"Quando O Bilionário Voltou A Andar, Sua Família Entrou Em Pânico" Parte 2
Na manhã seguinte, Isabela chegou à sala de reabilitação exatamente às sete.
Augusto já estava lá.
Sentado na cadeira de rodas, com os braços cruzados e uma expressão que deixava claro que sua presença não significava cooperação.
Isabela colocou a bolsa sobre a mesa.
"Bom dia."
Augusto não respondeu.
Ela olhou para o relógio.
"Sete horas e dois minutos. Já começou mal."
Ele ergueu os olhos lentamente.
"Você veio para me tratar ou para me irritar?"
"Os dois parecem estar funcionando."
Augusto soltou o ar pelo nariz e desviou o olhar.
Isabela começou a organizar os equipamentos.
Durante a madrugada, quase não havia dormido.
As palavras de Rafael ainda estavam presas em sua cabeça.
Existiam coisas que Augusto não sabia sobre o próprio acidente.
Mas, quando a porta do escritório se abrira na noite anterior, Isabela conseguira se afastar antes de ser vista.
Não queria confrontar ninguém sem provas.
Ainda não.
"Hoje vamos começar com transferência de peso."
Augusto respondeu imediatamente.
"Não."
Isabela continuou preparando o apoio.
"Depois vamos trabalhar equilíbrio de tronco."
"Eu disse não."
"E eu ouvi."
"Então por que continua?"
Ela finalmente olhou para ele.
"Porque seu corpo não vai esperar você melhorar de humor."
O maxilar de Augusto se contraiu.
Ele segurou os braços da cadeira.
"Eu não preciso ser tratado como criança."
"Ninguém está tratando você como criança."
"Então pare de dar ordens."
"Você contratou uma profissional."
Augusto inclinou-se para a frente.
"Eu contratei alguém para me ajudar a andar."
"Exatamente."
Isabela apontou para a barra de apoio.
"Então levante."
Ele ficou em silêncio.
A provocação havia acertado onde ela queria.
Augusto se aproximou da barra com a cadeira.
Isabela posicionou os pés dele corretamente.
Quando tocou sua perna direita, percebeu novamente uma pequena resposta muscular.
Era discreta.
Mas real.
"Segure aqui."
Augusto segurou a barra.
"Agora incline o tronco para frente."
Ele tentou.
O primeiro movimento foi fraco.
Na segunda tentativa, conseguiu erguer parte do peso do corpo.
Isabela aproximou-se.
"Vou ajudar no quadril."
"Não."
"Augusto."
"Eu consigo sozinho."
"Não consegue ainda."
O olhar dele mudou imediatamente.
A palavra atingiu seu orgulho como um golpe.
"Saia."
"Não."
"Eu disse para sair."
"Se eu sair, você cai."
"Então deixe."
Antes que Isabela pudesse reagir, Augusto empurrou o próprio corpo para cima com força.
Por um segundo, ficou quase ereto.
Então a perna direita perdeu sustentação.
Seu corpo tombou para o lado.
Isabela tentou segurá-lo.
Os dois caíram contra o colchonete.
O barulho fez Dona Helena aparecer na porta.
"Meu Deus."
Augusto empurrou o braço de Isabela.
"Não toque em mim."
"Fique parado."
"Eu não preciso de ajuda."
Ele tentou se levantar usando os braços.
Falhou.
Tentou novamente.
O rosto começou a ficar vermelho.
Não de esforço.
De humilhação.
Dona Helena deu um passo à frente.
Augusto gritou:
"Saia daqui!"
Ela parou.
Isabela percebeu.
Não era a dor que o destruía.
Era ter sido visto no chão.
Augusto tentou mais uma vez.
O braço tremeu.
Ele bateu com força na barra metálica ao lado.
Depois agarrou um pequeno aparelho de exercícios e o lançou contra a parede.
O plástico se partiu.
"Chega!"
A voz de Isabela atravessou a sala.
Augusto ficou imóvel.
Ela se levantou.
"Ninguém vai tratar você como incapaz. Mas você está fazendo um trabalho excelente nisso sozinho."
Os olhos dele escureceram.
"Cuidado."
"Com o quê?"
"Com a forma como fala comigo."
Isabela se aproximou.
"Se quiser continuar sentado sentindo pena de si mesmo, não precisa de fisioterapeuta."
Augusto ficou pálido de raiva.
"Ninguém fala comigo assim."
