"Onde a Neve Nunca Derrete" Capítulo 11
A pergunta foi afiada e direta.
Arthur olhou para o jornalista sem desviar o olhar; pelo contrário, carregava um brilho de aprovação gélida, como se apreciasse a franqueza.
"— Sobre quais injustiças, creio que os envolvidos saibam melhor do que ninguém", ele respondeu secamente, varrendo novamente Bernardo e Diego com o olhar, que mal conseguiam se manter sentados. "Quanto ao pulmão..."
Ele fez uma pausa. O salão estava em silêncio absoluto.
"— A saúde e o desejo de minha irmã são a primeira e única regra. Qualquer pessoa ou coisa que tente coagir ou feri-la sob o pretexto de moralidade, laços familiares ou qualquer outro nome", a voz de Arthur esfriou bruscamente, com um aviso inquestionável, "será considerada uma provocação à família Valente. E eu sou alguém que protege muito os seus e não costuma ser muito razoável."
Dito isso, ele assentiu levemente, não olhou para mais ninguém e virou-se para sair, cercado por assistentes e guarda-costas.
O salão explodiu em burburinhos, deixando para trás Bernardo e Diego com rostos de terra.
As palavras de Arthur Valente foram equivalentes a uma declaração de guerra pública. Ele arrancou completamente o véu das famílias Rocha e Diego, pregando-os no pilar da vergonha por serem ingratos e incapazes de discernimento.
Mais importante ainda, ele deixou claro que a família Valente protegeria Alice e que jamais permitiria que ela doasse o pulmão.
Capítulo 16
A notícia voou como se tivesse asas, espalhando-se instantaneamente por todo o círculo social.
As ações das empresas Rocha e Diego despencaram na abertura do mercado no dia seguinte, em queda livre.
Parceiros comerciais ficaram em observação, bancos apressaram a cobrança de empréstimos e projetos que estavam bem encaminhados foram suspensos um após o outro.
Arthur Valente nem precisou usar táticas complexas; bastou mostrar sua atitude para que inúmeras pessoas, querendo agradar aos Valente ou aproveitar a chance de derrubar os rivais, agissem por conta própria.
Bernardo estava sobrecarregado, tendo que lidar, por um lado, com o colapso da empresa e, por outro, com o choro diário da mãe e a respiração cada vez mais fraca de Bianca no hospital.
Ele sentia-se como se estivesse sendo assado vivo, com abismos dos dois lados.
Ele precisava ver Arthur Valente, precisava negociar pessoalmente.
Após muitas idas e vindas e pagando um preço alto, ele finalmente conseguiu uma chance de "conversar privadamente" com Arthur. O encontro foi marcado na suíte presidencial do hotel onde Arthur estava hospedado.
Bernardo chegou cedo e esperou quase uma hora na sala de visitas até que Arthur aparecesse, acompanhado por assistentes e advogados.
Ele não se sentou; permaneceu de pé diante da imensa janela de vidro, observando a vista noturna da cidade, com uma silhueta imponente e fria.
"— Sr. Valente", Bernardo começou, reprimindo a ansiedade e a humilhação, com um tom de humildade sem precedentes. "Sobre o que aconteceu antes, eu fui um canalha, fui cego, eu falhei com a Alice. Eu aceito todos os erros e aceito o que o senhor quiser fazer com a minha família. Mas a Bianca... ela é minha irmã de sangue, afinal, e está realmente morrendo. Peço que tenha misericórdia e deixe a Alice... deixe a Srta. Valente salvar a vida dela. Se ela aceitar doar o pulmão, pode impor qualquer condição, a família Rocha não questionará nada."
Arthur virou-se lentamente. Suas feições pareciam ainda mais profundas e austeras sob a luz do teto. Atrás dele, dois homens que pareciam advogados já haviam ligado gravadores e aberto laptops, claramente preparados.
"— Qualquer condição?" Arthur curvou os lábios em um sorriso desprovido de calor. "O Sr. Rocha é generoso. Infelizmente, a vida da minha irmã não é objeto de troca."
"— Não foi isso que eu quis dizer!" Bernardo explicou apressadamente. "Eu quis dizer compensação! Compensação para a Alice! Pelos danos dos últimos três anos e depois... estamos dispostos a dar tudo o que temos para compensar! Só peço que leve um recado a ela, implore para que ela, em nome... em nome da convivência dos últimos vinte anos, salve a vida da Bianca. Ela tem um coração bom, com certeza não negará socorro!"
"— Coração bom?" Arthur agiu como se tivesse ouvido uma piada absurda, seu olhar tornou-se afiado como uma navalha. "Então, por ela ter um coração bom, ela deveria ser usada por vocês? Deveria ser enviada para a prisão? Deveria ter as mãos destruídas? Deveria, quando vocês precisam do pulmão dela, oferecer-se incondicionalmente? Bernardo Rocha, sua lógica é de uma sem-vergonhice espantosa."
