"O Segredo Que Minha Filha Guardou" Parte 2
Henrique Vasconcelos ficou parado no meio da sala, segurando aquele pequeno telefone antigo como se estivesse segurando uma parte da própria Helena.
Por dez meses, ele tentou aceitar a ausência da esposa.
Tentou entender como uma viagem comum poderia terminar em uma ligação da polícia, em um hospital, em médicos dizendo que não havia mais nada a fazer.
Tentou convencer a si mesmo de que o acidente tinha sido apenas uma tragédia.
Mas agora, naquele momento, tudo parecia diferente.
Helena tinha deixado uma mensagem.
Ela sabia que algo estava errado.
E, pior ainda, ela confiou um segredo à própria filha.
Henrique olhou para Sofia.
A menina permanecia abraçada ao próprio corpo, observando o pai com medo.
Não era medo dele.
Era medo do que poderia acontecer depois que a verdade viesse à tona.
Ele se aproximou lentamente.
"Sofia, há quanto tempo você está com esse telefone?"
A menina abaixou o olhar.
"Desde antes da mamãe morrer."
A resposta fez Henrique sentir um aperto no peito.
"Por que você nunca me contou?"
Sofia ficou em silêncio.
Seus olhos começaram a encher de lágrimas.
Henrique respirou fundo e tentou controlar a emoção.
Ele não queria pressioná-la.
Não queria que ela sentisse que estava sendo interrogada.
Ele era o pai dela.
Não mais uma pessoa perguntando sobre um segredo que ela carregava sozinha.
"Sofia, você não precisa ter medo de mim. Eu só quero entender."
A menina apertou os dedos.
"Eu queria contar."
"Então por que não contou?"
Ela olhou rapidamente para a porta da sala.
O mesmo olhar de medo que Henrique havia visto antes voltou.
"Porque ela disse que eu não podia."
Henrique sentiu seu corpo ficar rígido.
"Quem disse isso?"
Sofia demorou alguns segundos para responder.
Então falou baixo:
"Patrícia."
O nome saiu da boca da menina como se fosse algo perigoso.
Henrique fechou os olhos por um instante.
Ele conhecia Patrícia há muitos anos.
Ela frequentava sua casa antes mesmo de Sofia nascer.
Era amiga de Helena.
Estava presente nos aniversários.
Nas reuniões familiares.
Nas viagens.
Quando Helena morreu, Patrícia foi uma das primeiras pessoas a aparecer na mansão.
Ela abraçou Sofia.
Disse que ajudaria a cuidar dela.
Henrique acreditou.
Porque Helena acreditava nela.
E agora sua filha estava dizendo que aquela mesma mulher a ameaçou.
Ele voltou a olhar para o telefone.
A gravação ainda estava aberta.
A voz de Helena tinha sido interrompida exatamente no momento em que ela revelou que não tinha conseguido sobreviver.
Henrique procurou outros arquivos.
Havia dezenas.
Alguns tinham datas.
Outros não tinham nome.
Todos registrados nos últimos dias de vida de Helena.
Ele abriu o segundo áudio.
Por alguns segundos, apenas sons de fundo apareceram.
Depois, a voz de Helena surgiu novamente.
Mais baixa.
Mais preocupada.
"Henrique, eu não sei em quem confiar."
Ele sentiu o coração acelerar.
Aquela não era a voz da mulher que ele conhecia nas fotos.
Era a voz de alguém com medo.
Helena continuou:
"Eu descobri movimentações estranhas dentro da empresa. Existem transferências que foram feitas usando minha assinatura."
Henrique ficou imóvel.
A empresa.
A Vasconcelos Participações.
O império que ele e Helena construíram juntos.
Ele olhou para Sofia.
A menina observava cada reação do pai.
Como se estivesse esperando o momento em que ele descobriria tudo.
No áudio, Helena respirou profundamente.
"Eu revisei alguns documentos e encontrei valores que desapareceram sem autorização."
Henrique apertou o telefone.
