"Ela Comprou um Mendigo... e Ele Era Bilionário" Capítulo 4 — Primeiro Perigo
A manhã chegou cedo, mas não havia calma na casa de Dona Lourdes. O cheiro de café ainda se misturava ao aroma úmido da chuva da noite anterior.
Pedrinho já estava na janela, espiando a rua estreita e cheia de poças, enquanto Mariana se preparava para mais um dia de trabalho na barraca de doces.
Leo, recém-despertado, se espreguiçou no colchão simples, sentindo cada músculo dolorido. A febre havia diminuído, mas a exaustão e os hematomas ainda lembravam da noite passada.
Ele olhou ao redor e sentiu algo estranho: a ausência de seus pertences. Sem celular, sem carteira, sem documentos. Cada item que carregava em sua vida anterior desaparecido.
— “Onde estou?” — murmurou, a voz fraca, ainda sem conseguir se mover direito.
Ele se apoiou na parede e saiu do quarto, cauteloso.
A rua ainda estava silenciosa, exceto por sons familiares da favela: uma moto roncando à distância, crianças correndo entre as poças, uma mulher gritando com o marido na calçada.
Leo olhou para cada detalhe, absorvendo cada cor, cheiro e som. Pela primeira vez, vivenciava a Favela de Paraisópolis sob a luz do dia. A realidade era crua, intensa e caótica.
Leo sentiu uma mistura de medo e curiosidade. A adrenalina do perigo ainda corria em seu corpo.
Ele precisava entender: quem realmente sabia que ele estava ali? A consciência de vulnerabilidade apertou o peito. Ele deu um passo cauteloso para fora, mantendo os olhos atentos a cada movimento nas vielas.
Os passos se tornaram mais rápidos, o barulho de vozes baixas surgia atrás de alguns barracos. Não eram os mesmos homens da noite anterior; algo era diferente.
Leo observou que os homens tinham um padrão, uma precisão que só poderia indicar que o alvo era específico. Seus olhos se estreitaram: não se tratava de um simples assalto.
— “Preciso ver o que eles estão fazendo ”— murmurou para si mesmo, sem hesitar.
Leo avançou pela rua, tentando se aproximar de uma esquina para observar melhor, mas o terreno irregular e a febre ainda o deixavam instável.
Cada poça, cada sacola de lixo, cada caixa de madeira poderia escondê-los, e ele sentiu a necessidade de se mover silenciosamente.
Enquanto isso, Pedrinho, que percebeu a ausência do “mendigo bonito”, correu de volta para avisar Mariana.
— “Marianaaa! ”— gritou, ofegante. —“ Ele saiu!”
Mariana franziu o cenho, o coração acelerado. — Não, não vai acontecer nada. Vou atrás dele agora.
Ela pegou a capa de chuva e correu pelas ruas, desviando de barracos e poças. Encontrou Leo próximo a um beco, tentando se esconder atrás de uma pilha de caixas.
— “Você tá maluco? ”— gritou Mariana, aproximando-se rapidamente. — “Não consegue nem andar direito e já quer sair correndo sozinho!”
— Eu preciso descobrir quem são eles — respondeu Leo, olhando ao redor, atento, os olhos brilhando de determinação.
Mariana respirou fundo, segurando seu braço com firmeza. — “Descobrir? Você acha que vai conseguir sozinho? Está fraco, machucado, febril!”
Leo hesitou, sentindo pela primeira vez a vulnerabilidade real. Um frio percorreu sua espinha. Ele percebeu que, sem ajuda, não sobreviveria a essa situação.
— “Eu… confio em você, então ”— murmurou baixinho, mais para si mesmo do que para Mariana.
Ela o olhou nos olhos, ainda com uma mistura de tensão e autoridade. — “Então fica comigo. Não vou deixar você se machucar. Nem agora, nem antes que tudo esteja seguro.”
Pedrinho, escondido atrás de um barraco, bateu palminhas discretamente. — “Vocês são engraçados juntos.”
Mariana resmungou: — “Shhh! Agora não é hora de brincar!”
O som dos passos se afastava lentamente, mas a tensão não desapareceu. Leo se encostou na parede, sentindo o corpo pesado, e percebeu algo inesperado: podia confiar nela. Parcialmente, mas podia.
— “Por que você se importa tanto? ”— pensou ele, silenciosamente.
Mariana não respondeu de imediato. Apenas segurou firme seu braço e, com um sorriso rápido, comentou:
—“ Porque ninguém apareceu quando eu precisei.”
Leo ficou em silêncio, assimilando a frase. Pela primeira vez, alguém realmente se importava com ele, sem perguntas, sem julgamentos.
Enquanto o sol iluminava a favela, Leo percebeu que aquela manhã não era apenas o início de mais um dia. Era o começo de algo maior. Algo que mudaria a forma como ele via o mundo e as pessoas ao seu redor.
E, mesmo sem saber o que viria depois, ele se permitiu confiar, por enquanto, na garota que o havia resgatado do perigo.
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