"Renascendo da Traição" Capítulo 1
Capítulo 1
Duas e dez da manhã, estúdio da rádio Voz da Noite.
Alícia Vidigal ajustou o fone de ouvido e aproximou-se do microfone, sua voz saindo suave e acolhedora:
— Agora, vamos atender a nossa quinta ligação da noite.
O sinal foi conectado e um leve chiado preencheu o ambiente.
— Olá, como gostaria de ser chamado?
Após um breve silêncio, uma voz masculina profunda e levemente rouca respondeu do outro lado:
— ... Pode ser anônimo.
A voz era áspera, como se tivesse sido lixada, e de alguma forma colidiu com os cantos mais profundos da memória dela.
Os dedos de Alícia se contraíram involuntariamente.
— Tudo bem, amigo anônimo. Que história você gostaria de compartilhar conosco?
Houve outro silêncio prolongado, tanto que Alícia já se preparava para colocar uma música, quando a voz ressoou novamente:
— Eu quero contar uma história sobre... ingratidão.
Lá fora, a chuva engrossava, batendo no vidro com um ritmo melancólico, como se fossem lágrimas de alguém.
— Era uma vez uma garota que, para conseguir dinheiro para o tratamento do seu melhor amigo de infância, lutou em ringues clandestinos de boxe por três anos.
A mão de Alícia, que levava um copo d'água à boca, parou no ar.
— Muitas vezes, ela quase foi morta.
— Na pior das vezes, teve uma concussão, ficou surda de um ouvido e quebrou três costelas.
A voz do homem ficava cada vez mais baixa.
— O rapaz sempre chorava e dizia que nunca a decepcionaria, que daria a ela uma vida maravilhosa.
— E o que aconteceu depois?
A voz de Alícia permanecia calma, mas seu olhar estava desfocado, fixo na curva de audiência que subia rapidamente no monitor.
— Depois, o rapaz foi reconhecido pelo pai rico e voltou para a elite. Em menos de três anos, o coração dele mudou.
O homem fez uma pausa.
— Ele encontrou o que chamava de alma gêmea. Passou a tratar a garota com violência psicológica, traiu-a e a forçou a interromper uma gravidez...
— Finalmente, na festa de noivado dele, a garota cortou os pulsos em público.
O silêncio no estúdio era absoluto.
— Ela não morreu naquele dia. Mas, meses depois, foi torturada e morta à beira-mar, e seu corpo nunca foi encontrado.
O homem parou por um longo tempo, até que o diretor de estúdio levantou a mão sinalizando que o tempo estava acabando.
— E, naquele exato momento, o rapaz estava com sua nova amante, celebrando o casamento em um iate.
A chuva lá fora aumentou subitamente, martelando o vidro como batidas de tambor urgentes.
Alícia acariciou levemente o pulso esquerdo, a cicatriz parecia queimar.
Ela olhou para Dona Clara, a supervisora, atrás do vidro. Clara gesticulava animada: a audiência estava explodindo, já era o assunto mais comentado da plataforma.
— Uma história muito triste — Alícia respondeu com seu tom profissional habitual. — E então, o senhor ligou esta noite esperando que tipo de conselho ou conforto?
Outro silêncio mortal.
O diretor levantou três dedos, restavam apenas trinta segundos.
Justo quando ela estava prestes a encerrar a chamada, a voz perguntou de repente:
— Se... se aquela garota não tivesse morrido e tivesse sobrevivido por um milagre. Oito anos depois, você acha que ela ainda odiaria aquele rapaz?
Alícia baixou o olhar para a cicatriz esbranquiçada em seu pulso e sorriu levemente:
— Acredito que não.
— Por quê? — O homem perguntou com urgência. — Ela deu tanto, foi tão ferida... por que ela não o odiaria?
— Eu imagino que o ódio daquela garota, na época, vinha de um amor profundo e de uma obsessão que estava em seus ossos.
Alícia olhou para seu próprio reflexo no vidro, sua voz era pura serenidade:
— Quando você realmente "morre" uma vez, todo esse amor e obsessão desaparecem junto com a experiência de quase morte.
Ela fez uma pausa, os olhos fixos nas luzes de neon borradas pela chuva lá fora:
— Quando não há mais amor, naturalmente, não há mais ódio.
O silêncio que se seguiu através do fone foi pesado, preenchido apenas pelo som de uma respiração contida.
— Entendo... então é isso — o homem murmurou, sua voz carregada de uma desolação indescritível. — Então é assim...
— Tem mais alguma coisa que queira dizer?
— ... Não. Obrigado.
— Então, vamos para o próximo ouvinte.
Alícia encerrou a conexão, as pontas de seus dedos estavam geladas.
...
Seis da manhã, o programa terminou.
Alícia tirou os fones, massageou a nuca e girou sua cadeira de rodas.
