"O Avô Que Ela Nunca Conheceu" Capítulo 2
Antônio segurou a porta do carro sem entrar.
O banco de couro, o motorista e a cadeira sendo recolhida no porta-malas deixavam seu casaco mais velho. Helena já estava ao volante. Sofia batia no assento ao lado, reservando o lugar.
—Vô, aqui.
A palavra resolveu a discussão. Antônio sentou e manteve a pasta de currículos sobre os joelhos.
No caminho até o Morumbi, Sofia perguntou se ele sabia cozinhar, se tinha cachorro e por que seu cabelo começava "tão longe da testa". Helena repreendeu a última pergunta. Antônio riu pela primeira vez naquele dia.
Ele viu a cadeira dobrada no espelho interno e baixou a voz.
—Ela está bem?
—Estou aqui —disse Sofia.
Helena olhou pelo retrovisor.
—Ela nasceu com uma condição neuromuscular. Dá alguns passos com apoio. A cadeira dá independência.
—E velocidade —acrescentou Sofia.
—Principalmente quando não deve.
A mansão tinha muros claros e um jardim sem folhas fora do lugar. Antônio limpou os sapatos no capacho até Helena tocar seu braço.
—Pode entrar.
—Não quero sujar.
—É piso, pai.
Sofia avançou pelo hall.
—Vou mostrar minhas pedras.
—Depois —disse Helena. —Preciso conversar com seu avô.
—Quanto tempo?
—Um pouco.
—Isso não é número.
Antônio levantou dois dedos.
—Dois cafés.
Sofia aceitou e desapareceu pelo corredor. Helena conduziu o pai à cozinha. Preparou café sem perguntar se ele queria. Quando colocou a xícara, notou as mãos dele inchadas.
—O que aconteceu?
—Caixas.
—Você trabalha carregando caixas?
—Hoje trabalhei.
—E amanhã?
—Amanhã procuro de novo.
Helena abriu a boca, fechou e empurrou o açucareiro. Antônio usou meio pacote. Ela se lembrava: ele sempre usara dois.
—Comece pela última vez que tentou me ver.
Ele apoiou a xícara.
—Junho, quinze anos atrás. Ricardo veio até o portão. Disse que você perdera o bebê e me culpava pela pressão.
A colher caiu da mão de Helena.
—Eu nunca culpei você.
—Ele mostrou uma carta.
—Que carta?
Antônio repetiu as frases que memorizara: que ela queria formar uma família sem os problemas dele, que parasse de procurá-la. A assinatura parecia perfeita.
Helena buscou ar junto à janela.
—Eu estava internada quando perdi o bebê. Ricardo controlava meu telefone porque eu mal conseguia levantar.
—Ele disse que você não queria ouvir minha voz.
—Eu perguntava por você. Ele dizia que seu número não existia mais.
Antônio abriu a pasta. Sob os currículos havia recibos de correio, cópias amareladas e três envelopes retornados. Helena os alinhou por data. Todos tinham passado por caixas postais ou recepções ligadas às primeiras empresas de Ricardo.
—Por que guardou só estes?
—Mudei muitas vezes. Perdi um quarto numa enchente. Queimei papel para aquecer outro.
Helena passou o polegar sobre o próprio nome.
—Eu ainda tenho todas as fotos.
—Ele disse que você as rasgou.
Ela saiu da cozinha e voltou com uma caixa creme. Abriu sobre a mesa. Praia, aniversários, a oficina, a mãe de Helena, Teresa, diante de um bolo torto. Antônio tocou cada fotografia pela borda.
Sofia surgiu sem fazer barulho.
—Essa é a vovó?
—É —respondeu Antônio.
—Ela morreu antes de eu nascer.
—Você tem o sorriso dela.
Sofia sorriu de propósito para testar. Antônio riu, e Helena precisou virar o rosto.
—Posso mostrar as pedras agora?
—Pode —disse Helena. —Mas fiquem aqui perto.
A menina despejou uma caixa de minerais coloridos na mesa. Antônio perguntou o nome de cada um e aceitou correções. Helena fotografou todos os envelopes, enviou para um endereço salvo como LÚCIA PARTICULAR e escreveu: "Preciso que veja isto hoje. Sem o escritório do Ricardo."
O telefone tocou dois minutos depois.
Enquanto aguardava Lúcia, Helena levou o pai ao lavabo e deixou uma toalha limpa ao lado da pia. Antônio demorou. Quando saiu, o rosto estava lavado e o cabelo penteado com água, porém ele continuava segurando o casaco.
