

—Ele guardava folhas já assinadas.

Lúcia levantou os olhos.

—Quem pode confirmar?

Antônio demorou. Depois disse:

—Martim Delgado. Se ainda estiver vivo.

Lúcia digitou o nome. O resultado mostrou um endereço em Guarulhos e um telefone fixo.

Antes de ligar, Antônio pediu cinco minutos. Foi até o jardim e parou diante de uma mesa de madeira coberta por verniz claro. Passou a unha numa junção e encontrou uma folga quase invisível.

Sofia o seguiu.

—Está quebrada?

—Ainda não.

—Então por que olha assim?

—Porque vai quebrar se ninguém apertar.

Ela trouxe uma pequena caixa de ferramentas da despensa, indicando onde o pai guardava tudo. Antônio escolheu uma chave, ajustou dois parafusos e pediu que Sofia testasse. A menina apoiou os braços. A mesa não balançou.

—Consertou rápido.

—O defeito avisou antes.

Helena apareceu na porta com o telefone. O pai falava da mesa, mas ela olhou para o monte de documentos dentro da sala. Durante anos, os avisos também estiveram ali: contas que Ricardo mandava assinar depressa, explicações adiadas, perguntas chamadas de ansiedade.

—Pai, quando tudo começou, você desconfiou dele?

Antônio guardou a ferramenta.

—Desconfiei das contas. Dele, só quando já dependia da ajuda que oferecia.

—Eu também.

Ele devolveu a caixa a Sofia.

—Então paramos de nos culpar e apertamos o que está solto.

Helena entregou o telefone. Antônio digitou o número de Martim com o polegar e esperou a chamada completar.

Antônio fez a ligação. Uma voz rouca atendeu no sexto toque.

—Alô?

—Martim. É o Antônio.

Do outro lado, o silêncio se prolongou.

—Antônio? Disseram que você tinha morrido em Portugal.

Helena fechou os olhos.

Outra mentira acabava de ganhar uma testemunha.

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