Dona Clara entrou apressada e entusiasmada:
— Alícia, explodiu! A audiência de ontem bateu o recorde de três anos!
— Principalmente a quinta história, a discussão foi direto para o primeiro lugar nos tópicos quentes da plataforma!
Alícia apenas soltou um "hum" suave, baixando a cabeça para organizar os roteiros sobre a mesa.
Oito anos de carreira como locutora noturna finalmente chegariam ao fim oficialmente esta noite.
A partir de amanhã, ela seria transferida para o turno do dia e poderia, finalmente, ter uma rotina de vida normal.
— E tem algo ainda mais impactante! — Os olhos de Dona Clara brilhavam. — A rádio acabou de receber um investimento publicitário anônimo, destinado especificamente ao seu quadro. Um milhão de reais!
— O diretor ficou eufórico e decidiu na hora transferir você para o horário nobre!
Publicidade anônima.
Os dedos de Alícia se fecharam sem emitir som.
Ela olhou para a chuva que ainda não parava lá fora, e uma sombra surgiu vagamente em sua mente.
— A propósito — a voz de Dona Clara ficou mais séria —, aquele ouvinte anônimo ligou de novo agora há pouco, dizendo que quer participar do programa hoje à noite para terminar de contar a história.
— A rádio acha que podemos organizar isso, afinal, o engajamento está altíssimo...
— Mas hoje não seria o meu último turno da noite? — Alícia perguntou calmamente.
— Por isso mesmo você deve aproveitar a oportunidade! — Dona Clara tocou em seu ombro. — Este é o melhor momento para sua transição.
— O horário diurno é estável, mas para se destacar, você precisa de um impacto como este.
Alícia silenciou por alguns segundos e assentiu:
— Tudo bem.
Ao sair da rádio, a chuva ainda não havia parado.
Alícia empurrou sua cadeira de rodas para dentro da cortina de chuva.
Essa cadeira de rodas elétrica foi o presente de aniversário que Aninha lhe deu no ano passado, comprada com o dinheiro que a pequena economizou por dois anos.
Na época, a pequena olhou para ela com seriedade e disse:
— Mamãe, agora você não vai mais precisar se esforçar tanto.
Na verdade, Alícia ainda tinha força nas mãos, apenas não podia usá-las por muito tempo.
As velhas feridas nos pulsos e tornozelos latejavam pontualmente em cada dia de chuva.
O guarda-chuva parecia pesado em sua mão.
Ela empurrava lentamente a cadeira em direção à estação de metrô, mas parou na beira da estrada.
Sem que percebesse, naquela rua antes plana, havia agora uma lombada de borracha.
A elevação preta não era tão alta, mas para uma cadeira de rodas, era um obstáculo difícil de superar sozinha.
Alícia tentou várias vezes.
Uma dor aguda e familiar surgiu em seus pulsos, tirando sua força.
O guarda-chuva escorregou de sua mão, rolou algumas vezes impulsionado pelo vento e acabou preso na sarjeta.
A chuva instantaneamente molhou seu cabelo e ombros.
Ela olhou para seus pulsos trêmulos, onde na pele exposta, cicatrizes esbranquiçadas serpenteavam como rios.
Oito anos atrás, naquele armazém abandonado à beira-mar no Rio de Janeiro, as lâminas daqueles homens seguiram exatamente esses trajetos, cortando seus tendões um a um.
"Rápido! A festa no iate está prestes a começar!"
As vozes da memória, misturadas ao som das ondas, ecoaram vagamente em seus ouvidos naquele momento.
Alícia fechou os olhos.
Ao abri-los novamente, uma silhueta surgiu subitamente em meio à chuva.
A pessoa segurava um grande guarda-chuva preto e caminhava com passos firmes em sua direção.
A chuva borrava sua visão; Alícia só conseguia distinguir as pernas de uma calça de terno de corte impecável e sapatos de couro brilhantes.
O guarda-chuva inclinou-se, cobrindo o céu acima de sua cabeça.
No momento seguinte, um par de mãos usando luvas de couro pretas segurou as alças da cadeira de rodas.
Aquelas mãos, com extrema facilidade, empurraram a cadeira sobre a lombada.
Quando a cadeira parou firme do outro lado da rua, Alícia disse baixinho:
— Obrigada.
A pessoa não respondeu, apenas continuou empurrando-a para frente até chegarem sob a cobertura da entrada do metrô, onde parou lentamente.
Alícia levantou o rosto.
A borda do guarda-chuva subiu devagar, revelando um rosto que lhe era ao mesmo tempo familiar e estranho...
Capítulo 2
Oito anos de tempo deixaram marcas indeléveis naquele homem.
Aquele jovem de olhar frio que sempre usava camisas brancas era agora um homem vestindo um terno sob medida impecável, com ombros largos e uma gravata perfeitamente ajustada.
Sua mandíbula estava tensa e pequenas linhas finas surgiam nos cantos de seus olhos.
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