"Onde a Neve Nunca Derrete" Capítulo 17
Arthur bufou friamente: "Pelo menos ele serviu para alguma coisa."
No quarto, Alice estava sentada sozinha.
Lá fora, o crepúsculo caía e o contorno das montanhas distantes tornava-se borrado.
Ela lembrou-se do último olhar de Diego, do sangue em seu abdômen, de como ele gritara para que ela corresse.
Em seu coração, não havia comoção, nem ondas; apenas uma desolação entorpecida e uma pontada de... uma ironia indescritível.
Proteger com a própria vida?
Mas, no momento em que ela mais precisou que ele acreditasse nela, que ele a protegesse, onde ele estava?
Uma proteção tardia é mais desprezível que o capim.
Ela deu um gole na água quente; o fluxo morno desceu pela garganta, dissipando um pouco do frio.
Que seja assim.
Ela pousou a xícara e olhou para a noite densa lá fora.
O dia estava prestes a escurecer.
Mas amanhã, o sol nasceria como de costume.
Diego ficou na sala de cirurgia por seis horas.
Quando o médico saiu, disse a Arthur e Gustavo, que aguardavam do lado de fora, que a facada fora extremamente profunda, a milímetros do coração, pulmões e grandes vasos sanguíneos. Um pouco mais para o lado e ele teria morrido no local.
"— Foi um bloqueio totalmente suicida." O médico comentou por fim, impressionado.
O rosto de Arthur estava sombrio, enquanto Gustavo acenou em silêncio e agradeceu.
Diego foi transferido para a Unidade de Terapia Intensiva, permanecendo inconsciente por três dias.
Durante esses três dias, Alice esteve muito quieta.
Ela fazia a reabilitação no horário certo, comia no horário certo, descansava no horário certo. Era como se aquele ataque aterrorizante e aquela pessoa caída em uma poça de sangue fossem apenas um pesadelo distante que nada tinha a ver com ela.
Mas apenas Gustavo notou que, ocasionalmente, ela ficava olhando para o vazio em algum lugar do lado de fora da janela, com o olhar sem foco.
À noite, a frequência com que ela acordava assustada aumentou. Embora não gritasse mais como no início, ela sempre ficava de olhos abertos, olhando silenciosamente para o teto até o amanhecer.
Na tarde do terceiro dia, o médico informou que Diego estava temporariamente fora de perigo e fora transferido para um quarto comum. Ele já acordara, mas seu corpo estava extremamente fraco.
Alice parou no corredor do lado de fora do quarto. Através do vidro, observou aquela pessoa cheia de tubos, com o rosto pálido como papel.
Ele emagrecera muito; as bochechas encovadas faziam suas feições parecerem mais proeminentes, exalando uma aura pesada de morte.
Apenas aqueles olhos, ao vê-la aparecer na porta, brilharam subitamente, como uma fagulha saltando das cinzas, antes de escurecerem novamente pela dor física.
Gustavo estava posicionado a um passo de distância dela e perguntou baixinho: "Quer entrar?"
Alice olhou silenciosamente para o interior.
Diego parecia querer falar, mas isso provocou uma crise severa de tosse. Seu peito subia e descia, forçando a ferida no abdômen; ele franziu o cenho instantaneamente pela dor, com suor frio brotando na testa.
"— Eu estarei aqui fora." A voz de Gustavo era pacífica e estável, trazendo um poder reconfortante. "Fique o tempo que quiser."
Alice assentiu, respirou fundo e abriu a porta do quarto.
O cheiro de desinfetante misturado ao de medicamentos a atingiu.
Ela caminhava de leve; o som de seus sapatos no chão polido era quase inexistente.
O olhar de Diego a seguia o tempo todo. Naquele olhar havia emoções complexas demais: desejo, remorso, uma súplica humilde e uma dor que penetrava até a medula.
Alice caminhou até a beira do leito, pegou a jarra sobre o criado-mudo, despejou um copo de água morna, inseriu um canudo e o levou aos lábios dele.
Seus movimentos eram estáveis, poderiam até ser chamados de gentis, como se tratasse qualquer estranho que precisasse de ajuda.
Diego bebeu em pequenos goles enquanto ela segurava o copo, sem piscar enquanto olhava para o perfil dela tão próximo.
Ela estava mais magra, mais pálida, mas aquela angústia persistente entre as sobrancelhas parecia ter diminuído, substituída por uma calma gélida.
Após beber, a secura na garganta aliviou um pouco. Ele começou a falar com a voz rouca, cada palavra soando como lixa sendo esfregada:
"— Alice..."
Capítulo 26
Alice pousou o copo d'água, deu um passo atrás e retribuiu o olhar dele com calma.
"— Você me salvou," disse ela, com a voz sem oscilações. "Obrigada. As despesas médicas e todos os custos subsequentes serão responsabilidade da família Valente. Se precisar de qualquer compensação, pode pedir."
