"Meu Irmão Mexeu Na Minha Taça… Então Eu Troquei As Nossas" Parte 1
O salão principal do Palácio Imperial Jardins brilhava como se nada de ruim pudesse acontecer ali.
Lustres de cristal refletiam a luz sobre centenas de rosas brancas, garçons circulavam com bandejas de champanhe e um quarteto de cordas tocava perto das enormes janelas voltadas para o jardim.
Isabela Almeida Vasconcelos ainda sentia o peso do vestido de noiva sobre o corpo quando Rafael apertou sua mão por baixo da mesa.
"Está feliz?"
Ela virou o rosto para o marido.
Rafael sorria daquele jeito tranquilo que sempre fazia Isabela esquecer, por alguns segundos, a família sentada do outro lado do salão.
"Muito."
Era verdade.
Pelo menos deveria ser.
Eles tinham acabado de se casar diante de mais de duzentas pessoas, entre empresários, políticos, médicos, advogados e sobrenomes conhecidos da elite paulistana.
Naquela noite, pela primeira vez, Isabela queria acreditar que alguma coisa em sua vida podia pertencer apenas a ela.
Sem disputa.
Sem comparação.
Sem Augusto.
O irmão mais velho estava a poucos metros de distância, conversando com dois executivos do Grupo Almeida como se aquela festa fosse dele.
Augusto Almeida sempre soubera ocupar espaço.
Desde criança.
Quando entrava em uma sala, Helena endireitava os ombros.
Ricardo prestava atenção.
Os parentes perguntavam sobre seus planos.
Quando Isabela entrava, geralmente alguém dizia que ela estava bonita.
Era quase engraçado.
Augusto ganhava perguntas sobre o futuro.
Isabela ganhava elogios sobre o vestido.
Ela aprendeu cedo a diferença.
"Isa?"
A voz de Rafael a trouxe de volta.
"Hm?"
"Você ficou longe de repente."
"Estou só cansada."
Rafael olhou para ela por alguns segundos.
Ele sabia quando ela mentia.
Mas não insistiu.
Na outra ponta da mesa, Helena Almeida levantava a taça enquanto conversava com uma amiga antiga.
Sua mãe usava um vestido azul-marinho impecável e mantinha a postura elegante de quem passara a vida inteira preocupada com a aparência da família.
Ricardo permanecia mais sério.
O patriarca do Grupo Almeida parecia observar tudo sem realmente participar.
Então Augusto se aproximou.
"Posso roubar minha irmã por um minuto?"
Rafael soltou a mão de Isabela.
"Desde que devolva."
Augusto riu.
"Prometo."
Isabela não gostou do tom.
Talvez porque conhecesse aquele sorriso.
O mesmo sorriso aparecia quando Augusto queria alguma coisa.
Quando tinha onze anos e quebrara a janela da casa chutando uma bola, sorrira daquele jeito antes de dizer aos pais que Isabela o havia provocado.
Ele fora castigado por uma semana.
Isabela ficara um mês sem brincar no jardim.
Anos depois, quando Augusto usara o carro do pai escondido e batera em uma coluna do estacionamento, dissera que só havia saído porque Isabela precisava de uma carona.
Ela nem estava com ele.
Helena acreditara primeiro no filho.
Depois, quando percebeu a verdade, apenas suspirou.
"Seu irmão carrega o peso desta família."
Isabela nunca esquecera aquela frase.
Era usada para tudo.
Augusto gritava?
"Ele está sob pressão."
Augusto humilhava funcionários?
"Ele precisa aprender a liderar."
Augusto perdia milhões em uma negociação?
"Ele assumiu riscos pelo grupo."
Isabela discordava?
"Você precisa ter mais paciência com seu irmão."
Sempre havia uma explicação para Augusto.
E sempre havia uma obrigação para Isabela.
"Você está linda."
A voz dele soou perto demais.
Isabela ergueu os olhos.
Augusto havia parado ao lado dela.
"Obrigada."
"Rafael tem sorte."
"Eu também tenho."
Augusto inclinou a cabeça.
Por um instante, alguma coisa escura atravessou seu olhar.
Foi rápido.
Quase imperceptível.
"Claro."
Um fotógrafo chamou Isabela do outro lado do salão.
Ela se virou por alguns segundos.
