"O Fim Amargo de um Amor à Distância" Capítulo 2
Por fim, Ricardo apertou os lábios: "Clara, eu ainda te amo. Mas se você continuar fazendo cena sem motivo, eu também sou humano, eu também me canso."
Ele jogou os presentes no lixo.
O bolo de chantilly branco de conto de fadas virou uma massa disforme.
Exatamente como o amor arruinado e terrível entre eles.
Clara não gostava de agir por emoção; ela sempre foi racional e calma.
Mas em seu sonho, ela agiu de forma atípica, tendo uma briga histérica com Ricardo.
"Você diz que está cansado, mas eu também disse que poderia voar de volta para te ver. Foi você quem recusou irritado, dizendo que eu não deveria duvidar do seu amor eterno por mim."
"Você me culpa por ter ido para o exterior, mas essa foi uma decisão que tomamos juntos! Você disse que minha vida não deveria ser apenas amor, e eu prometi que, após a formatura, voltaria para você e nunca mais partiria."
"Eu percebi seu cansaço e perguntei o motivo. Foi você quem, sob o pretexto de não querer me preocupar, não me deixou saber e mudou de assunto."
Ela o questionou como se estivesse louca, e o fim do sonho, assim como na realidade, terminou em desentendimento.
Ao acordar no dia seguinte, Clara estava com uma dor de cabeça terrível. Ela abriu os olhos e encontrou o olhar de Ricardo.
Após um momento de impasse, ao olhar para o rosto pálido da mulher, Ricardo acabou soltando um suspiro.
"Vamos ficar bem, pare de brigar, pode ser?"
Ele vestia um sobretudo preto sobre a camisa branca, elegante. Ajoelhou-se e baixou a cabeça para calçar as botas quentes nela.
O perfil nítido e bonito do homem se sobrepunha ao rosto juvenil do rapaz em sua memória, mas o coração de Clara não sentia mais nenhuma pulsação de paixão, apenas amargura e frio.
"Eu e a Pérola somos apenas chefe e subordinada. Se não acredita, eu te levo ao hospital hoje para você ver."
"Tudo bem", aceitou Clara. Após uma pausa, sua voz soou leve: "Eu também tenho algo para te dizer daqui a pouco."
Na noite anterior, ela decidira continuar seus estudos de pós-graduação, escolhera uma universidade desconhecida e reservara decididamente uma passagem para partir em uma semana.
Isso não era birra; pelo contrário, ela havia pensado muito.
Independentemente de Ricardo ter dito aquilo num momento de raiva, aquelas palavras eram como pedregulhos esfregados em sua carne, causando uma dor latente que não podia ser ignorada.
O que ela sempre quis foi um amor puro. Se não fosse assim, preferia descartá-lo, mesmo que doesse profundamente.
Apenas, por respeito a Ricardo, Clara pensou em avisá-lo, para que pelo menos tivessem um término digno.
O caminho até o hospital foi em silêncio.
Ao estacionar, Ricardo recebeu uma ligação; era possível ouvir vagamente uma voz feminina chorosa.
Sem saber o que foi dito, ele se virou e disse que tinha um assunto urgente para resolver, pedindo para Clara esperá-lo no escritório.
Clara quis dizer que não conhecia o caminho, mas Ricardo bateu a porta do carro apressado, e ela só pôde ver suas costas sumindo na pressa.
Clara ficou sozinha no estacionamento assustadoramente vazio.
O hospital era grande, e ela levou um bom tempo até conseguir se orientar.
Pegando o elevador direto para o décimo andar, Clara caminhou em direção ao balcão de enfermagem, pretendendo perguntar a direção do escritório.
No entanto, ouviu as jovens enfermeiras comentando animadas: "Eu não disse?! A Pérola só ficou um pouco chateada com o que um paciente disse, e bastou uma ligação para o Diretor Ricardo vir correndo!"
Clara parou abruptamente no lugar.
Então, este era o "assunto urgente" de que Ricardo falava, a ponto de abandoná-la sem hesitar.
"Para mim, o Diretor está mimando a Pérola como se fosse a sua namoradinha!"
"Seja em consultas ou cirurgias, ele ensina tudo passo a passo. É o namorado perfeito! Da última vez, até os familiares dos pacientes brincaram perguntando quando eles iriam se casar!"
Uma enfermeira perguntou em voz baixa: "Mas o Diretor não tem uma noiva?"
A outra soltou um "tsc": "Uma namorada no exterior você não pode tocar nem sentir. Como ela poderia competir com a nossa fofa Pérola? Quando a Pérola sorri docemente, o coração do Diretor derrete todinho!"
Clara ficou parada ali por um momento, sentindo o desprezo por si mesma consumi-la lentamente.
Ao se virar, percebeu que Ricardo e Pérola estavam parados no final do corredor.
