"Meu Irmão Mexeu Na Minha Taça… Então Eu Troquei As Nossas" Parte 2
A ambulância deixou o Palácio Imperial Jardins cercada por carros, fotógrafos e convidados tentando entender o que acabara de acontecer.
Isabela foi no banco de trás do carro de Rafael, ainda usando o vestido de noiva.
O véu estava amassado.
O cabelo, que horas antes tinha sido preso com perfeição, começava a se soltar perto do rosto.
Mas nada daquilo importava.
Ela só conseguia ouvir a frase de Augusto.
"Ela não pode descobrir sobre as ações."
Rafael dirigia em silêncio.
Uma das mãos permanecia firme no volante.
A outra estava fechada com tanta força que os nós dos dedos tinham ficado brancos.
Isabela olhou para ele.
"Fala alguma coisa."
Rafael demorou alguns segundos.
"Se eu falar agora, talvez eu diga algo que não consiga desfazer."
"Você acha que meu irmão tentou me dopar."
"Eu não acho."
Ele virou o rosto por um instante.
"Eu vi sua reação. Vi a reação dele quando percebeu que tinha bebido da taça errada."
Isabela sentiu um peso no peito.
"Eu devia ter contado para você na hora."
"Devia."
A resposta foi dura.
Depois Rafael respirou fundo.
"Mas eu entendo por que não contou."
"Não, você não entende."
"Entendo o suficiente."
Ele diminuiu a velocidade quando o semáforo fechou na Avenida Nove de Julho.
"Você passou a vida inteira aprendendo a não transformar Augusto em problema."
Isabela ficou em silêncio.
Aquilo doeu porque era verdade.
Quando chegaram ao Hospital São Gabriel Paulista, a família Almeida já ocupava metade da sala reservada da emergência.
Patrícia caminhava de um lado para o outro, ainda usando o vestido da festa.
Helena estava sentada, chorando.
Ricardo permanecia de pé perto da janela, falando baixo ao telefone.
Quando Isabela entrou, a mãe levantou imediatamente.
"Finalmente."
Não houve abraço.
Não houve pergunta sobre como ela estava.
Helena olhou primeiro para Rafael.
Depois para a filha.
"O médico está examinando seu irmão."
Isabela cruzou os braços.
"E ninguém vai perguntar por quê?"
Helena fechou a expressão.
"Agora não é hora."
Rafael deu um passo à frente.
"É exatamente a hora."
Ricardo desligou o telefone.
"Rafael."
"Seu filho colocou alguma coisa na taça da Isabela."
Patrícia parou de andar.
Helena ficou rígida.
Ricardo olhou para Isabela.
"Você tem certeza do que viu?"
Ela sentiu a raiva subir.
"Eu vi Augusto abrir um papel, despejar alguma coisa no meu champanhe e esconder o pacote no paletó."
Ricardo desviou o olhar.
Aquilo bastou.
Isabela se aproximou.
"Você sabia?"
"Não."
A resposta veio rápida demais.
"Então por que está com essa cara?"
"Porque meu filho está dentro de uma emergência."
"E sua filha quase esteve no lugar dele."
Helena se levantou de vez.
"Chega."
Isabela virou-se para a mãe.
"Chega de quê?"
"De acusar seu irmão enquanto ele está desacordado."
Rafael soltou uma risada sem humor.
"Ele não está sendo acusado sem motivo."
Helena ignorou Rafael.
Olhou apenas para Isabela.
"Por que você trocou as taças?"
O corredor pareceu ficar mais silencioso.
Isabela não respondeu.
Durante dois segundos, apenas encarou a mãe.
Então percebeu.
A pergunta errada.
Completamente errada.
"Repete."
Helena apertou os lábios.
"Eu perguntei por que você trocou as taças."
Isabela sentiu a pele arrepiar.
"Você não perguntou por que Augusto colocou alguma coisa na minha bebida."
Helena ficou pálida.
"Não distorça minhas palavras."
"Eu não preciso distorcer."
Isabela se aproximou mais.
"Você deveria estar perguntando o que seu filho colocou na minha taça."
"Eu estou preocupada com ele."
"E comigo?"
Helena hesitou.
Foi mínimo.
Mas Isabela viu.
A hesitação doeu mais do que qualquer resposta.
"Isabela..."
"Não."
Ela recuou.
"Não faz isso agora."
Patrícia finalmente falou.
"Eu também quero saber o que Augusto colocou naquela taça."
Todos olharam para ela.
Helena franziu a testa.
