"O Segredo Dentro Do Ouvido De Mafia Boss" Capítulo 1
Mariana Oliveira aprendeu cedo que, quando o dinheiro acaba, até as escolhas mais absurdas começam a parecer razoáveis.
Aos vinte e nove anos, ela morava com o filho de três anos em um apartamento pequeno na Vila Mariana, em São Paulo, onde cada boleto pago era uma vitória e cada imprevisto parecia uma ameaça.
Naquela sexta-feira, o imprevisto chegou às quatro e vinte da tarde.
O celular tocou enquanto Mariana separava o uniforme preto que usaria no trabalho.
Era Sônia, a vizinha que cuidava de Gabriel sempre que Mariana precisava trabalhar à noite.
"Mariana, me desculpa. Estou com febre. Não vou conseguir ficar com ele hoje."
Mariana fechou os olhos.
"Tem certeza de que não consegue nem por algumas horas?"
"Eu mal consigo levantar da cama."
Mariana olhou para Gabriel.
O menino estava sentado no chão da sala, empurrando um carrinho vermelho entre duas caixas de papelão.
"Entendi. Melhoras, Sônia."
Ela desligou devagar.
O turno começaria às sete.
E não era um turno comum.
Naquela noite, a Mansão Montenegro receberia empresários, políticos, artistas e algumas das famílias mais ricas de São Paulo para um jantar beneficente.
Faltar significava perder muito mais do que a diária.
Victor Ferraz, responsável pela administração da casa, já havia deixado claro que qualquer funcionário ausente durante eventos importantes seria substituído.
Mariana não podia ser substituída.
O aluguel estava atrasado.
A conta de luz venceria na semana seguinte.
Na geladeira, havia comida suficiente para talvez quatro dias.
Ela tentou ligar para duas amigas.
Nenhuma podia ficar com Gabriel.
Tentou uma creche noturna.
O preço seria quase o valor que receberia trabalhando.
Gabriel percebeu a inquietação da mãe e se aproximou.
"Mamãe, você está triste?"
Mariana se abaixou e ajeitou os cabelos dele.
"Não, meu amor."
"Você faz essa cara quando está triste."
Mariana sorriu apesar do aperto no peito.
"Então a mamãe precisa aprender a esconder melhor."
Uma hora depois, tomou a decisão que sabia que poderia lhe custar o emprego.
Colocou lápis de cor, biscoitos, suco, um livrinho e o carrinho vermelho dentro da mochila de Gabriel.
"Hoje você vai comigo."
Os olhos do menino se iluminaram.
"Na casa grande?"
"Na casa muito grande."
"Eu posso correr?"
"Não."
"Posso gritar?"
"Não."
"Posso mexer nas coisas?"
"Nem pensar."
Gabriel ficou sério.
"Então o que eu posso fazer?"
"Ficar quietinho."
Ele levantou um dedo.
"Quietinho igual gato?"
Mariana beijou sua testa.
"Mais quietinho que um gato."
Pouco antes das sete, os dois chegaram ao Jardim Europa.
A Mansão Montenegro ocupava quase um quarteirão inteiro, escondida atrás de muros altos, árvores impecavelmente podadas e portões de ferro vigiados por seguranças.
Na entrada principal, carros importados paravam um atrás do outro.
Mariana entrou pelo acesso dos funcionários, segurando Gabriel pela mão.
O coração batia rápido.
Ela conhecia as regras daquela casa.
E conhecia Victor Ferraz.
Se ele descobrisse uma criança escondida ali durante o evento mais importante do mês, não existiria explicação capaz de salvá-la.
Mariana levou Gabriel até uma pequena sala de apoio atrás da cozinha.
Ajoelhou-se diante dele.
"Você fica aqui até eu voltar."
Gabriel assentiu.
"Eu prometo."
"Se ouvir gente passando, não sai."
"Tá bom."
"Se sentir medo, me liga."
Gabriel levantou o celular antigo que Mariana deixava com ele para emergências.
"Eu sei."
Ela respirou fundo.
"Eu amo você."
"Também amo você, mamãe."
Durante pouco mais de uma hora, o plano funcionou.