Ela fez uma pausa e, olhando para o rosto dele que empalideceu instantaneamente, continuou naquele tom direto: "Quanto ao 'sinto muito' que você sempre quis dizer..."
"— Eu aceito."
Os olhos de Diego se arregalaram e um brilho fraco e inacreditável passou por eles.
Mas as palavras seguintes de Alice apagaram completamente aquela pequena luz.
"— Mas eu não perdoo."
Quatro palavras. Claras, frias, inquestionáveis.
A luz nos olhos de Diego extinguiu-se num instante, sobrando apenas um cinza de morte absoluta.
Ele abriu a boca, parecendo querer dizer algo, mas não conseguiu emitir som algum. Apenas grandes lágrimas rolaram sem aviso de seus olhos avermelhados, escorrendo pelas têmporas e molhando o travesseiro.
Ele não tinha medo de que ela o odiasse.
Ele até desejava que ela o odiasse.
O ódio, ao menos, é uma emoção forte; prova que ela ainda se importa.
Mas ela disse que não perdoava.
Ela aceitou o pedido de desculpas, mas recusou o perdão.
Isso significava que, no coração dela, a pessoa Diego, junto com todo o dano e remorso que ele trouxe, já havia sido arquivada, carimbada com "resolvido" e guardada numa prateleira alta para nunca mais ser tocada.
Isso doía mais do que o ódio.
"— Eu não peço perdão..." Ele finalmente recuperou a voz, extremamente rouca e anasalada. "Eu sei... eu não mereço..."
Ele ofegou com dificuldade, a ferida no abdômen enviando uma dor aguda, mas ele resistiu. Seu olhar quase ganancioso desenhava as feições dela, como se quisesse gravar a imagem dela ainda mais fundo no sangue e nos ossos.
"— Eu só peço que você... fique bem." Disse ele, usando toda a força em cada palavra. "Gustavo... ele é bom para você?"
Alice assentiu, sem qualquer hesitação: "Muito bom."
Ela olhou para ele e acrescentou uma frase, com o tom ainda plano, mas que foi como uma lâmina temperada no gelo, perfurando o coração de Diego com precisão:
"— Melhor do que todos vocês foram para mim."
Diego fechou os olhos, as lágrimas fluindo com mais força.
Sim, um estranho, um recém-chegado, era mil vezes melhor para ela do que ele, que crescera com ela e vivia dizendo que a amava.
Que dignidade ele tinha para perguntar?
Alice sentiu que tudo o que precisava ser dito fora dito. Ela viera apenas para confirmar se ele viveria e para expressar que a família Valente não lhe devia favores.
Ela virou-se para sair.
"— Alice!"
Diego abriu os olhos subitamente, chamando-a com urgência. Por causa do movimento brusco, a ferida foi forçada; ele soltou um gemido abafado, o rosto ainda mais pálido.
Alice parou por um instante, mas não olhou para trás.
"— Naquele ano... no seu aniversário de dezoito anos," Diego olhou para as costas esguias dela, com a voz trêmula de remorso e esperança vã. "Você disse... que seu maior desejo era estar comigo no Golden Hall de Viena... você tocando e eu ouvindo..."
Ele respirou fundo e, quase implorando, perguntou com cautela:
"— Eu... eu ainda posso te ouvir tocar uma vez? Qualquer música... só uma vez... só uma vez..."
O quarto ficou em um silêncio assustador, restando apenas o bipe regular dos aparelhos de monitoramento.
A silhueta de Alice ficou rígida por um momento.
Muito tempo depois — tanto que Diego pensou que ela não responderia, tanto que aquela pequena e humilde esperança em seus olhos foi se apagando — ela finalmente se virou para ele.
A expressão ainda era nula, o olhar sem ondas.
"— Diego," ela chamou o nome dele com a voz baixa, mas que soou como um martelo quebrando sua última ilusão. "Minha mão está destruída."
Ela ergueu a mão direita, ainda envolta em bandagens e com formato estranho, mostrando-a para ele. O movimento foi lento, mas extremamente nítido.
"— Além disso," ela baixou a mão e olhou nos olhos dele, dizendo cada palavra com clareza absoluta:
"— Mesmo que eu pudesse tocar, eu nunca mais tocaria para você ouvir."
Dito isso, ela não hesitou mais, abriu a porta e saiu.
A porta fechou-se suavemente, separando dois mundos.
Diego permaneceu naquela posição, imóvel, como se sua alma tivesse sido arrancada subitamente.
Então, ele ergueu bruscamente a única mão que podia mover, agarrou o pijama de hospital no peito e enterrou o rosto profundamente no travesseiro. De sua garganta saíram soluços quebrados e reprimidos de uma fera encurralada; seus ombros tremiam violentamente.
Não era um choro alto, era um pranto silencioso e dilacerado vindo do fundo da alma.
Do lado de fora, Alice não parou de caminhar, indo direto ao encontro de Gustavo.
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