"Patrícia, por favor."
"Não, Helena."
A voz dela tremia.
"Eu sou esposa dele. Eu estava do lado dele quando começou a passar mal."
Ricardo se aproximou.
"Você sabia de alguma coisa?"
Patrícia balançou a cabeça.
"Não."
"Tem certeza?"
"Tenho."
Ela olhou para Isabela.
"Mas ele estava estranho há semanas."
Antes que alguém perguntasse mais, a porta da emergência se abriu.
Um homem de jaleco branco apareceu.
"Família do senhor Augusto Almeida?"
Todos se aproximaram.
"Sou o doutor Eduardo Nogueira."
Helena foi a primeira.
"Meu filho está bem?"
"Neste momento, está estável."
Ela levou a mão ao peito.
"Graças a Deus."
O médico continuou.
"Ele apresentou alteração do nível de consciência, confusão, sonolência intensa e comprometimento temporário da coordenação."
Rafael perguntou:
"Foi álcool?"
"Não apenas."
O médico olhou para o grupo.
"Os exames iniciais indicam presença de uma substância sedativa."
Isabela sentiu o estômago apertar.
"Que substância?"
"Ainda estamos aguardando a confirmação toxicológica completa."
"Pode matar?"
"Na quantidade identificada até agora, o risco maior seria perda de consciência, queda de pressão, desorientação e incapacidade de tomar decisões com clareza."
Rafael ficou imóvel.
"Então alguém que ingerisse isso poderia parecer bêbado."
O médico assentiu.
"Dependendo da quantidade e da combinação com álcool, sim."
Isabela fechou os olhos por um instante.
A peça entrou no lugar.
Augusto não precisava matá-la.
Só precisava fazê-la perder o controle.
Na própria festa.
Diante de duzentas pessoas.
Rafael percebeu o mesmo.
"Queriam filmá-la."
Ela abriu os olhos.
Ricardo olhou para ele.
"Do que você está falando?"
Rafael não respondeu.
O médico voltou a falar.
"Seu irmão está acordando, mas ainda bastante confuso. Uma pessoa pode entrar por alguns minutos."
Helena imediatamente deu um passo à frente.
"Eu vou."
Isabela segurou seu braço.
"Eu também."
"Não."
"Ele falou sobre ações antes de desmaiar."
Helena congelou.
Ricardo interferiu.
"Isabela."
Ela virou o rosto.
"O quê?"
"Não faça isso agora."
A frase foi quase um pedido.
Quase.
"Então você sabe."
Ricardo respirou devagar.
"Não aqui."
"Por quê?"
"Porque existem coisas que precisam ser explicadas com calma."
Isabela soltou o braço da mãe.
"Engraçado."
"Isabela."
"Augusto tentou me colocar em uma situação que poderia destruir minha vida."
Ela apontou para a porta.
"E agora todo mundo está preocupado em escolher o momento certo para me contar a verdade."
Ricardo não respondeu.
O silêncio dele respondeu por si.
Helena entrou no quarto.
Isabela ficou do lado de fora.
Cinco minutos depois, a porta se abriu novamente.
Mas Helena não saiu.
A voz de Augusto atravessou o corredor.
Baixa.
Arrastada.
"Ações..."
Isabela ficou imóvel.
Rafael também ouviu.
"Ações..."
Então outra palavra.
"Testamento."
Ricardo empalideceu.
Isabela olhou para ele.
Lá dentro, Augusto murmurou de novo.
"Cinquenta e um..."
A voz se perdeu.
Depois:
"Não pode..."
Isabela empurrou a porta.
Ricardo tentou segurá-la.
"Isabela."
Ela entrou.
Augusto estava deitado, ligado a monitores.
Helena permanecia ao lado da cama.
Quando viu a irmã, ele arregalou os olhos.
"Você..."
Isabela se aproximou.
"Que ações?"
Augusto tentou levantar a cabeça.
Helena segurou seu ombro.
"Você precisa descansar."
"Que testamento, Augusto?"
"Saia daqui."
"Por quê?"
Ele respirou com dificuldade.
"Porque você não entende."
"Então me explica."
Augusto riu fraco.
"Você sempre foi tão ingênua."
Isabela sentiu o sangue ferver.
"Você colocou alguma coisa na minha bebida."
"Não prova nada."
Rafael entrou atrás dela.
"Prova bastante quando existe laudo toxicológico."
Augusto olhou para ele com desprezo.
"Advogadozinho."
"Marido dela."
Rafael se aproximou.