"Talvez esse seja o seu problema."
Dona Helena permaneceu na porta.
Nem respirava direito.
Augusto encarou Isabela por vários segundos.
"Você não sabe nada sobre mim."
"Sei que está com medo."
Ele riu sem humor.
"De você?"
"De nunca mais conseguir ficar em pé."
A frase mudou tudo.
Augusto não respondeu.
A raiva continuava no rosto.
Mas agora havia outra coisa.
Algo mais cru.
Isabela abaixou o tom.
"Eu não posso prometer que você vai andar."
Ele desviou o olhar.
"Então pare de repetir isso."
"Mas posso prometer que, enquanto existir resposta, eu vou trabalhar."
Augusto apertou as mãos.
"Resposta."
"Sim."
"Você encontrou alguma coisa."
Isabela hesitou por um instante.
"Encontrei sinais que merecem investigação."
Augusto olhou para ela novamente.
"Por que meus médicos não disseram isso?"
"É exatamente o que eu estou tentando entender."
O silêncio ficou pesado.
Depois de alguns segundos, Augusto respirou fundo.
"Me coloque de volta na cadeira."
Isabela fez um gesto para Dona Helena.
Augusto percebeu.
"Ela não."
"Você acabou de cair."
"Eu não quero plateia."
Dona Helena entendeu imediatamente.
"Vou preparar o café."
Quando ela saiu, Isabela se aproximou.
"Passe o braço pelo meu ombro."
Augusto obedeceu contra a própria vontade.
Ele era muito mais pesado do que ela.
Isabela precisou usar todo o corpo para ajudá-lo na transferência.
Por alguns segundos, os dois ficaram próximos demais.
Augusto sentiu o perfume suave dela.
Isabela percebeu a respiração dele mudar.
Nenhum dos dois comentou.
Quando finalmente voltou à cadeira, Augusto olhou para o chão.
"Eu odiava depender de qualquer pessoa antes do acidente."
Isabela começou a recolher o aparelho quebrado.
"Então imagino como deve estar agora."
"Você não imagina."
Ela parou.
"Não."
Virou-se para ele.
"Mas posso escutar."
Augusto não respondeu.
Foi a primeira vez que Isabela percebeu que talvez ninguém tivesse oferecido aquilo desde o acidente.
Não conselho.
Não piedade.
Apenas escutar.
Mais tarde, enquanto Augusto descansava, Isabela pediu acesso ao arquivo completo de reabilitação.
Dona Helena levou duas caixas até uma pequena sala próxima à biblioteca.
"Isso é tudo o que temos aqui."
"Os relatórios digitais também?"
"Estão no computador do escritório médico."
Isabela começou a revisar os documentos por ordem de data.
Primeira semana após o acidente.
Trauma grave.
Cirurgia.
Edema.
Perda importante de força e sensibilidade.
Até ali, tudo fazia sentido.
Então chegou ao relatório de quatro semanas depois.
Havia resposta neuromuscular discreta na perna direita.
Movimento parcial de alguns grupos musculares.
Reflexos presentes.
Isabela aproximou a folha.
Era quase exatamente o que havia observado.
Virou para a semana seguinte.
Nenhuma evolução registrada.
Depois outra.
Nenhuma evolução.
Depois outra.
A frase se repetia.
"Sem alterações significativas."
Era estranho.
Muito estranho.
Mesmo quando um paciente não melhora, detalhes são registrados.
Pequenas perdas.
Ganhos mínimos.
Mudanças na dor.
Controle muscular.
Ali, nada.
Era como se, de repente, alguém tivesse parado de procurar.
Isabela pegou o telefone e fotografou algumas páginas.
Continuou.
Então encontrou a lista de medicamentos.
Analgésicos.
Relaxantes musculares.
Anti-inflamatórios.
Protetor gástrico.
Um anticoagulante no período pós-operatório.
Até que um nome chamou sua atenção.
Um medicamento sedativo de uso controlado.
Isabela franziu a testa.
A dose não era absurda isoladamente.
Mas, mantida por tempo prolongado, poderia aumentar sonolência, reduzir disposição e piorar sensação de fraqueza.
Ela verificou as datas.
O medicamento aparecia repetidamente.
Durante semanas.
Isabela pegou o prontuário e foi até o quarto de Augusto.
Ele estava sentado perto da janela, lendo alguns documentos da empresa.
"Posso perguntar uma coisa?"
