"Auditoria de Sangue" Capítulo 8
Capítulo 8: A Armadilha do Olhar
A sala de jantar da mansão Albuquerque estava banhada pela luz mortiça de castiçais de prata, criando um ambiente onde as sombras pareciam dançar conforme o humor gélido de Valentina.
A CEO sentou-se na cabeceira da mesa, sua postura inabalável, enquanto o silêncio era interrompido apenas pelo tilintar dos talheres de luxo contra a porcelana chinesa.
O menu da noite incluía uma carne vermelha, servida tão malpassada que as fibras ainda pareciam vibrar sob a lâmina da faca de prata da empresária.
Valentina cortou seu pedaço com uma elegância predatória, observando o sangue escorrer lentamente pelo prato branco como um rio escarlate que sinalizava o fim de um ciclo.
"Este jantar está impecável, não concorda, Murilo?", perguntou ela, sem desviar o olhar do seu prato, enquanto o marido sentia o suor frio brotar em sua espinha.
Murilo tentou responder, mas sua garganta parecia travada por um nó invisível, tornando qualquer palavra um desafio quase insuperável.
Naiara, sentada ao lado do pintor como se fosse uma convidada de honra naquele teatro de horrores, mantinha a postura dócil, embora seus dedos apertassem o tecido do vestido sob a mesa.
"A senhora é muito gentil, dona Valentina, eu apenas tentei garantir que tudo estivesse perfeito para o seu retorno", murmurou a babá, com uma voz que tentava emular inocência.
Valentina levantou o olhar, fixando seus olhos verdes — frios como o gelo do ártico — diretamente na babá, que sentiu o impacto daquele escrutínio como um golpe físico.
"A dedicação é uma qualidade rara, Naiara, e eu sempre soube recompensar aqueles que cuidam do que é meu com tanta atenção", disse a CEO, com um tom de voz que não continha um pingo de gratidão.
Ela voltou a atenção para Murilo, que parecia estar definhando diante de seus olhos, cada vez mais esmagado entre a autoridade imperial da esposa e o magnetismo doentio da amante.
"É curioso notar como a sua arte mudou nos últimos dias, querido; seus quadros estão com uma técnica inegável, mas a alma deles... parece ter se tornado muito mais mansa", provocou Valentina, com um sorriso de escárnio.
O garfo que Murilo segurava escapou de seus dedos, chocando-se contra o prato de porcelana com um ruído seco que ecoou por toda a sala de jantar.
O pintor olhou para a esposa, aterrorizado, percebendo que ela não estava apenas comentando sobre estética, mas desmontando toda a sua farsa com uma facilidade devastadora.
"Eu... eu não compreendo o que a senhora quer dizer com 'mansa', Valentina", gaguejou ele, enquanto tentava inutilmente recuperar a compostura diante daquele interrogatório disfarçado de jantar de gala.
Valentina inclinou o corpo para a frente, observando o desespero do marido com uma satisfação silenciosa e sádica.
"Significa que a sua paleta de cores perdeu o fogo, Murilo, como se alguém tivesse drenado a verdadeira essência da sua loucura criativa para preencher espaços vazios", explicou ela, cada palavra caindo como uma sentença sobre a mesa.
Naiara tentou intervir, seus olhos faíscando com uma tensão nervosa que ela não conseguia mais esconder sob a máscara de submissão.
"Talvez seja apenas o cansaço do seu Murilo, dona Valentina, ele tem se dedicado muito ao ateliê ultimamente", arriscou a babá, tentando desviar a atenção daquela conversa que parecia um campo minado.
Valentina soltou uma risada curta e seca, uma nota de escárnio que pareceu congelar o ar ao redor deles.
"O cansaço é uma desculpa para os fracos, Naiara, e eu nunca tolero fraqueza em minha casa ou em meus projetos", respondeu a CEO, mantendo o olhar fixo na babá.
Ela tirou da bolsa um cartão de visita dourado, de uma clínica de estética de luxo na Suíça, e deslizou-o pela superfície da mesa até que ele parasse diante de Naiara.
"Notei algumas imperfeições na sua pele que não condizem com o padrão que eu exijo para quem circula pelos meus salões", disse Valentina, com uma frieza que cortava como vidro.
"Sugiro que cuide melhor de sua imagem, pois uma aparência desgastada é o primeiro sinal de que alguém está pronta para ser substituída."
O sangue de Naiara gelou ao entender a ameaça implícita por trás daquela sugestão de "beleza", sentindo que Valentina sabia exatamente o que acontecera no closet e no ateliê.
A babá pegou o cartão com mãos trêmulas, incapaz de articular qualquer resposta que não parecesse uma confissão de culpa diante daquela mulher.
Murilo, por sua vez, mal conseguia respirar, sentindo-se castrado psicologicamente pela força de vontade de Valentina, que parecia ter encurralado os dois sem sequer se levantar da cadeira.
A tortura psicológica não era um grito, era um banquete onde cada bocado de comida era temperado com a consciência do fim próximo.
"Dona Valentina, eu agradeço a sua preocupação, mas não acho necessário...", começou a babá, mas foi interrompida pelo gesto de mão autoritário da empresária.
"O que você acha não é relevante, Naiara, o que importa é que aqui eu comando cada detalhe, inclusive a superfície das coisas."
Valentina finalmente levou o pedaço de carne sangrenta à boca, mastigando com uma calma metódica que mantinha o pânico dos dois amantes em um nível insuportável.
Ela observou Murilo e Naiara através do reflexo de sua taça de cristal, saboreando cada momento daquela humilhação pública que servia como prelúdio para o desastre.
O relógio na parede parecia tiquetaquear em contagem regressiva, marcando os últimos momentos de tranquilidade daquela relação parasitária que Valentina pretendia estraçalhar.
Com um olhar carregado de desprezo imperial, ela fixou seus olhos verdes nos de Naiara, revelando que a máscara da babá já havia caído faz tempo.
Ela deu um sorriso frio, o escárnio estampado em seu rosto como uma marca indelével, enquanto o sangue da carne tingia seus lábios de um vermelho vibrante.
"Amanhã, quando você acordar, as coisas na mansão estarão muito diferentes, espero que esteja preparada para a mudança de estação", concluiu Valentina.
Murilo abaixou a cabeça, sentindo que o chão debaixo de seus pés estava se dissolvendo, enquanto Naiara lutava para manter a respiração sob controle.
O jantar de gala terminara, mas a armadilha do olhar havia apenas começado, deixando claro que a caçadora não estava apenas brincando com sua comida.
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