A Mansão Montenegro se transformou em um cenário de luxo quase inacreditável.
Lustres de cristal refletiam sobre o piso de mármore.
Garçons circulavam com taças de champanhe.
Um quarteto de cordas tocava perto da escadaria enquanto convidados vestidos com roupas caríssimas conversavam sobre negócios, investimentos e política.
No centro daquele universo estava Dante Montenegro.
Aos trinta e oito anos, Dante comandava o Grupo Montenegro, um conglomerado com empresas de logística, construção, tecnologia e segurança privada.
O sobrenome dele abria portas.
E também fechava bocas.
Mariana raramente ficava perto dele.
Mas sabia tudo o que os funcionários comentavam.
Três anos antes, Dante sofrera um misterioso acidente.
Depois daquele dia, perdera completamente a audição.
Ninguém sabia explicar exatamente o que havia acontecido.
Alguns diziam que fora consequência de uma explosão.
Outros falavam em uma infecção grave.
Havia também quem jurasse que Dante havia sido vítima de uma tentativa de assassinato.
A única certeza era que ele nunca mais ouvira nada.
Dante usava leitura labial, celulares e tablets para se comunicar.
E havia uma regra que todos conheciam.
Ninguém tocava na orelha direita de Dante Montenegro.
Nem médicos sem autorização.
Nem barbeiros.
Nem empregados.
Nada.
Mariana estava servindo uma mesa próxima à escadaria quando percebeu um movimento estranho entre os convidados.
Então ouviu a voz de Victor Ferraz.
"O que é isso?"
O sangue de Mariana gelou.
Ela virou lentamente.
Gabriel estava no meio do salão.
Com o carrinho vermelho em uma mão e o livro de colorir na outra.
Victor estava parado diante dele.
Mariana sentiu o mundo desaparecer ao redor.
"Gabriel."
O menino olhou para ela.
"Mamãe."
Alguns convidados começaram a observar.
Victor também.
"Mariana Oliveira."
Ela caminhou depressa até eles.
"Senhor Victor, me desculpe."
"Quem é essa criança?"
"Meu filho."
"Eu consigo perceber."
Ele olhou para Gabriel de cima a baixo.
"Minha pergunta é por que ele está aqui."
Mariana sentiu o rosto queimar.
"A pessoa que ficaria com ele passou mal. Eu não tinha com quem deixá-lo."
Victor riu sem humor.
"Então resolveu trazer seu problema pessoal para dentro da casa da família Montenegro?"
"Ele estava escondido na área dos funcionários."
"Estava."
Victor abriu os braços, mostrando o menino no meio do salão.
"Claramente funcionou muito bem."
Algumas pessoas desviaram os olhos.
Outras continuaram assistindo.
Mariana apertou os lábios.
"Eu sinto muito."
Victor aproximou-se.
"Isto é uma mansão, não uma creche para empregados irresponsáveis."
A frase atravessou Mariana como um tapa.
Gabriel segurou a mão dela.
Victor olhou para ele.
"Terminando o evento, nós conversaremos sobre a continuidade do seu emprego."
Mariana respirou fundo para não responder.
"Sim, senhor."
Ela puxou Gabriel delicadamente.
"Vem comigo."
No corredor, o menino andou em silêncio por alguns segundos.
Depois perguntou:
"Eu fiz coisa ruim?"
Mariana parou imediatamente.
Abaixou-se diante dele.
"Não."
"Mas aquele homem ficou bravo."
"Ele fica bravo com todo mundo."
"Com você também."
Mariana engoliu o choro.
"Gabriel, olha pra mamãe."
O menino ergueu os olhos.
"Você não fez nada de errado."
Ele abraçou o pescoço dela.
Mariana o apertou contra o peito.
Precisava encontrar outro lugar.
A pequena sala atrás da cozinha já não era segura.
Victor certamente mandaria alguém verificar.
Então Mariana lembrou do jardim de inverno.
Quase ninguém passava por ali durante festas.
Ela seguiu pelo corredor lateral, abriu uma porta de vidro e entrou.
Parou imediatamente.
Dante Montenegro estava sentado sozinho perto das janelas.
A chuva caía do lado de fora.
