"A Herdeira Perdida do Império de Santa Aurora" Capítulo 5
O silêncio dentro do
Palácio Imperial de Santa Aurora
havia mudado de natureza.
Antes era silêncio de choque.
Agora era silêncio de cálculo.
Todos observavam tudo, mas ninguém confiava em ninguém.
E no centro desse colapso invisível estava
Princesa Evelina Vasconcelos
.
Ela já não caminhava com a mesma firmeza.
Já não sustentava o olhar dos nobres.
E, pela primeira vez na vida, parecia menor dentro do próprio palácio.
A revelação da possível herdeira legítima não tinha apenas abalado o império.
Tinha abalado ela.
Evelina estava sozinha em seu aposento privado.
O quarto era luxuoso.
Cortinas pesadas de veludo vermelho.
Espelhos dourados.
Um grande retrato dela mesma ainda criança pendurado na parede.
Mas naquele momento, nada disso tinha importância.
Ela estava sentada na beira da cama, com as mãos entrelaçadas com força.
Tremendo.
—“Isso não pode estar acontecendo…” — ela murmurou para si mesma.
A respiração estava irregular.
O olhar fixo no chão.
Mas sua mente não estava vazia.
Estava cheia demais.
Memórias.
Fragmentos.
Sussurros que ela tinha ouvido anos atrás.
Quando ainda era adolescente.
Quando ainda acreditava que tudo era estável.
Ela lembrava de um corredor escuro do palácio.
De duas figuras conversando em voz baixa.
Uma delas era sua mãe.
A
Duquesa Helena Albuquerque
.
A outra era um conselheiro real.
—“A criança não pode sobreviver…” — dizia a voz masculina.
E a resposta da duquesa:
—“Se ela sobreviver, nada do que planejamos vai importar.”
Evelina naquela época não tinha entendido.
Achou que era apenas política.
Coisas de adultos.
Mas agora…
Agora fazia sentido demais.
E isso a aterrorizava.
Ela levantou-se de repente.
Começou a andar pelo quarto de um lado para o outro.
—“Não… não… isso não pode ser real…” — repetia.
Mas cada vez que falava isso…
o rosto de Lívia surgia em sua mente.
Não como inimiga.
Mas como espelho.
E isso era pior.
Porque Evelina via algo que não queria admitir:
Lívia não tinha ambição.
Não tinha estratégia.
Não tinha malícia.
E mesmo assim…
todos estavam se voltando para ela.
Do lado de fora do quarto, duas damas da corte esperavam em silêncio.
Mas Evelina abriu a porta abruptamente.
—“O que vocês estão olhando?” — ela perguntou com irritação.
As duas se curvaram imediatamente.
—“Perdão, Alteza…”
Mas Evelina já tinha passado por elas.
Caminhava agora pelos corredores do palácio.
Rápida.
Mas sem direção clara.
Ela passou por retratos antigos da família real.
Reis.
Rainhas.
Herdeiros.
Legados.
Tudo aquilo que definia sua vida desde o nascimento.
Mas agora…
parecia instável.
Como se pudesse desaparecer.
Ela parou diante de uma janela alta.
Lá fora, o jardim imperial estava calmo.
O mesmo jardim onde Lívia cresceu.
A ironia disso a irritou ainda mais.
—“Uma garota do jardim…” — ela sussurrou. — “Como isso é possível…”
Mas então sua expressão mudou.
Porque a pergunta real não era “como”.
Era “por quê agora”.
Evelina fechou os olhos.
E outra memória veio.
Mais clara.
Mais perigosa.
Uma conversa ouvida atrás de uma porta semiaberta.
A voz da Rainha-Mãe.
—“Se a criança reaparecer… tudo muda.”
E a resposta do rei:
—“Então faremos com que ela não reapareça.”
Evelina abriu os olhos imediatamente.
Seu corpo gelou.
—“Não…” — ela sussurrou. — “Eles não fariam isso…”
Mas o medo não respeita lógica.
E ele já tinha entrado.
Enquanto isso, no outro lado do palácio…
Lívia estava em uma sala isolada.
Mas não parecia uma prisão.
Parecia um mundo suspenso.
Ela estava sentada perto de uma mesa de madeira clara, olhando suas próprias mãos.
Ainda sujas de terra do jardim.
Ainda reais.
Ainda dela.
A porta se abriu lentamente.
A Rainha-Mãe entrou.
Sem cerimônia.