Foi o suficiente.
Quando olhou novamente, viu o ombro de Augusto bloqueando parcialmente sua visão da mesa.
Ele parecia ajeitar a manga do paletó.
Mas então Isabela viu.
Um pequeno papel dobrado surgiu entre os dedos dele.
Seu coração parou.
Augusto olhou para os lados.
Abriu o papel.
E despejou alguma coisa dentro da taça de champanhe colocada exatamente diante do lugar dela.
Isabela não respirou.
O salão continuou cheio de música.
Alguém ria perto do bar.
Um garçom passou carregando pratos.
Rafael conversava com um primo.
Ninguém tinha visto.
Ninguém além dela.
Augusto dobrou o papel vazio e o escondeu dentro do bolso interno do paletó.
Depois se afastou da mesa como se nada tivesse acontecido.
Isabela sentiu as pontas dos dedos ficarem frias.
Seu primeiro impulso foi chamar Rafael.
O segundo foi gritar.
O terceiro foi pegar a taça e jogar no chão.
Mas ela não fez nenhuma dessas coisas.
Ficou sentada.
Olhando para o champanhe.
Pequenas bolhas subiam lentamente pelo líquido dourado.
Parecia normal.
Talvez fosse isso que mais assustasse.
Augusto sempre fazia as coisas parecerem normais.
Ela se lembrou da reunião do conselho de dois anos antes.
Augusto tinha aprovado uma expansão desastrosa para o interior de Goiás sem concluir a análise de risco.
Quando o projeto começou a afundar, Ricardo chamou Isabela.
"Ajude seu irmão."
Ela trabalhou durante quatro meses.
Renegociou contratos.
Reestruturou custos.
Convenceu dois investidores a permanecer.
Salvou milhões.
Quando a crise terminou, Ricardo parabenizou Augusto diante do conselho.
Helena abraçou o filho.
Isabela recebeu um agradecimento no corredor.
Naquela época, ela não reclamou.
Nunca reclamava.
Era mais fácil preservar a paz.
Mais fácil engolir.
Mais fácil sorrir.
Augusto contava com isso.
Isabela olhou novamente para a taça.
Não.
Dessa vez, não.
"Augusto!"
A voz de Tereza Almeida Braga atravessou o salão.
A irmã mais nova de Ricardo vinha caminhando em direção ao sobrinho.
"Venha cá um minuto. Seu tio quer falar com você."
Augusto virou o rosto.
"Tia Tereza, agora?"
"Agora. Antes que ele vá embora."
Ele lançou um olhar rápido para Isabela.
Depois para a taça.
"Já volto."
Isabela sorriu.
"Claro."
Augusto se afastou.
Ela esperou.
Um segundo.
Dois.
Três.
Então estendeu a mão.
A taça de Augusto estava ao lado da dela.
Mesmo modelo.
Mesmo champanhe.
Mesmo guardanapo branco.
Isabela segurou as duas hastes e trocou as posições com um movimento simples.
Nada dramático.
Nenhum som.
Nenhuma testemunha.
Seu coração batia tão forte que ela conseguia sentir a pulsação no pescoço.
"Amor?"
Rafael voltou.
Isabela imediatamente soltou as taças.
"O que foi?"
"Você está pálida."
"Calor."
"Quer sair um pouco?"
Antes que ela respondesse, Augusto retornou.
"Espero não ter perdido nada."
"Não perdeu."
Ele sentou-se.
A mão dele encontrou a taça que agora estava à sua frente.
Isabela observou.
Augusto não hesitou.
Era evidente que acreditava que aquela era a bebida segura.
Um dos músicos parou de tocar.
O mestre de cerimônias pegou o microfone.
"Senhoras e senhores, vamos ouvir algumas palavras da família da noiva."
Palmas preencheram o salão.
Augusto levantou-se imediatamente.
Claro.
Ele jamais perderia uma oportunidade de ser ouvido.
Pegou a taça.
Caminhou até o centro do salão.
"Eu prometo ser breve."
Alguns convidados riram.
Augusto olhou primeiro para Rafael.
Depois para Isabela.
"Minha irmã passou a vida inteira dizendo que não precisava de ninguém cuidando dela."
Isabela sustentou o olhar.
"Mas acho que todos aqui sabem que irmãos mais velhos nunca deixam de cuidar."