"— Convivência dos últimos vinte anos?" Arthur deu um passo à frente, uma pressão invisível esmagando o ambiente. "Você ainda tem a audácia de mencionar isso? Quando a mandaram para a prisão, pensaram nessa convivência? Quando a viram sufocando por alergia, pensaram nisso? Quando esmagaram os dedos dela com as próprias mãos, pensaram nisso?"
Cada pergunta era como um tapa sonoro no rosto de Bernardo.
"— Eu..." Bernardo perdeu a voz, o suor frio escorrendo pela testa.
"— A vida de Bianca é uma vida, e a da minha irmã não é?" A voz de Arthur era gélida como o gelo. "A saúde dela não está boa; aquela alergia afetou sua base biológica e ela ainda está em tratamento. Você sabe o risco de uma cirurgia de transplante e as sequelas envolvidas? Quer que ela doe parte do pulmão para alguém que a incriminou repetidamente e quase a matou? Bernardo Rocha, até para sonhar deve haver um limite."
"— Não é metade do pulmão, é apenas uma parte do lobo pulmonar, a medicina moderna..." Bernardo tentou argumentar.
"— Eu não entendo de dados médicos menos do que você", Arthur o interrompeu com impaciência. "Risco é risco. Além disso, minha irmã expressou claramente que não deseja fazer isso."
Arthur olhou para o rosto instantaneamente cinzento de Bernardo, com um tom sem oscilações: "Eu não o recebi hoje para ouvir seu arrependimento ou negociar condições. Apenas para lhe dizer pessoalmente, e através de você a todos das famílias Rocha e Diego —"
Ele disse cada palavra com total clareza:
"— A vida ou morte de Bianca não tem qualquer relação com minha irmã, Alice Valente. Ela não precisa e não irá pagar pelos erros de vocês ou pela maldade daquela mulher."
"— Além disso, o processo de aquisição das operações internacionais do Grupo Rocha pelo Grupo Valente já foi iniciado. Isso é apenas o começo. Esteja avisado."
Dito isso, ele não olhou mais para Bernardo e sinalizou para o assistente: "Acompanhe o convidado."
Bernardo não soube como saiu daquele quarto ou como desceu o prédio.
As palavras de Arthur foram como a sentença mais fria, cortando todas as suas esperanças.
Apelos, pressões, súplicas ou ameaças; diante do poder absoluto e da atitude implacável, tudo era inútil.
Ele parou na rua movimentada, olhando para as luzes de neon, sentindo pela primeira vez uma impotência e um desespero gigantescos.
Enquanto isso, Diego, após o impacto da verdade e o aviso público de Arthur Valente, caiu em outro tipo de loucura.
Ele não conseguia aceitar que Alice simplesmente desaparecesse de sua vida. Usou todas as suas conexões privadas, como o mais obsessivo dos investigadores, rastreando qualquer pista mínima que pudesse levar a ela.
Finalmente, uma pista secreta apontou para a Suíça.
Capítulo 17
A família Valente possuía ali uma propriedade de convalescença pouco conhecida, com um ambiente excelente, especializada em recuperação pós-operatória e intervenção psicológica pós-traumática.
Diego não hesitou; comprou imediatamente o voo mais próximo para Zurique.
Ele não tinha o endereço exato, então só podia perguntar em cada hotel e procurar em cada quarteirão daquela área de repouso.
Ele carregava fotos antigas de Alice, gesticulando e tentando se comunicar com os habitantes locais em um inglês precário.
Ao entardecer do terceiro dia, quando estava prestes a desistir, em uma trilha silenciosa à beira do lago, ele viu a silhueta com a qual sonhava todas as noites.
O pôr do sol tingia as águas do lago de um vermelho dourado.
Alice estava sentada em uma cadeira de rodas, coberta por uma manta macia.
Ela estava mais magra do que quando partira, com as bochechas levemente cavadas, o que fazia seus olhos parecerem maiores, mas também mais vazios. Sua mão direita continuava envolta em bandagens, imobilizada à frente do corpo. Seus longos cílios estavam baixos, projetando uma pequena sombra na face pálida.
Um homem vestindo um suéter de cashmere cinza claro, com um ar de nobreza distante e elegante, estava atrás dela, empurrando a cadeira de rodas lentamente.
Ocasionalmente, o homem se curvava para dizer algo em seu ouvido, e Alice assentia de forma quase imperceptível ou movia levemente o canto da boca.
Aquele sorriso era tão tênue que mal podia ser visto, mas aos olhos de Diego, foi como um ferro em brasa, queimando seu coração.
Aquele homem... seria o "novo noivo" que a família Valente arranjara para ela?
Parecia ser muito gentil e cuidadoso com ela.
E ele? Tudo o que ele trouxera para ela fora dor e desespero.
Uma emoção intensa, misto de ciúme, arrependimento e desejo humilde, destruiu a racionalidade de Diego.
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