Ele parecia cansado.
Sem assessores, seguranças ou executivos ao redor, o homem mais poderoso daquela casa parecia apenas alguém exausto demais para continuar fingindo força.
Mariana recuou.
"Vamos sair."
Gabriel, porém, soltou sua mão.
"Gabriel."
O menino caminhou em direção a Dante.
Mariana sentiu o coração disparar.
"Gabriel, volta aqui."
Dante abriu os olhos.
Viu Mariana.
Depois viu o menino.
Gabriel ficou parado ao lado da poltrona.
Observando.
Dante franziu a testa.
Mariana falou devagar, sabendo que ele poderia ler seus lábios.
"Me desculpe. Eu já estou saindo."
Gabriel não olhava para o rosto de Dante.
O menino estava fixado em sua orelha direita.
Então apontou.
"Mamãe… tem um bichinho preto no ouvido dele."
Mariana sentiu as pernas enfraquecerem.
"Gabriel, chega."
Dante continuava olhando para a boca do menino.
Ele tinha entendido.
Gabriel aproximou o rosto.
"Está lá dentro."
Dante ficou imóvel.
Pela primeira vez, Mariana viu medo nos olhos daquele homem.
"Gabriel."
Mariana segurou o braço do filho.
Mas o menino foi mais rápido.
Esticou os dedos.
Dante tentou se afastar.
Tarde demais.
Gabriel pinçou alguma coisa dentro da orelha dele.
E puxou.
Um pequeno objeto preto caiu na palma de sua mão.
Era minúsculo.
Metálico.
Tinha pequenos pontos prateados nas laterais.
Ninguém se mexeu.
Então Dante arregalou os olhos.
Um som atravessou sua cabeça.
A chuva.
Ele ouviu a chuva.
Dante levantou-se bruscamente.
Mariana deu um passo para trás.
Ele ouviu o salto dela tocar o piso.
Ouviu Gabriel respirando.
Ouviu sua própria respiração.
Levou a mão à orelha.
Abriu a boca.
A própria voz saiu rouca, enferrujada pelo tempo.
"Eu…"
Dante parou.
Ouviu a si mesmo.
Os olhos se encheram de choque.
"Eu… consigo ouvir."
Gabriel sorriu.
"Eu tirei o bichinho."
Dante olhou para ele.
Depois para a pequena peça metálica em sua mão.
Então um ruído veio da entrada do jardim de inverno.
Passos.
Dante ouviu.
Virou-se.
Victor Ferraz estava parado na porta.
O rosto dele havia perdido toda a cor.
Seus olhos estavam presos ao objeto na mão de Gabriel.
Dante percebeu.
Estendeu a mão.
Gabriel colocou a pequena peça na palma dele.
Dante ficou alguns segundos encarando aquilo.
Três anos sem ouvir.
Três anos de médicos.
Três anos aceitando que talvez nunca recuperasse a audição.
E uma criança de três anos acabara de retirar uma peça metálica de dentro da sua orelha.
Victor tentou falar.
"Senhor Dante, isso pode ser apenas..."
Dante ergueu os olhos.
Pela primeira vez em três anos, ouviu a voz de Victor.
E alguma coisa naquela voz o incomodou.
Victor deu um passo para trás.
Dante percebeu.
Os seguranças apareceram no corredor.
Ele não desviou os olhos de Victor.
"Fechem as portas."
Victor congelou.
Mariana apertou Gabriel contra si.
Dante caminhou lentamente até Victor, segurando o pequeno dispositivo entre os dedos.
A voz dele já não tremia.
Estava baixa.
Fria.
"Há três anos, você foi a última pessoa a entrar no meu quarto antes de eu acordar surdo."
Victor parou de respirar.
Dante abriu a mão.
O metal negro brilhou sob a luz.
"Então me diga, Victor..."
Ele se aproximou mais um passo.
"O que exatamente meu sobrinho acabou de tirar da minha orelha?"
Victor olhou para Gabriel.
Não para Dante.
Não para os seguranças.
Para Gabriel.
E, pela primeira vez naquela noite, Mariana viu algo muito pior do que arrogância nos olhos daquele homem.
Viu medo.
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