"Renascendo da Traição" Capítulo 3
A expressão de Lucas tornou-se complexa, seus lábios tremeram, mas nenhuma palavra saiu. Alícia parou de olhá-lo e colocou os fones. Com a ponta do dedo suspensa sobre o botão de início por um segundo, ela o pressionou suavemente.
Sob uma trilha sonora suave, ela falou ao microfone com doçura e serenidade:
— Boa noite a todos os ouvintes, bem-vindos à edição especial do Voz da Noite. Eu sou sua anfitriã, Alícia Vidigal.
— Hoje à noite, contarei na íntegra a história que tocou a todos ontem. A história sobre uma garota chamada Alícia e o rapaz que cresceu com ela.
Sua voz tornou-se mais profunda, como se recordasse um sonho antigo e longo:
— A história começa há quinze anos.
Ao lado dela, Lucas baixou a cabeça lentamente, fechando as mãos em punhos cerrados. Alícia observava calmamente o monitor com as mensagens que subiam em alta velocidade:
[Finalmente! A história de ontem me deixou muito ansioso!]
[A voz da locutora traz muita imersão, parece que ela viveu isso...]
[Então o ouvinte de ontem é o protagonista masculino?]
[O que será que ela passou? Conta logo!]
Ela respirou fundo e começou:
— Naquele ano, Alícia tinha quinze anos e Lucas, dezesseis. Eles moravam no mesmo bairro antigo da Zona Sul.
— O primeiro encontro aconteceu em um beco estreito...
Capítulo 4
Naquele outono, as folhas das árvores cobriam toda a rua.
Quando Lucas mudou-se com sua mãe para o bairro antigo, ele se tornou o centro das atenções. Sua mãe, Vera, parecia uma pintura suave, falava baixo e carregava uma melancolia constante no olhar. Lucas herdara a beleza da mãe; era um jovem de traços finos e frios que, naquela vizinhança barulhenta, trazia uma aura de distanciamento.
Mas esse destaque logo foi manchado por fofocas. Diziam que sua mãe era amante de alguém poderoso e que viera se esconder; outros diziam que seu pai era um criminoso e que eles fugiam de dívidas.
Alícia nunca acreditou nisso. Para ela, "amantes" eram como as vilãs calculistas das novelas, e um filho ilegítimo não teria o porte limpo e íntegro de Lucas. Por isso, ao cruzar com Dona Vera, ela sempre parava e cumprimentava educadamente: "Bom dia, Dona Vera".
E ao ver Lucas sendo encurralado e agredido por valentões em um beco, ela avançava, usando o nome de seu pai — um treinador de boxe — como escudo para afugentá-los. Até hoje, Alícia conseguia se lembrar nitidamente daquela cena.
O pôr do sol tingia o beco de um amarelo quente. Lucas estava encostado na parede descascada, a camisa branca suja de poeira e o canto da boca sangrando, mas com um olhar resiliente como um pinheiro no inverno.
Ela se agachou diante dele, estendendo a mão com cuidado:
— Você está bem? De agora em diante, venha comigo. Eu cuido de você!
O jovem levantou os olhos, não disse nada, apenas a observou em silêncio. Naquelas profundezas escuras, algo rígido começou a derreter silenciosamente.
Desde então, tornaram-se amigos inseparáveis. Lucas pegava seu violino guardado com zelo e ensinava a ela as melodias mais simples; Alícia, por sua vez, o levava para um terreno baldio atrás de uma fábrica abandonada para treinar boxe. Ela ensinava como dar socos, como se defender, e ria até perder o fôlego vendo o jeito desajeitado, porém dedicado, dele.
Um sentimento juvenil brotou dia após dia naquela convivência, mas nenhum dos dois ousava romper a fina barreira que os separava.
— Trim! — O som de alerta de chamada no estúdio interrompeu as memórias de Alícia.
Ela olhou para o monitor. Dona Clara entrava apressada com documentos, fazendo um sinal de "audiência explodindo". Alícia entendeu, pressionou o botão de pausa, soltou a trilha sonora de fundo e desligou o microfone.
— Alícia, explodiu! — Dona Clara entregou os papéis, com a voz carregada de emoção. — A audiência está mais alta que ontem, o sistema está cheio de mensagens pedindo continuação e muitos ouvintes querem entrar ao vivo.
— Estão todos perguntando por que o protagonista mudou, como ele pôde trair alguém que se sacrificou tanto!
O olhar de Alícia percorreu a tela:
[Uma base de sentimento tão profunda não deveria ter terminado assim!]
[Locutora, não para! Qual foi a reviravolta?]
[Aposto que ele teve um motivo nobre!]
Ela instintivamente olhou para Lucas ao seu lado. Ele encarava as frases na tela com um olhar sombrio e indecifrável. Talvez sentindo o olhar dela, Lucas levantou os olhos. Naquelas íris negras, borbulhavam culpa, dor e muitas emoções que ela não desejava mais distinguir.
