"A NOIVA QUE NÃO MORREU" PARTE 8
O Hospital Santa Aurora já não tinha mais a sensação de hospital.
Era como um campo de contenção.
Portas trancadas. Acesso bloqueado. Alarmes internos silenciosamente ativados. Funcionários circulando com medo de falar alto demais.
E no centro disso tudo, o caso de Isabela Monteiro Vasconcelos havia deixado de ser apenas um óbito suspeito.
Agora era uma emergência biológica fora de controle.
No necrotério, Clara Nogueira estava completamente em choque enquanto os primeiros sinais de reanimação manual começavam a surtir efeito.
O monitor portátil apitava sem parar.
Os batimentos de Isabela estavam mais fortes.
Mais organizados.
E pela primeira vez desde sua chegada ao necrotério, o padrão parecia humano.
“Respira… por favor, respira…” Clara sussurrava, tremendo.
Isabela não respondia.
Mas o peito dela subia claramente agora.
Subia… e descia.
Do outro lado da porta, passos acelerados ecoaram no corredor.
Clara congelou.
“Eles chegaram…”
A voz do lado de fora veio firme:
“ABRAM A PORTA IMEDIATAMENTE!”
Era o supervisor de segurança, Bruno Siqueira.
Clara olhou para Isabela.
Ela ainda estava instável.
Ainda entre dois estados.
Viva… mas frágil demais para qualquer interrupção.
Na sala de controle, o Dr. Eduardo Barros assistia tudo em tempo real.
Os dados do necrotério apareciam na tela principal.
E não faziam sentido.
“Isso não deveria estar acontecendo…” ele murmurou.
Um técnico ao lado tentou falar.
“Doutor… os sinais vitais estão voltando…”
Eduardo interrompeu imediatamente.
“Impossível.”
Ele se levantou.
“Interrompam qualquer procedimento no necrotério.”
“Mas senhor—”
“AGORA.”
No necrotério, Clara viu algo mudar de repente.
O monitor cardíaco disparou.
A frequência de Isabela aumentou abruptamente.
“Não… não assim…”
O corpo dela reagiu de forma violenta.
Um espasmo forte tomou conta dos braços.
Clara segurou a maca.
“Calma… calma…”
Mas Isabela entrou em um estado de instabilidade extrema.
O alarme disparou.
BIP BIP BIP BIP—
Clara entrou em pânico.
“Isso não está certo!”
Do lado de fora, a porta foi forçada.
“ABRAM AGORA!” Bruno gritou.
E então a fechadura começou a ceder.
Clara olhou para o painel.
Se abrisse agora, tudo seria interrompido.
E talvez Isabela não resistisse.
Naquele instante, Isabela parou.
O corpo ficou imóvel.
O monitor disparou uma linha contínua.
BIIIIIIIIIIII—
“Não…” Clara arregalou os olhos.
“Não, não, não!”
Ela começou compressões de emergência novamente.
“Fica comigo!”
No hospital, o sistema central registrou uma nova anomalia.
PARADA BIOLÓGICA INTERMITENTE DETECTADA
Henrique Duarte leu aquilo e ficou pálido.
“Ela parou de novo…”
Bruno Siqueira olhou para ele.
“Ou ela nunca saiu disso.”
No necrotério, Clara estava desesperada.
“Você não pode morrer agora… não agora!”
Ela aplicava compressões com força.
E então… algo aconteceu.
O monitor mudou.
Bip… bip… bip…
Fraco.
Mas voltou.
Clara quase caiu no chão de alívio.
“Você voltou…”
A porta foi finalmente aberta com força.
Bruno entrou com dois seguranças.
“AFASTE-SE DA MACA!”
Clara gritou:
“NÃO! VOCÊ VAI MATÁ-LA!”
Bruno avançou.
“Ordem da direção.”
Clara ficou entre ele e Isabela.
“Ela está viva!”
“Ela está em protocolo de óbito!” ele respondeu.
“Não mais!”
Silêncio.
O monitor continuava instável.
Mas presente.
Vivo.
Bruno hesitou por um segundo.
E isso foi o suficiente para Eduardo Barros aparecer na porta.
O olhar dele era frio.
“Saia da frente.”
Clara recuou instintivamente.
Mas não saiu.
“Ela está reagindo!”
Eduardo entrou lentamente.
Observou a maca.
Observou os dados.
E então falou em voz baixa:
“Isso não é vida completa.”
Clara respondeu:
“Mas também não é morte.”
Eduardo se aproximou do monitor.
Os sinais estavam caóticos.
Mas reais.
Ele fechou os olhos por um segundo.
E então disse:
“Isso não pode continuar aqui.”
Clara se desesperou.
“O que o senhor quer dizer com isso?”
Ele não respondeu imediatamente.
Apenas virou para os seguranças.
“Levem o corpo para isolamento clínico.”
Clara entrou em choque.
“Isolamento? Ela está viva!”
Eduardo a encarou.
“E isso é exatamente o problema.”
Enquanto os seguranças se aproximavam da maca, Isabela começou a reagir novamente.
Desta vez, de forma mais intensa.
O corpo dela se mexeu.
Os dedos se fecharam.
E então… os olhos se abriram por uma fração de segundo.
Clara viu.
“Ela acordou!”
Mas no mesmo instante, o monitor disparou de novo.
BIIIIIIII—
Parada.
Outra vez.
Clara gritou.
“Ela não pode ser interrompida!”
Eduardo levantou a mão.
“Executem o isolamento.”
Os seguranças puxaram a maca.
Clara tentou impedir.
“PAREM!”
Mas foi segurada.
Isabela estava sendo levada.
E naquele momento crítico, o monitor portátil de Clara registrou uma última mudança antes de ser desconectado.
Uma linha estranha.
Um código de substância residual.
Clara viu aquilo e congelou.
“Isso… isso não é doença…”
Ela leu novamente, tremendo.
“Isso é droga…”
No corredor, enquanto a maca era levada sob escolta, Clara gritou:
“ELA FOI ENVENENADA!”
Eduardo parou.
Lentamente.
E virou o rosto.
“Repita.”
Clara, com a voz quebrando, apontou para os dados que ainda apareciam no visor:
“Isso não foi morte natural… foi induzido.”
Silêncio total.
E então o sistema central do hospital enviou automaticamente a análise final da substância detectada.
A tela piscou em vermelho.
E revelou algo que fez todos na sala congelarem.
A origem da substância não era externa.
Era interna.
E o registro apontava diretamente para o nível mais alto da hierarquia médica do Hospital Santa Aurora.
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