Durante meses, ele acreditou que a morte de Helena tinha sido o único golpe que sua família sofreu.
Mas agora descobria que, antes de morrer, ela estava lutando contra alguém.
Alguém próximo.
Alguém dentro da própria empresa.
A gravação continuou.
"Eu ainda não tenho todas as provas, mas encontrei uma ligação com uma pessoa que nunca imaginei suspeitar."
Henrique sentiu um arrepio.
Ele conhecia aquela sensação.
Era a sensação de perceber que toda a sua vida poderia ter sido construída sobre uma mentira.
Então Helena disse:
"Patrícia Montenegro."
O nome ecoou pela sala.
Henrique afastou o telefone do ouvido.
Por alguns segundos, ele simplesmente não conseguiu reagir.
Patrícia.
A mulher que estava naquela casa.
A mulher que cuidava da filha dele.
A mulher que Helena chamava de amiga.
Ele olhou para ela.
Patrícia estava parada perto da janela.
O rosto dela estava pálido.
Ela tinha ouvido.
Henrique percebeu.
Ela sabia exatamente do que aquela gravação falava.
"Você sabia."
A voz dele saiu baixa.
Patrícia tentou responder.
"Henrique, você está entendendo tudo errado."
Ele levantou a mão.
"Não."
O olhar dele ficou frio.
"Eu ouvi a voz da minha esposa dizendo seu nome."
Patrícia deu um passo à frente.
"Helena estava confusa. Ela estava passando por muita pressão."
Henrique riu sem humor.
"Minha esposa morreu há dez meses e você nunca mencionou que ela suspeitava de alguém."
"Porque eu achei que fosse apenas uma paranoia."
"Paranoia?"
A palavra saiu carregada de revolta.
"Ela morreu, Patrícia."
O silêncio tomou conta da sala.
Sofia começou a chorar novamente.
Henrique percebeu.
Ele se virou imediatamente para a filha.
A raiva continuava dentro dele.
Mas Sofia era mais importante.
Ele se aproximou e a abraçou.
"Está tudo bem."
A menina balançou a cabeça.
"Não está."
Henrique ficou em silêncio.
Sofia segurou a camisa dele.
"Eu queria contar para você no dia que aconteceu."
"O que aconteceu naquele dia?"
Ela respirou com dificuldade.
"Depois que mamãe morreu, Patrícia pegou o telefone."
Henrique olhou para ela.
"O quê?"
"Ela procurou nas minhas coisas."
A voz de Sofia tremia.
"Ela encontrou o telefone, mas eu consegui esconder antes."
Henrique sentiu uma mistura de tristeza e culpa.
Sua filha de nove anos estava escondendo provas enquanto ele acreditava que ela apenas estava sofrendo pela perda da mãe.
"Sofia, por que você guardou isso?"
A menina respondeu:
"Porque era da mamãe."
Uma lágrima caiu no rosto dela.
"E porque ela pediu."
Henrique fechou os olhos.
Helena conhecia a filha.
Sabia que Sofia guardaria aquele segredo.
Mas também sabia que um dia alguém precisaria descobrir.
Ele voltou ao telefone.
Havia mais arquivos.
Mais gravações.
Mais respostas.
Mas também mais perguntas.
Ele abriu outro áudio.
A voz de Helena apareceu novamente.
Dessa vez, mais séria.
"Se você encontrou este arquivo, significa que alguma coisa aconteceu comigo."
Henrique ficou completamente imóvel.
Patrícia começou a andar lentamente para trás.
Helena continuou:
"Eu preciso que você saiba que não foi apenas dinheiro. Existe algo muito maior acontecendo dentro da empresa."
Henrique olhou para Patrícia.
Ela desviou o olhar.
Pela primeira vez, ele viu aquela mulher sem a máscara de amiga.
Ele viu alguém que estava escondendo algo.
A gravação continuou por mais alguns segundos.
Então Helena disse uma frase que fez Henrique sentir o sangue gelar.
"Patrícia sabe que eu descobri tudo..."
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