"Onde a Neve Nunca Derrete" Capítulo 5
"— Não! Por favor! Eu te imploro! Não destrua minhas mãos!!"
"— Eu não comecei fogo nenhum! Foi a Bianca quem me armou uma cilada! Bernardo, acredite em mim uma vez! Só desta vez! Por favor!"
Alice balançava a cabeça desesperadamente, as lágrimas jorrando. Ela tentou recuar, mas os seguranças trazidos por Bernardo a seguraram firmemente pelos ombros.
Ela estava implorando de verdade, de joelhos se fosse preciso.
Aquelas mãos eram a única coisa que lhe restava, o único elo com a Alice orgulhosa e vibrante do passado, a prova de que ela ainda podia acreditar em um pingo de esperança neste mundo.
Bernardo, ao vê-la com o rosto banhado em lágrimas, sentiu uma pontada estranha e súbita de dor no coração, mas essa sensação desapareceu em um flash.
"— Alice, quando se faz algo errado, paga-se o preço!" Bernardo olhou para ela com olhos gélidos. Ele avançou pessoalmente e agarrou o pulso direito dela. Em seguida, olhou para Diego ao lado: "Diego, o que está esperando? Segure o outro."
Diego hesitou por um momento.
Ele olhou para Alice; ela estava com o rosto manchado de lágrimas, e em seus olhos havia um desespero e um súplica totais.
Aquele olhar ele já tinha visto uma vez.
Três anos atrás, quando ela foi levada pela polícia, olhou para ele da mesma forma, chorando e dizendo: "Diego, acredite em mim, eu realmente não a empurrei".
Naquela época, ele não acreditou.
E agora?
"— Diego!" Bernardo apressou-o com aspereza e impaciência. "Pense na Bianca! Veja o que ela fez com a Bianca!"
Diego fechou os olhos. Quando os abriu, caminhou até o outro lado de Alice e segurou o pulso esquerdo dela.
Seu movimento foi um pouco mais leve que o de Bernardo, mas igualmente firme.
"— Alice," ele disse baixo, com a voz rouca. "Esta é a lição que você merece."
A lição que merecia.
Alice olhou para Diego, o homem que amou por mais de dez anos, o noivo que um dia disse que a protegeria para sempre; agora ele a segurava com as próprias mãos para empurrá-la ao inferno.
Ela parou de chorar subitamente.
As lágrimas secaram. O coração morreu.
O martelo pesado desceu com força, cortando o ar!
"— AAAAAHHHH!!!"
O som seco de ossos partindo, acompanhado pelo grito dilacerante de Alice — um som que mal parecia humano —, ecoou por todo o corredor!
Uma vez.
Duas vezes.
Três vezes.
Os cinco dedos da mão esquerda passaram, cada um, pela mesma tortura.
Quando chegou a vez da mão direita, ela já não conseguia gritar. Sua garganta estava completamente rouca, seu corpo tinha espasmos constantes devido à dor excruciante e sua consciência oscilava entre a lucidez e o desmaio.
Diego sentiu a mão dela tremer violentamente na palma da sua. Por um breve segundo, ele quis soltá-la, quis abraçá-la, quis dizer "chega".
Mas não o fez.
Ele desviou o olhar, forçando-se a não ver o rosto sofrido dela.
Quando o último golpe terminou, ela desabou inerte. Bernardo e Diego soltaram as mãos.
Alice baixou a cabeça, olhando para suas mãos cobertas de sangue e carne viva, com um olhar de um vazio aterrador.
E então, ela riu.
Uma risada baixa e rouca escapou de sua garganta, um som mais triste do que qualquer choro.
Bernardo franziu a testa: "Do que você está rindo?"
Alice ergueu a cabeça, olhou para ele e depois para Diego.
"— Estou rindo de mim mesma," disse ela, com a voz tão fraca que parecia prestes a sumir. "Estou rindo por ainda ter tido ilusões... rindo por achar que vocês, ao menos... ao menos lembrariam um pouco do carinho do passado..."
Seu olhar caiu sobre suas mãos destruídas, e a risada transformou-se gradualmente em um soluço sufocado: "Agora está bom... não sobrou nada... de verdade... não sobrou mais nada..."
Após as últimas palavras, sua visão escureceu e ela desmaiou completamente.
Capítulo 8
Quando acordou novamente, estava sozinha no quarto de hospital.
Ela quis erguer a mão para olhar, mas ao menor movimento do braço, uma dor aguda a atingiu.
"— Não se mexa."
Uma voz suave soou. Alice virou a cabeça e viu um médico de jaleco branco ao lado da cama, segurando uma bandeja de curativos.
"— O ferimento em suas mãos acabou de ser tratado," disse o médico enquanto removia cuidadosamente a gaze. "Os ossos foram reposicionados e colocamos gesso para imobilizar. No entanto..."
Ele fez uma pausa e olhou para ela: "Você toca violino, não é?"
O coração de Alice afundou.
Ela olhou para o médico, seus lábios se moveram, mas nenhum som saiu.
