"A Mulher Que Voltou da Morte" PARTE 11
A noite em São Paulo parecia mais pesada do que todas as anteriores.
O vento frio atravessava os corredores do Grupo Monteiro como se carregasse algo invisível, algo que ninguém conseguia nomear, mas todos sentiam.
Helena Duarte estava parada diante do espelho do pequeno quarto da pensão na Liberdade.
Mas aquela noite era diferente.
Ela não estava confusa.
Não estava perdida.
Ela estava… decidida.
Na mão dela, havia uma cópia impressa de um documento antigo que o Delegado Henrique Santana havia lhe entregado discretamente horas antes.
“Se você aparecer amanhã no hospital, tudo muda”, ele havia dito.
Helena respondeu apenas:
“Já mudou há muito tempo.”
O documento dizia:
Compatibilidade genética com a família Monteiro: 98,7%
Ela leu aquela frase mais de dez vezes.
E cada vez doía de uma forma diferente.
“Isso não é coincidência…”, ela sussurrou.
A memória voltava em fragmentos mais claros agora.
Não mais sonhos.
Não mais flashes.
Mas lembranças.
Reais.
Uma sala branca.
Um médico nervoso.
Uma assinatura forçada.
E a voz de uma mulher dizendo:
“Ela não pode voltar como Isabela.”
Helena fechou os olhos com força.
E respirou fundo.
No mesmo momento, no outro lado da cidade, o Delegado Henrique estava dentro de um carro descaracterizado estacionado próximo ao hospital Albert Einstein.
“Ela vai vir”, disse ele ao rádio.
“Tem certeza?”, perguntou o agente.
“Ela não tem mais escolha.”
Dentro do Grupo Monteiro, Rafael Vasconcelos não conseguia mais fingir normalidade.
O resultado parcial do DNA havia desaparecido novamente do sistema.
Mas ele tinha visto.
Ele sabia o que tinha visto.
E isso o destruía por dentro.
Camila Ribeiro entrou na sala dele sem bater.
“Você precisa parar com isso”, disse ela imediatamente.
Rafael não levantou os olhos.
“Parar com o quê?”
“Com essa obsessão.”
Ele finalmente olhou para ela.
“Não é obsessão. É verdade.”
Camila respirou fundo.
E sentou lentamente na cadeira em frente a ele.
“Você está emocionalmente envolvido demais.”
“Eu estou lúcido pela primeira vez”, ele respondeu.
O silêncio entre os dois ficou pesado.
Camila então mudou o tom.
“Amanhã será o anúncio oficial da nova estrutura do grupo. Você precisa estar presente.”
Rafael não respondeu.
“E Helena Duarte?”, ele perguntou de repente.
Camila não hesitou.
“Ela não é relevante.”
Mas seus olhos disseram outra coisa.
Naquela madrugada, Helena saiu da pensão sem avisar ninguém.
O vento estava mais frio.
As ruas mais vazias.
E cada passo dela parecia mais firme.
Ela caminhou até o hospital Albert Einstein.
Sem hesitar.
Sem parar.
No caminho, o Delegado Henrique observava à distância.
“Ela chegou”, disse ele no rádio.
Helena parou em frente ao hospital.
E olhou para o prédio por alguns segundos.
Não era medo.
Era reconhecimento.
Ela entrou.
No mesmo instante, Camila recebeu uma ligação.
“Ela apareceu”, disse a voz.
Camila fechou os olhos.
“Então acelerem o plano.”
Dentro do hospital, Helena caminhava pelos corredores como se já conhecesse cada passo.
E isso a assustava mais do que qualquer coisa.
O Delegado Henrique se aproximou dela discretamente.
“Você não deveria estar aqui sozinha”, disse ele.
Helena respondeu sem olhar:
“Eu não estou sozinha.”
Henrique franziu a testa.
“Você lembra de algo?”
Helena parou.
E demorou alguns segundos para responder.
“Eu lembro demais.”
No andar superior, o sistema do hospital começou a emitir alertas estranhos.
“Backup de segurança ativado”, dizia a tela.
“Alguém está acessando arquivos antigos.”
Camila estava no carro agora.
E observava tudo pelo celular.
“Não deixem ela chegar ao setor 3”, ordenou.
Helena continuava andando.
Cada vez mais rápido.
Cada vez mais certa.
Até que chegou à porta.
Setor restrito.
Arquivo central.
Ela colocou a mão na maçaneta.
E parou.
Dentro dela, uma voz antiga parecia gritar:
“Não abra.”
Mas outra resposta veio.
Mais forte.
Mais clara.
“Abra.”
Ela abriu a porta.
Luzes piscavam.
Arquivos digitais estavam sendo restaurados automaticamente.
Como se o sistema estivesse acordando junto com ela.
Henrique entrou logo atrás.
“Helena, pare!”
Mas ela não parou.
Ela caminhou até o terminal central.
E viu seu nome.
Não como Helena.
Não como Duarte.
Mas como algo que fez seu corpo congelar completamente.
No mesmo instante, Camila chegou ao perímetro externo do hospital.
E disse ao telefone:
“Agora.”
Helena colocou a mão na tela.
E tudo começou a falhar.
As imagens dos arquivos começaram a surgir sozinhas.
Vídeos.
Registros.
E uma sequência impossível.
Ela mesma.
Deitada em uma maca.
Henrique ficou imóvel.
“Isso não deveria estar acontecendo…”
Helena respirou fundo.
E deu um passo para trás.
“Eu… já estive aqui”, ela disse.
E então tudo começou a desmoronar.
As portas do hospital se fecharam automaticamente.
Sirenes internas foram ativadas.
“Bloqueio total”, dizia o sistema.
Henrique tentou acessar a saída.
Mas já era tarde.
Helena virou lentamente.
E viu dois homens entrando pelo corredor.
“Ela é a prioridade”, disse um deles.
Helena recuou um passo.
Henrique levantou a arma.
“Ninguém toca nela!”
Mas o sistema apagou todas as luzes.
Escuridão total.
E no último instante antes do silêncio completo…
Helena foi puxada para trás com força.
E a voz do Delegado ecoou no escuro:
“Helena!”
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