"Você geralmente pergunta mesmo quando eu digo não."
"Está tomando algum medicamento para dormir?"
Augusto fechou a pasta.
"Às vezes."
"Qual?"
"Não sei."
Isabela ficou séria.
"Como não sabe?"
"Os comprimidos vêm separados. De manhã e à noite."
"Quem organiza?"
"Enfermagem. Médico. Helena às vezes."
"Você nunca perguntou o que toma?"
Augusto riu com desprezo.
"Eu tinha quatro médicos entrando neste quarto todos os dias. Supostamente eram pessoas em quem eu podia confiar."
A frase ficou no ar.
Isabela abriu o prontuário.
"Há um sedativo prescrito por semanas."
"Eu nunca pedi sedativo."
"Talvez tenha sido indicado por causa da dor ou insônia."
"Eu disse que nunca pedi."
"Isso não significa que não pudesse haver indicação."
Augusto percebeu o cuidado na voz dela.
"Você acha que isso tem relação com a minha recuperação."
"Eu acho que precisamos conferir tudo."
"Você está desconfiando de Rafael?"
Isabela não respondeu diretamente.
"Estou desconfiando dos documentos."
Augusto fechou os olhos por alguns segundos.
Quando voltou a falar, parecia mais cansado.
"Antes do acidente eu sabia quem entrava em cada prédio da minha empresa, quem assinava cada contrato, quem devia dinheiro e quem estava mentindo."
Ele olhou para as próprias pernas.
"Agora nem sei o que colocam na minha boca."
Isabela sentiu um aperto inesperado.
"Isso pode mudar."
Augusto levantou os olhos.
"Você fala como se fosse simples."
"Não é."
Ela fechou a pasta.
"Mas continuar sem perguntar também é uma escolha."
Naquela tarde, Isabela encontrou Dona Helena organizando flores na sala de jantar.
"Posso fazer uma pergunta pessoal?"
"Depende."
"Quem Augusto realmente confiava antes do acidente?"
Dona Helena interrompeu o movimento das mãos.
"Pouca gente."
"Quem?"
A mulher olhou em direção ao corredor antes de responder.
"Dr. Rafael cuidava da família havia anos. Bruno Siqueira, chefe da segurança. Sofia Braga, do jurídico."
Ela hesitou.
"E o irmão."
"Ricardo?"
Dona Helena assentiu.
"Antes do acidente, o senhor Augusto confiava em poucas pessoas."
Seu olhar ficou grave.
"Depois do acidente, essas poucas pessoas passaram a controlar praticamente tudo ao redor dele."
Isabela sentiu um arrepio.
"Você acha que existe alguma coisa errada?"
Dona Helena voltou a mexer nas flores.
"Eu trabalho nesta família há tempo suficiente para saber que suspeitas podem ser mais perigosas que certezas."
"Isso não respondeu."
"Foi a única resposta que posso dar."
No começo da noite, Isabela decidiu fazer algo simples.
Comparar a prescrição médica atual com os comprimidos que Augusto realmente recebia.
Dona Helena indicou o pequeno armário onde eram separados os medicamentos da semana.
Isabela colocou a folha impressa sobre a bancada.
Um por um.
Tudo correspondia.
Até chegar ao compartimento noturno.
Havia um comprimido pequeno, claro, sem identificação visível.
Ela pegou a embalagem.
Procurou na prescrição.
Nada.
Conferiu novamente.
O medicamento não estava listado.
Seu coração acelerou.
Isabela colocou o comprimido na palma da mão.
"Isso não deveria estar aqui."
"Eu não mexeria nisso se fosse você."
A voz masculina surgiu atrás dela.
Isabela se virou devagar.
Um homem alto, de terno escuro, estava parado na porta.
Tinha os mesmos olhos frios de Augusto.
Mas o sorriso era completamente diferente.
Calmo demais.
Educado demais.
Perigoso demais.
Ele entrou na sala e fechou a porta atrás de si.
"Você deve ser a nova fisioterapeuta."
Isabela fechou os dedos ao redor do comprimido.
"Quem é você?"
O homem estendeu a mão.
"Ricardo Montenegro."
Fez uma breve pausa.
"Sou irmão do Augusto."
Os olhos dele desceram lentamente até a mão fechada de Isabela.
Depois voltaram ao rosto dela.
"E acho que você acabou de encontrar uma coisa que não deveria ter encontrado."
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