"O Preço da Rendição" Capítulo 4
Capítulo 04: O Fio da Navalha
O bilhete de caligrafia firme deixado sobre a escrivaninha ainda queimava na mente de Helena como um selo de ferro em brasa.
Ela sabia que o jogo de Lorenzo não se limitava às quatro paredes de um escritório ou à escuridão de uma cobertura na alta madrugada.
O verdadeiro suplício daquela noite exigia que ela vestisse a armadura mais elegante e perigosa de sua vida para enfrentar a alta sociedade paulistana.
O salão de baile do hotel mais luxuoso dos Jardins brilhava com lustres de cristal baccarat e o tilintar abafado de taças de champanhe francês.
Helena desceu do carro blindado ao lado de Lorenzo, desfilando com um vestido longo de crepe preto que abraçava cada curva de seu corpo com insolência.
A fenda profunda na lateral da saia revelava a linha esbelta de suas pernas a cada passo, fazendo com que dezenas de olhares masculinos famintos caíssem sobre ela.
Lorenzo caminhava logo ao lado, ostentando um smoking de grife perfeitamente cortado que realçava a imponência de seus ombros largos e sua postura predatória.
"Lembre-se do seu papel esta noite, senhorita Silva", ele murmurou com a voz rouca perto de seu ouvido, roçando os dedos com possessividade em sua cintura.
"Eu conheço bem o meu papel, senhor Valeri", Helena retrucou sem desviar os olhos da multidão elegante, mantendo o sorriso gélido colado aos lábios. "Apenas finjo ser sua, enquanto por dentro conto os minutos para me afastar de você."
"Você já é minha, quer admita isso em voz alta ou não", Lorenzo sibilou, a mandíbula travada enquanto observava os primeiros tubarões da elite se aproximarem.
O primeiro a interceptá-los foi Rodrigo Prado, o herdeiro de trinta e cinco anos da construtora rival que outrora disputava contratos bilionários com o império de seu pai.
Rodrigo trazia um sorriso presunçoso no rosto e uma taça de cristal entre os dedos, bloqueando o caminho do casal com uma familiaridade irritante.
"Helena? Por Deus, é realmente você?", Rodrigo exclamou com falsa surpresa, avaliando-a de cima a baixo com um olhar que transbordava uma intimidade descarada. "Ouvi dizer que sua família havia sumido do mapa depois da derrocada financeira."
"Como vê, Rodrigo, alguns fantasmas insistem em reaparecer nos piores lugares", Helena respondeu com um tom cortante, tentando desviar do ex-pretendente.
"Você está deslumbrante, como sempre", Rodrigo ignorou a grosseria e deu um passo à frente, estendendo a mão para tocar levemente o braço nu dela. "Se precisar de um teto ou de um trabalho de verdade longe desse predador, sabe que minhas portas estão abertas."
Aquelas palavras mal haviam terminado de ecoar quando a mão de Lorenzo fechou-se com força brutal sobre o pulso de Rodrigo, paralisando o gesto no ar.
A atmosfera ao redor do pequeno grupo congelou instantaneamente, fazendo com que alguns convidados vizinhos desviassem os olhos em silêncio.
"Tente tocar nela de novo, Prado, e eu garanto que amanhã sua construtora não terá nem papel higiênico para vender", a voz de Lorenzo saiu como um rosnado mortal.
"Calma, Valeri, estamos apenas conversando entre velhos conhecidos", Rodrigo tentou sorrir, embora o suor frio já brotasse em sua testa diante da fúria nos olhos âmbar.
"A conversa acabou", Lorenzo puxou Helena bruscamente contra o seu corpo, ignorando os protestos abafados da multidão curiosa ao redor.
Sem dar tempo para mais nenhuma palavra, o bilionário a arrastou para longe do salão principal, cruzando corredores dourados até sumir na ala de segurança.
A porta de uma sala de controle isolada bateu com um estrondo metálico quando Lorenzo a empurrou para dentro, trancando a fechadura com um giro violento.
A penumbra daquele cubículo tecnológico era iluminada apenas pelas luzes piscantes de dezenas de monitores de segurança espalhados pelas paredes.
"Você perdeu o juízo?", Helena explodiu, tentando se desvencilhar do aperto dele enquanto o peito arfava de indignação. "Fazer aquela cena na frente de toda São Paulo!"
"O único que vai tocar em você sou eu, Helena!", Lorenzo rugiu, perdendo totalmente a fachada de controle corporativo que mantinha em público.
A fúria primitiva em seus olhos transformara-se em um desejo descontrolado, uma sede insaciável que rasgava qualquer resquício de racionalidade.
Antes que ela pudesse erguer as mãos para detê-lo, Lorenzo agarrou o tecido fino de seu vestido na altura do ombro e puxou com força implacável.
O som do crepe preto rasgando-se ao meio ecoou agudamente na sala silenciosa, expondo a pele branca de seu ombro e o topo de sua lingerie de renda.
"Você enlouqueceu de vez!", Helena gritou, sentindo as lágrimas de raiva e humilhação misturarem-se à excitação febril que ameaçava trair sua mente.
"Sim, eu enlouqueci!", Lorenzo confessou com a voz quebrada pela raiva e pela paixão, colando a boca na pele exposta do pescoço dela com dentes e lábios.
O toque dele era bruto, urgente e carregado de uma possessividade tóxica que fazia o corpo de Helena tremer da cabeça aos pés contra a vontade.
Ela tentou socar o peito largo dele, mas as mãos grandes de Lorenzo prenderam seus pulsos acima da cabeça, pressionando-a contra a parede fria de metal.
O contraste entre a brutalidade daquele beijo faminto e o zumbido mecânico dos computadores ao redor transformou o momento em um delírio perigoso.
Enquanto os lábios dele desciam pelo decote rasgado, um clarão súbito cortou a penumbra através da fresta da porta de vidro que dava para o corredor externo.
O som discreto de um obturador fotográfico disparando fez com que o sangue de Helena gelasse instantaneamente nas veias.
"Lorenzo, para... tem alguém ali", ela sussurrou com os olhos arregalados de pavor, apontando trêmula para a nesga de luz da porta semiaberta.
Um fotógrafo paparazzi, escondido nas sombras do corredor VIP, acabara de registrar a cena exata daquela rendição forçada e violenta.
Lorenzo parou o movimento por um segundo, virou a cabeça lentamente na direção da porta e soltou uma risada sombria e perigosa.
"Deixe que tirem fotos", ele murmurou contra os lábios dela, recuperando o fôlego com dificuldade. "Assim o mundo inteiro saberá a quem você pertence."
"Eu nunca serei sua, Lorenzo", Helena sibilou, reunindo as últimas migalhas de orgulho que restavam em seu peito ferido.
Com um empurrão desesperado usando toda a força que restava em seus braços, ela conseguiu afastar o peito dele e recuperar o espaço vital.
Helena ajeitou os farrapos do vestido rasgado sobre o ombro com as mãos visivelmente trêmulas, erguendo o queixo com uma altivez indomável.
Ela lançou um olhar mortal para o homem que respirava ofegante no centro da sala escura, sem demonstrar nenhuma fraqueza exterior.
Sem acrescentar mais nenhuma palavra, Helena abriu a porta com um puxão firme e saiu marchando de cabeça erguida de volta para o salão de baile.
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