—Pode tirar isso. A casa está quente.
—O bolso tem meus documentos.
Helena trouxe uma sacola e guardou a pasta à vista. Antônio retirou o casaco. A camisa tinha um remendo junto ao cotovelo, costurado com linha de cor diferente.
—Foi você que fez?
—A dona da pensão. Cobrou cinco reais.
Helena abriu um armário e pegou uma camisa de Ricardo. Parou antes de oferecer. A etiqueta, o corte e o dono transformariam ajuda em humilhação. Guardou de volta e escreveu uma mensagem à governanta pedindo roupas básicas novas, sem marcas aparentes e sem dizer para quem.
Antônio viu o movimento.
—Não precisa.
—Precisa de uma camisa para amanhã.
—A minha seca.
—Então terá duas opções.
Ele reconheceu o tom que usava quando Helena adolescente insistia em levar madeira descartada para as maquetes.
—Você continua mandona.
—Você continua difícil.
Sofia surgiu com uma pedra azul e olhou de um para outro.
—Isso é briga?
—É família —disse Antônio.
Helena segurou o sorriso. A palavra pareceu grande demais para aquela tarde, mas ninguém a corrigiu.
—Você encontrou seu pai? —perguntou Lúcia.
Helena afastou-se até a despensa.
—Encontrei. E acho que meu marido interceptou as cartas dele.
—Não mexa mais nos envelopes. Coloque cada um em plástico separado. Ricardo está em casa?
—Ainda não.
—Faça cópia de tudo que estiver acessível legalmente a você. Escrituras, contratos conjuntos, procurações. Não confronte antes de preservar.
Helena olhou pela fresta da porta. Antônio mostrava a Sofia como a luz atravessava um quartzo.
—Ele perdeu a oficina. Ricardo disse que meu pai a vendeu.
—Qual era o endereço?
Helena respondeu. O teclado de Lúcia começou a bater do outro lado.
—Esse endereço é a sede antiga da Valença Urbanizações.
Helena apertou o telefone.
—Não pode ser.
—Vou puxar a matrícula.
Antônio percebeu quando ela voltou. Não perguntou na frente de Sofia. Esperou a menina ir ao quarto buscar outra caixa.
—O que aconteceu?
—A antiga oficina virou a primeira sede da empresa de Ricardo.
Ele afastou a cadeira.
—Ele disse que um fundo tinha comprado no leilão.
—Talvez tenha comprado. Quero saber quem estava por trás.
O rosto de Antônio fechou.
—Não vim atrás de dinheiro.
—Eu sei.
—Se isso destruir sua casa…
Helena apontou para os envelopes.
—Minha casa já tem uma mentira no alicerce.
Sofia reapareceu com uma pedra verde. Colocou-a na mão do avô.
—Esta é para ficar.
Antônio tentou devolver.
—É sua coleção.
—Agora é nossa.
O interfone tocou. O segurança avisou que o motorista de Ricardo chegara para buscar documentos no escritório. Helena ordenou que ninguém entrasse e subiu.
O escritório estava trancado. Ela não forçou. Fotografou a porta, desceu e abriu apenas a pasta de documentos familiares guardada num armário comum. Entre escrituras e apólices apareceu uma cópia de cessão da antiga oficina.
A assinatura de Antônio estava no rodapé.
Ele pegou a folha e aproximou-a do rosto.
—Nunca assinei isso.
Helena comparou a data com uma foto da confraternização da oficina. Naquele mesmo dia, Ricardo aparecia ao lado do pai, segurando uma caneta e uma pilha de recibos.
O celular de Helena vibrou. Lúcia enviara a matrícula completa.
Adquirente inicial: Ponte Norte Gestão de Ativos. Transferência, oito meses depois: Valença Urbanizações S.A.
Helena ampliou os nomes dos administradores. Uma assessoria levava a Damião Cruz, o antigo contador do pai.
—Você conhece Damião?
Antônio deixou a folha na mesa.
—Ele tinha acesso às minhas assinaturas.
Faróis atravessaram a janela da sala.
Um carro parou diante da casa.
Sofia sorriu.
—Papai chegou.
Helena reuniu os envelopes, a fotografia e a matrícula num só monte. Antônio se levantou. A maçaneta da porta principal girou.
Ricardo entrou falando ao telefone e parou ao ver o homem que acreditava ter apagado.
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