Helena sorriu emocionada.
Isabela quase riu.
Augusto ergueu a taça.
"Então, Rafael, cuide bem dela."
Rafael levantou a própria bebida.
"Pode deixar."
Augusto voltou os olhos para Isabela.
E o sorriso mudou.
Só ela percebeu.
"Parabéns, irmãzinha. Minha surpresa está chegando."
Um arrepio percorreu as costas de Isabela.
Ela levantou sua taça.
"Mal posso esperar."
Augusto bebeu.
Não apenas um gole.
Bebeu quase tudo.
Isabela observou o líquido desaparecer.
Ele colocou a taça sobre a mesa.
Sorriu.
E seguiu conversando.
Durante os primeiros dez minutos, nada aconteceu.
Isabela começou a duvidar de si mesma.
Talvez não fosse o que parecia.
Talvez o pacote tivesse alguma explicação absurda.
Talvez Augusto estivesse apenas tentando assustá-la.
Então, quinze minutos depois, ele afrouxou a gravata.
Patrícia Montenegro Almeida percebeu.
"Você está bem?"
"Estou."
"Seu rosto está vermelho."
"Está quente aqui."
Não estava.
Vinte minutos.
Augusto começou a beber água.
Vinte e cinco.
A mão dele tremia.
Aos trinta minutos, o sorriso tinha desaparecido.
Augusto estava apoiado na mesa perto da fonte de champanhe, respirando pela boca.
Patrícia segurou seu braço.
"Augusto, você não está bem."
"Eu disse que estou."
Sua voz saiu arrastada.
Ricardo levantou-se.
"Augusto."
O filho olhou para o pai.
Por um instante, pareceu não reconhecê-lo.
"Que foi?"
"Controle-se."
Augusto riu.
Mas o riso terminou em uma tosse seca.
Algumas pessoas começaram a olhar.
A música continuava.
Até Augusto derrubar uma bandeja.
O estrondo ecoou pelo salão.
Taças explodiram contra o piso de mármore.
O quarteto parou.
Duzentas pessoas ficaram em silêncio.
Patrícia tentou segurá-lo.
"Meu Deus, Augusto!"
"Não toca em mim!"
Ele empurrou a própria esposa.
Rafael levantou-se imediatamente.
Isabela permaneceu imóvel.
Augusto virou a cabeça.
Seus olhos encontraram os dela.
E naquele instante ele entendeu.
A taça.
A troca.
Tudo.
Seu rosto perdeu ainda mais cor.
"Você..."
Isabela não respondeu.
Augusto começou a caminhar em sua direção.
Tropeçou.
Apoiou-se em uma cadeira.
Helena correu até ele.
"Filho, o que aconteceu?"
Ele ignorou a mãe.
Continuou olhando para Isabela.
Com medo.
Com ódio.
E com uma raiva que ela nunca tinha visto antes.
"Você fez isso."
Rafael se colocou na frente da esposa.
"Fez o quê?"
Augusto apontou para Isabela.
O braço tremia.
"Você roubou o que era meu!"
Um murmúrio atravessou o salão.
Isabela franziu a testa.
"O que você está falando?"
Augusto riu de novo.
Um riso quebrado.
"Não se faça de inocente."
Ricardo avançou.
"Augusto, cale a boca."
O filho virou-se para ele.
"Agora você quer que eu cale a boca?"
"Você não está bem."
"Eu estou ótimo."
Augusto quase caiu.
Ricardo o segurou pelo braço.
"Chamem uma ambulância."
Helena começou a chorar.
"Alguém faça alguma coisa!"
Augusto agarrou a lapela do paletó do pai.
Com força.
Ricardo tentou afastá-lo.
"Augusto."
Mas o filho aproximou o rosto do dele.
Sua voz caiu para um sussurro rouco.
Ainda assim, Isabela ouviu.
"Pai... ela não pode descobrir sobre as ações."
O salão pareceu desaparecer.
Isabela olhou para o irmão.
Depois para o pai.
Ricardo ficou completamente imóvel.
E, pela primeira vez naquela noite, Isabela percebeu uma coisa ainda mais assustadora do que Augusto ter colocado alguma coisa em sua taça.
Seu pai sabia exatamente do que ele estava falando.
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