O casaco largo que a garota usava era muito familiar para Clara; fora o presente de aniversário que ela dera a Ricardo.
Ela chegou a perguntar por que ele nunca o usava, e a resposta dele foi que era "precioso demais" e que ele o guardava como um tesouro.
Como esperado, era mais uma mentira.
Ela não sabia quantas mentiras gentis ele havia tecido durante esses três anos, de modo que cada momento em que a verdade vinha à tona parecia uma rede densa e entrelaçada, prendendo Clara e cobrindo-a de feridas.
Pérola chorava copiosamente, parecendo digna de pena.
Ricardo, com ternura, limpava as lágrimas do rosto dela, com um olhar de adoração que parecia transbordar: "Não chore mais, eu não te defendi?"
"Enquanto eu estiver aqui, ninguém poderá te intimidar."
Sendo consolada por um homem de tamanha autoridade com voz suave, Pérola finalmente sorriu entre as lágrimas e, em seguida, perguntou com a voz manhosa: "Então, você pode me dizer quem era a mulher que te ligou ontem à noite?"
Ricardo silenciou.
Deveriam ter sido apenas alguns segundos, mas para Clara, pareceu a duração das quatro estações.
Como se um século tivesse se passado, ela ouviu Ricardo dizer em tom profundo: "É apenas uma amiga, não somos próximos."
Não somos próximos.
Essas três palavras foram como uma espada afiada, atingindo o centro da testa de Clara, deixando-a ensanguentada e cheia de cicatrizes.
De repente, ela sorriu.
Sim, não eram próximos.
Apenas dois estranhos que se acompanharam por dez anos e prometeram envelhecer juntos.
Por outro lado, Pérola, tendo obtido a resposta, ficou radiante, com os olhos brilhantes escondendo um profundo apego e a timidez de uma jovem.
Ela ficou levemente na ponta dos pés, e seus lábios vermelhos e perfumados se aproximaram de Ricardo.
Clara viu tudo com clareza.
Ricardo não precisava recuar nem um passo; bastava um leve movimento de lado com o rosto para impedi-la educadamente.
Mas ele não o fez.
Os lábios da garota beijaram o maxilar bem definido do homem.
Ardente e ambíguo.
Foi como se um moedor de carne triturasse o corpo de Clara, deixando-a sem vida, caindo diretamente no inferno.
Ela esqueceu como conseguiu descer as escadas.
Até que recebeu uma ligação de Ricardo, com a voz estranhamente seca: "Você chegou? Você... não viu nada agora pouco, viu?"
"Você está com medo de que eu tenha visto algo?"
Clara perguntou de volta em voz baixa, enquanto as lágrimas escorriam pelo canto da boca.
Salgadas e ácidas. Era o gosto que ela mais detestava.
Ela realmente não entendia: será que Ricardo ainda se importava? Se sim, por que escolheu trair?
"Claro que não."
Ricardo soltou um suspiro de alívio. Por causa da culpa e do pânico, não percebeu que a voz da mulher era como um poço de águas paradas, e disse num tom leve: "Então suba rápido, você não tinha algo para falar comigo?"
"Não vou mais." A respiração, transformando-se em névoa branca, flutuou no ar enquanto Clara murmurava confusa: "Parece que esse assunto não é mais importante para você."
Dito isso, ignorando a voz surpresa e irritada do homem, ela desligou o telefone.
...
Um relacionamento de dez anos leva muito tempo para ser limpo.
Apenas as joias valiosas, roupas de casal e câmeras fotográficas ocuparam duas grandes caixas.
As coisas que ela trouxe do exterior com tanta expectativa para decorar o futuro lar foram agora doadas para instituições de caridade.
Após se despedir dos funcionários da reciclagem que sorriam satisfeitos, Clara abriu a vitrine de vidro.
A superfície de vidro não tinha um grão de poeira sequer, revelando o cuidado extremo do dono.
Ela retirou lentamente as passagens aéreas lá de dentro.
A primeira era de 6 de março de 2023.
O primeiro reencontro após uma breve separação e também a noite em que, em um apartamento com ares estrangeiros, ela e Ricardo provaram o fruto proibido.
O corpo do rapaz estava ardendo e, embora estivesse suando de tanto se conter, ele controlou cautelosamente seu desejo, acalmando-a o tempo todo com voz doce.
A décima passagem era de 7 de abril de 2023.
Com apenas um mês de intervalo, Ricardo voou dez vezes. Porque ela não se adaptara bem ao clima local e pegara um resfriado, Ricardo ficou desesperado, trocou turnos com colegas e viajou frequentemente para o exterior.
Naquela época, ele, que era obcecado por limpeza, deixou a barba crescer e tinha os olhos vermelhos de cansaço, mas nunca reclamou uma única vez.
A passagem número quatrocentos e cinquenta era de 1º de fevereiro de 2024.
Foi o primeiro Ano Novo que passaram no exterior.
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