Alícia desviou o olhar friamente, sem dizer palavra.
— Podemos selecionar alguns ouvintes aleatórios, respondendo perguntas enquanto contamos a história. Isso aumenta a interação e os dados vão subir ainda mais! — sugeriu Dona Clara, alheia à tensão entre os dois.
Alícia assentiu, sem se opor. Após a saída de Dona Clara, o estúdio voltou ao silêncio. Alícia encostou-se na cadeira para descansar um pouco, sentindo uma dor familiar e pesada no baixo ventre.
Era o período menstrual. Naqueles anos de lutas clandestinas, seu corpo sofrera danos severos e seu útero tornara-se extremamente frágil. Nessas épocas, a dor era como se seus órgãos estivessem sendo esmagados.
Quando ela ia se levantar para pegar água quente, um copo térmico foi estendido diante dela.
— Quando você está nesses dias, sua barriga sempre dói. Ficar acordada até tarde piora a situação — a voz de Lucas era baixa. — Aqui está o remédio que você costumava tomar. Eu... preparei seguindo a receita daquela época.
Alícia parou, observando o vapor subindo do copo. Uma mistura complexa de sentimentos a atingiu. Ela não esperava que, depois de tantos anos, ele ainda se lembrasse desses detalhes.
Antigamente, ao vê-la encolhida na cama de dor, Lucas ficava com os olhos vermelhos de angústia. Ele chegara a procurar um mestre em medicina tradicional para aprender a receita, preparando o tônico pessoalmente todos os dias e servindo a ela colher por colher.
Contudo, foi esse mesmo homem, que um dia a amou com tanta dedicação, que assinou o documento autorizando o médico a interromper a gravidez dela.
— Se isso não funcionar — Lucas tirou uma cartela do bolso e colocou ao lado dela —, também tenho Ibuprofeno.
O olhar de Alícia caiu sobre a aliança no dedo anelar dele. O reflexo no metal a trouxe de volta à realidade instantaneamente. Ela encarou o olhar ansioso dele com distanciamento:
— Obrigada, mas agora eu não preciso disso.
Nos três anos de sua nova vida, João Duarte estivera ao seu lado cuidando de sua saúde, dia após dia, sem interrupções. Ele preparava escalda-pés com ervas, cozinhava caldos medicinais suaves e massageava o ventre dela com as mãos quentes quando a dor a fazia suar frio. Aquelas dores dilacerantes já haviam diminuído; o desconforto de agora era apenas uma reação normal do ciclo.
A mão de Lucas congelou no ar, e o brilho em seus olhos apagou-se aos poucos.
— Alícia, na verdade, eu me arrepend...
Ele abriu a boca, parecendo querer explicar algo. Mas antes que as palavras saíssem, o celular no bolso dele tocou. O olhar de Lucas escureceu. Ele deu uma olhada rápida na tela e desligou imediatamente. No segundo seguinte, o aparelho tocou obstinadamente de novo. O nome "Jade Menezes" piscando na tela era perfeitamente visível na penumbra do estúdio.
Alícia desviou o olhar, dizendo calmamente: — Talvez seja algo urgente. Atenda, não quero que isso afete o restante da transmissão.
Lucas olhou para ela com uma expressão complexa, mas não disse mais nada. Ele pegou o telefone e saiu rapidamente do estúdio. A vedação da porta de vidro não era total, e Alícia pôde ouvir a voz abafada e contida dele.
Começou com respostas baixas, seguidas por um tom de impaciência, terminando em um rugido contido, quase um grito:
— Você pode parar de ser tão paranoica? Se não aguenta mais, vamos nos separar!
Alícia desviou os olhos, e uma memória fragmentada passou por sua cabeça. Parecia que, há muito tempo, em uma noite de chuva semelhante, ela descobrira mensagens ambíguas entre Lucas e Jade no celular dele. Ao questioná-lo chorando, ele rugira com a mesma impaciência:
— Você pode parar de ser tão irracional? Eu e ela somos apenas amigos!
Naquela época, ela fora ingênua o suficiente para acreditar.
Momentos depois, Lucas entrou de volta, explicando com uma expressão constrangida:
— Nesses anos, o estado emocional dela não tem sido estável, eu...
— O tempo de descanso acabou, vamos começar — Alícia o interrompeu friamente. — Por favor, Sr. Valentim, coloque seu celular no silencioso.
O olhar de Lucas escureceu novamente. Ele silenciou o aparelho e o guardou no bolso. A música baixou, e a voz de Alícia voltou a ser transmitida pelo microfone para todo o público:
— Bem-vindos de volta, ouvintes. Agora, continuaremos a história de Alícia e daquele rapaz.
— Justo quando o sentimento deles estava prestes a florescer, o destino lhes deu um golpe severo.
Capítulo 5
— Quando Alícia tinha dezessete anos, sua família sofreu uma tragédia repentina.
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