"E a partir de agora, qualquer coisa que envolva Isabela também envolve a mim."
Augusto desviou os olhos.
"Era meu."
Isabela se inclinou.
"O quê?"
"Meu."
"Augusto."
Ele fechou os olhos.
"Cinquenta e um por cento."
Ricardo apareceu na porta.
"Chega."
Isabela se virou.
"Agora você vai falar."
Ricardo permaneceu em silêncio.
"Não aqui."
"Você continua dizendo isso."
"Porque não é simples."
"Meu irmão tentou me dopar no meu casamento."
Ela apontou para Augusto.
"Simples morreu há algumas horas."
Ricardo não respondeu.
Rafael colocou a mão nas costas dela.
"Vamos sair."
Isabela olhou para ele.
"Eu não vou embora sem resposta."
"Não precisamos pedir."
Ela percebeu algo no tom dele.
"Como assim?"
"Eu sou advogado."
"Eu sei."
"E trabalho com direito empresarial."
Ele olhou para Ricardo.
"Se existe alteração societária recente, existe registro."
O rosto de Ricardo endureceu.
"Rafael."
"Se é algo que afeta legalmente minha esposa, ela tem direito de saber."
Helena saiu do quarto.
"Vocês estão transformando isso num espetáculo."
Isabela riu, incrédula.
"O espetáculo aconteceu no meu casamento."
"Seu irmão está doente."
"Meu irmão está assim porque bebeu o que preparou para mim."
Helena desviou o rosto.
Rafael percebeu.
Mas não disse nada.
Ainda.
Duas horas depois, Isabela estava em uma sala reservada do hospital.
O vestido de noiva tinha sido coberto por um casaco que Patrícia emprestara.
Rafael estava sentado diante do notebook.
Ele já tinha feito três ligações.
Falado com um colega especializado em registros societários.
Consultado documentos públicos.
E encontrado uma referência que mudou tudo.
"Isabela."
Ela ergueu os olhos.
"O quê?"
"Seu pai fez uma reorganização societária há três meses."
"Que tipo de reorganização?"
"Transferência programada de participação."
Ela ficou confusa.
"Para quem?"
Rafael não respondeu imediatamente.
Em vez disso, virou o notebook.
Na tela havia o nome dela.
Isabela Almeida Vasconcelos.
Ela se aproximou.
"Isso é meu?"
"Vai ser."
"Quando?"
Rafael leu novamente.
"Após o registro civil do casamento."
Isabela sentiu um frio atravessar o corpo.
"Hoje."
"Sim."
"Quanto?"
Rafael respirou fundo.
"Seu pai vinculou parte das ações pessoais dele a você."
"Parte quanto?"
"Somada à participação que você já tinha indiretamente, suficiente para mudar o equilíbrio dentro do Grupo Almeida."
Isabela sentou devagar.
"Augusto sabia."
"Provavelmente."
"Por isso hoje."
"Provavelmente."
Ela ficou olhando para a tela.
"Eu quero ver tudo."
Rafael hesitou.
"Tem mais."
"Mostra."
Ele abriu outro documento.
Dessa vez, não era apenas uma referência.
Era uma minuta registrada.
Data.
Percentuais.
Condições.
Participações.
Isabela tentou acompanhar.
Mas um número chamou sua atenção.
"Isso está certo?"
Rafael não respondeu.
Ela apontou.
"Esse valor."
Ele fechou os olhos por um instante.
Depois virou o documento para ela.
"Eu fiz uma estimativa com base na última avaliação do grupo."
Isabela pegou as folhas impressas que ele havia acabado de receber por e-mail.
As mãos começaram a tremer.
"Quanto?"
Rafael falou baixo.
"Cerca de setecentos e oitenta milhões de reais."
Isabela ficou imóvel.
"Não."
"Isa."
"Isso não pode estar certo."
"Está."
Ela levantou os olhos.
"Meu pai me transferiu quase oitocentos milhões em participação e ninguém me contou?"
Rafael não respondeu.
Ela virou a última página.
E viu uma cláusula destacada.
Seu casamento não era apenas uma data simbólica.
Era a condição que ativava a transferência.
Isabela sentiu o ar faltar.
Augusto não tinha tentado arruinar apenas uma noiva.
Ele tinha tentado impedir uma acionista de assumir algo que acreditava ser dele.
E, naquele instante, Isabela entendeu que a pergunta mais importante já não era quanto valiam aquelas ações.
Era outra.
Quem, além de Augusto, sabia que elas existiam?
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