O médico suspirou: "Houve múltiplas fraturas cominutivas nos ossos dos dedos. Fizemos o melhor que pudemos, mas, no futuro, receio que você não poderá mais tocar violino."
Não poderá mais tocar violino.
Seis palavras simples.
Alice olhou fixamente para suas mãos por muito, muito tempo.
Tempo suficiente para o médico terminar o curativo, refazer o gesso, organizar suas coisas e se preparar para sair.
Tempo suficiente para a luz lá fora mudar de um entardecer sombrio para a escuridão total.
Então, ela começou a chorar.
Não foi um pranto histérico, mas um choro silencioso e desesperado.
Lágrimas pesadas caíam, atingindo o lençol branco e formando manchas escuras de umidade.
Ela abria a boca querendo emitir som, mas de sua garganta saíam apenas ruídos de ar quebrados.
Aos sete anos, Bernardo deu a ela seu primeiro violino.
Naquela época, ele era um irmão terno e paciente, ensinando-a passo a passo como segurar o arco e como pressionar as cordas.
Ele dizia: "As mãos da Alice são tão lindas, ela nasceu para tocar".
Aos doze anos, em sua primeira apresentação no palco, ela estava tão nervosa que seus dedos tremiam.
Diego sentou-se na primeira fila, sorrindo e aplaudindo. Após o concerto, ele lhe deu um buquê de girassóis e disse: "De agora em diante, estarei em todas as apresentações da Alice".
Aos quinze anos, ela ganhou o primeiro prêmio em uma competição nacional.
Bernardo ficou tão feliz que a ergueu e rodopiou; Diego estava ao lado rindo e tirando fotos.
Aos dezoito anos, ela recebeu o convite para a audição na Juilliard.
Ela contou a todos com empolgação; Bernardo acariciou sua cabeça dizendo "minha irmã é incrível", e Diego a abraçou dizendo "quando você for para os Estados Unidos, eu voarei todo mês para te ver".
Então a Bianca voltou.
E então tudo mudou.
Aquelas promessas, aquela ternura, aquele carinho que ela pensou que duraria a vida inteira, eram afinal tão frágeis.
Tão frágeis que bastou uma acusação de veracidade duvidosa para que tudo fosse reduzido a pó!
Nos dias seguintes, Alice permaneceu deitada no quarto de hospital.
Bernardo e Diego não foram visitá-la nem uma única vez.
Ocasionalmente, quando as enfermeiras entravam para trocar os curativos, ela ouvia algumas notícias através de suas conversas.
"— Aquela Srta. Bianca do quarto VIP tem muita sorte, dois homens tão bonitos a acompanham todos os dias."
"— É verdade, ouvi dizer que a queimadura nas costas dela está cicatrizando bem, talvez nem deixe marcas."
"— Como não deixaria marcas? Uma área tão grande... mas a família Rocha tem dinheiro, contrataram os melhores cirurgiões plásticos e usam os remédios mais caros, estimam que ela recupere uns setenta ou oitenta por cento."
"— Isso já é ótimo. Já esta aqui deste lado..." a enfermeira baixou a voz, "com as mãos naquele estado, receio que ficarão inúteis."
"— Shhh, fale baixo..."
Alice fechava os olhos, fingindo estar dormindo.
Somente após as enfermeiras saírem é que ela abria os olhos, encarando o branco monótono do teto.
Não deixaria marcas.
Que bom.
Bianca não perderia nada.
Ela continuaria sendo a princesinha protegida da família Rocha, com o carinho do irmão, o amor do noivo, e continuaria vivendo uma vida cercada de adoração.
E quanto a ela?
Perdeu a família, perdeu os sonhos e agora perdeu as mãos.
Que justo.
Uma semana depois, o inchaço nas mãos de Alice diminuiu um pouco.
O médico disse que ela já podia sair da cama e caminhar, mas que os suportes de imobilização dos dedos deveriam ser usados por mais um mês.
Naquela tarde, ela quis ir ao banheiro e, logo ao empurrar a porta da cabine, ouviu uma voz familiar lá fora.
"— Irmã, que coincidência."
Alice congelou por inteiro.
Ela se virou e viu Bianca diante da pia, retocando a maquiagem no espelho.
Bianca usava a roupa de hospital, mas por cima tinha um cardigã de cashmere de acabamento impecável; estava com uma maquiagem leve e seu semblante estava tão bom que nem parecia o de uma paciente.
"— Ouvi dizer que suas mãos ficaram inúteis?" Bianca virou-se, analisando-a com um olhar de triunfo indisfarçável. "Que pena. Nunca mais poderá tocar violino, não é?"
"— Mas talvez seja melhor assim," Bianca deu alguns passos à frente, baixando muito a voz. "Uma herdeira falsa que não pode tocar, que direito tem de competir comigo? O irmão é meu, o Diego é meu, tudo na família Rocha é meu. Você, apenas aceite ser um lixo e suma daqui o quanto antes."
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