"A Herdeira Que Foi Humilhada no Altar" PARTE 9
O escritório de Ricardo Mendes ficava em um andar alto na região da Faria Lima, com paredes de vidro e uma vista fria da cidade de São Paulo. Tudo ali parecia calculado: a luz, o silêncio, a disposição dos documentos sobre a mesa.
Mas naquela noite, nada estava sob controle.
Ricardo estava sozinho, revisando novamente os arquivos do caso de Isabela Monteiro Vasconcelos.
Ele não dormia direito desde que viu os primeiros registros.
Algo não fechava.
E quanto mais ele investigava, mais perigoso aquilo ficava.
Ele abriu uma pasta marcada como “Hospital Santa Cecília — Arquivos Internos”.
Dentro dela, havia algo que não deveria existir.
Um vídeo.
Não oficial.
Não catalogado.
Sem registro público.
Ricardo hesitou por um segundo.
E deu play.
A imagem mostrou um corredor hospitalar antigo.
Data: quase vinte anos atrás.
Uma enfermeira caminhando apressada.
Um médico assinando documentos.
E uma sala fechada no final do corredor.
Ricardo aproximou o rosto da tela.
E então viu.
Um nome sendo riscado.
E outro sendo escrito por cima.
“Isabela…”
Ele franziu o cenho.
O vídeo tremia.
Alguém tinha tentado esconder aquilo.
Ele pausou.
Respirou fundo.
E voltou alguns segundos.
Agora mais devagar.
Na imagem, uma mulher aparecia rapidamente.
De costas.
Cabelo preso.
Uma postura firme demais para ser enfermeira comum.
Ricardo ampliou a imagem.
E sentiu o estômago apertar.
“Patrícia Albuquerque…”
Ele sussurrou.
Naquele momento, algo ficou claro.
Aquilo não era apenas um caso de identidade trocada.
Era um plano.
Ricardo pegou o telefone.
Ligou para um contato antigo do sistema hospitalar.
“Eu preciso dos logs completos do arquivo Santa Cecília. Agora.”
Do outro lado, silêncio.
Depois uma resposta hesitante:
“Isso não deveria estar sendo acessado.”
Ricardo respondeu firme:
“Já está sendo.”
Enquanto isso, do outro lado da cidade, Isabela estava em um apartamento simples no Brás.
Lucas estava encostado na parede, observando ela em silêncio.
Isabela segurava o documento que havia encontrado.
Suas mãos tremiam.
“Isso não pode ser real…” ela repetia.
Lucas não respondeu de imediato.
Mas seu olhar estava mais sério do que nunca.
“Ricardo não te daria isso se fosse falso.”
Isabela levantou os olhos.
“Então você acha que isso é verdade?”
Lucas hesitou.
“Eu acho que alguém construiu sua história antes mesmo de você saber andar.”
Ela levantou de repente.
“Isso é impossível!”
Mas a voz dela já não tinha força.
Ela andava de um lado para o outro.
“Eu tenho lembranças… eu tenho uma vida…”
Lucas interrompeu:
“Ou te deram lembranças.”
O silêncio caiu.
No mesmo instante, Ricardo recebeu o retorno dos logs.
E viu algo ainda pior.
Transferências de arquivos.
Acesso restrito.
Usuário autorizado.
Nome do login:
“P. Albuquerque”
Ele ficou imóvel.
“Então é isso…” ele murmurou.
Ele abriu outra pasta.
E encontrou uma sequência de relatórios médicos antigos.
Todos relacionados ao nascimento de Isabela.
Ou melhor… aos dois registros.
Dois nomes diferentes.
Dois destinos sobrepostos.
Uma única criança.
Ricardo levantou da cadeira.
Pegou o casaco.
E saiu do escritório sem avisar ninguém.
Enquanto isso, Isabela e Lucas estavam sentados na cama do pequeno apartamento.
A televisão estava desligada.
O silêncio era pesado.
Isabela falou baixo:
“Se isso for verdade… então minha vida nunca foi minha.”
Lucas respondeu:
“Ou alguém tentou fazer ela parecer outra coisa.”
Ela olhou para ele.
“Por quê fariam isso comigo?”
Lucas não respondeu imediatamente.
E depois disse algo que deixou o ar mais frio:
“Porque alguém precisava que você acreditasse que era alguém específico.”
Isabela apertou o documento contra o peito.
“Eu não entendo…”
Lucas se levantou.
“Tem mais coisa nisso. Muito mais.”
Naquela noite, o celular de Lucas vibrou.
Número desconhecido.
Ele atendeu.
Silêncio do outro lado.
Depois uma voz masculina:
“Se vocês estão com o arquivo do Santa Cecília… vocês estão em perigo.”
Lucas ficou tenso.
“Quem é você?”
A voz respondeu:
“Alguém que já tentou parar isso antes.”
Isabela ouviu da cama.
“Quem era?” ela perguntou.
Lucas olhou para o telefone.
E respondeu:
“Alguém que sabe demais.”
Do outro lado da cidade, Ricardo chegava em frente ao Hospital Santa Cecília.
O prédio estava iluminado.
Normal.
Demais.
Ele sabia que aquilo era um sinal.
E mesmo assim entrou.
Dentro da recepção, ninguém parecia esperá-lo.
Mas ele sentia o contrário.
Tudo estava esperando por ele.
Ele caminhou até o setor de arquivos antigos.
As luzes piscavam levemente.
E então viu.
Uma porta aberta.
Ricardo parou.
E disse para si mesmo:
“Eles já sabem que eu vim.”
Ele entrou.
E a porta fechou atrás dele sozinha.
E no silêncio daquele corredor vazio, algo começou a se mover dentro do sistema do hospital…
apagando lentamente todos os acessos que ele havia feito naquela noite.
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