Sem guardas.
Lívia levantou imediatamente.
—“Eu quero ir embora.” — disse ela sem hesitar. — “Isso não é minha vida.”
A Rainha-Mãe respirou fundo.
—“Eu entendo seu medo.”
Lívia balançou a cabeça.
—“Não, a senhora não entende.”
Silêncio.
A Rainha-Mãe se aproximou.
—“Eu perdi você uma vez.” — disse ela com dor. — “Não vou perder de novo.”
Lívia franziu o cenho.
—“Mas eu não sou sua neta.”
A Rainha-Mãe hesitou.
E respondeu com calma:
—“Ainda não aceitou a verdade.”
Essas palavras ecoaram em algum lugar profundo.
Mas não trouxeram conforto.
Trouxeram confusão.
Lívia deu um passo para trás.
—“Minha mãe era Mariana Soares. Ela morreu há anos. Ela me criou no jardim. Isso é tudo que eu sei.”
A Rainha-Mãe fechou os olhos por um instante.
Como se cada palavra fosse uma ferida.
—“Mariana te salvou…” — disse ela. — “Mas não te criou do nada.”
Lívia não respondeu.
Porque não sabia mais no que acreditar.
Enquanto isso, no Conselho Imperial…
o clima havia piorado drasticamente.
Ministros discutiam em voz alta.
Duques se levantavam.
Acusações cruzadas surgiam.
—“Se ela for confirmada, isso muda a linha de sucessão!”
—“E muda contratos de poder antigos!”
—“E o equilíbrio entre as famílias!”
O rei levantou a mão.
—“Silêncio!”
Todos pararam.
Ele respirou fundo.
—“Nós não vamos decidir nada com base em medo.”
Mas o medo já estava lá.
E ninguém conseguiu fingir o contrário.
De volta ao corredor do palácio…
Evelina caminhava sozinha novamente.
Agora mais devagar.
Mais instável.
Seu orgulho estava rachando.
E isso a deixava perigosa.
Ela entrou em uma sala lateral proibida.
Uma porta antiga.
Pouco usada.
Trancada para a maioria dos membros da corte.
Mas ela tinha acesso.
Porque era parte da família.
Ou pelo menos era o que acreditava.
Dentro da sala havia arquivos antigos.
Documentos.
Registros.
Selos reais.
Ela fechou a porta rapidamente.
E começou a procurar.
Com as mãos tremendo.
—“Tem que ter algo…” — ela sussurrou. — “Alguma coisa errada nisso tudo…”
Ela puxou uma pasta antiga.
Abriu.
Leu.
E congelou.
O documento dizia:
“Registro confidencial do incidente de sucessão – Ano 18 do reinado.”
E abaixo:
“Ordem de contenção da linhagem primária.”
E uma assinatura.
Do rei.
Evelina sentiu o ar desaparecer dos pulmões.
—“Não…” — ela murmurou. — “Isso não é possível…”
Mas era.
Ela continuou lendo.
Cada linha piorando tudo.
Até que encontrou uma frase específica:
“Se a herdeira for localizada, todas as medidas devem ser avaliadas para preservar estabilidade política.”
A mão dela caiu.
O papel escorregou.
—“Eles sabiam…” — ela sussurrou.
E pela primeira vez…
o medo virou outra coisa.
Desespero.
Ela recuou até a parede.
Respirando rápido.
O coração disparado.
E então a pergunta veio, inevitável:
—“Se eles foram capazes disso…”
Ela não terminou.
Porque não precisava.
Naquele momento…
ela ouviu passos do lado de fora.
Lentos.
Pesados.
Se aproximando da porta.
E a voz de um guarda:
—“Princesa Evelina… o Conselho solicita sua presença imediata.”
Ela não respondeu.
Ficou parada.
Segurando o documento contra o peito.
Porque agora ela sabia.
Não era mais apenas sobre Lívia.
Era sobre tudo.
Sobre o império.
Sobre mentiras antigas.
E sobre quem precisava ser eliminado para que a verdade não viesse à tona.
E quando a porta começou a se abrir lentamente…
Evelina fez a única coisa que nunca tinha feito antes.
Ela não saiu.
Ela se escondeu atrás da mesa.
E começou a ler novamente…
os arquivos secretos que poderiam destruir sua própria família.
E naquele instante…
ela deixou de ser apenas uma princesa.
E se tornou alguém que sabia demais.
E isso mudaria tudo.
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