"A Vingança da Pastora" Capítulo 8
Lá fora, o trovão ressoava, lembrando-o de quando ele e Estela ficaram presos na caverna. Naquela noite, ele dera a ela a única chance de sobrevivência sem hesitar. Ele realmente estivera disposto a morrer por ela. Encontrar a pureza de Estela fora sua única sorte em uma vida cheia de esquemas.
Consumido pelo arrependimento, ele rugiu contra o destino:
— Eu perdi tantas vezes... Deus terá que me dar mais uma chance. Estela, eu vou te encontrar!
Capítulo 15
Nas pradarias sem fim do noroeste, o rebanho de ovelhas voltava para o cercado. O homem que as conduzia estalava o chicote com uma mão e puxava uma carroça com a outra.
Com a ajuda de Lucas, Estela finalmente retornara à sua terra natal após meio mês escondida. Sentada na carroça, ela sentiu o vento do campo e seus olhos se encheram de lágrimas.
— Lucas, este vento é frio, mas aquece o meu coração.
— Eu sabia que te trazer de volta era o certo. Você parece melhor — disse Lucas, exibindo um sorriso no rosto bronzeado. — Estela, você se foi por cinco anos, mas nada mudou aqui. Você sempre será bem-vinda em casa.
Aquele passo corajoso que ela dera pelo amor anos atrás tornara-se um bumerangue que a atingira em cheio; agora, estava ferida e mal conseguia andar. Aqueles cinco anos que ela achava terem sido nutridos por amor foram uma farsa.
— Nunca mais serei tola. Nunca mais deixarei esta terra que me viu nascer.
Lucas percebeu a solidão nos olhos dela e tentou confortá-la:
— Tudo bem. Eu estarei com você, você não ficará sozinha.
As palavras seguintes travaram em sua garganta. Ao entardecer, enquanto voltavam para o acampamento temporário, encontraram um casal de turistas que se perdera. Estela os convidou para passar a noite ali por segurança.
À noite, reunidos ao redor da fogueira, comiam carne assada e conversavam. O humor de Estela estava estranhamente leve. Dimitri nunca a levava para ver amigos; ela vivia apenas para ele. Estar entre pessoas novamente a fez beber algumas tigelas de vinho a mais, esquecendo temporariamente a dor.
Sempre que a tigela de Estela esvaziava, Lucas a enchia. A noiva turista, Mariana, olhava com inveja.
— Amiga, seu marido é tão atencioso, corta a carne todinha para você... o meu não tem essa percepção. Vocês estão casados há quanto tempo?
Estela engasgou com o vinho, ficando vermelha.
— Nós não...
— Eu sou o irmão mais velho dela, é meu dever cuidar da minha maninha — Lucas interveio rapidamente, mudando de assunto e entregando um bule de vinho quente a Estela. — E vocês, por que decidiram viajar para cá?
— Não queríamos casar perto de parentes interesseiros, viemos para onde há liberdade — respondeu Mariana, rindo. — Mas é perigoso por aqui, não? Hoje vimos um viajante de mochila na estrada, ele estava dirigindo por aqui há dias, dizendo que procurava uma amante.
Ao ouvir isso, o coração de Estela disparou. Mas ela bebeu outra tigela de vinho para se acalmar, negando o pensamento. Ela devia estar ficando louca de tanto ódio para pensar em Dimitri agora.
— Amor, o homem disse que estava procurando a esposa dele — corrigiu o noivo de Mariana. — Não transforme uma prova de amor em traição.
— É verdade! Ele disse que a esposa provavelmente estava nesta pradaria e pediu que, se a víssemos, entrássemos em contato. O nome dela era... algo como Estela!
A grelha de carne desabou, e as brasas queimaram o pulso de Lucas, mas ele nem sentiu. Seus olhos estavam fixos em Estela, com o coração apertado.
— Lucas, você está bem? — Ela tentou ajudá-lo com um balde de água, mas suas mãos tremiam tanto que molhou todo o seu vestido.
— Estela, não tenha medo. Eu estou aqui. Amanhã cedo partiremos para o leste, ele não nos achará lá.
Lucas acariciou a cabeça dela, tentando transmitir força. O frio nos pés fez Estela recobrar a lucidez. Ela não deveria ter medo. Ela não tinha mais nada com Dimitri. Mesmo que ele a encontrasse, ela não fizera nada errado. Se pudesse voltar atrás, faria tudo de novo.
— Eu não tenho medo — disse ela com firmeza. — Esta é a minha casa e eu não vou fugir. Tudo o que fiz para me vingar foi o que ele me devia. Agora estamos quites.
Assim que as palavras saíram de sua boca, passos apressados soaram na grama. Aquela voz familiar rasgou a escuridão, aproximando-se.
— Estela, como você pode dizer que estamos quites?
Capítulo 16
Sob o manto da noite, Dimitri aproximava-se como um espectro.
Com o cabelo ressecado e sem corte, vestindo roupas casuais amassadas e um rosto magro e amarelado com uma barba por fazer, ele parecia um cadáver, não fosse pelo brilho persistente em seus olhos. Estela mal podia acreditar que aquele era o homem que conhecera.
Mariana, ao ouvir a voz, abriu a cortina da cabana e seus olhos brilharam.
— Falando no diabo! Amiga, ele é o viajante que eu e meu marido encontramos na estrada. Ele nos contou tantas histórias de amor sobre ele e a esposa, foi tão emocionante. Eu nem conseguia imaginar o tamanho da raiva que a esposa devia estar sentindo para abandonar um homem tão bom assim.
— É mesmo? Um "homem bom"?
Antigamente, as pessoas sempre elogiavam Estela por ter um marido tão carinhoso; agora, ela só sentia sarcasmo. Esse suposto "bom marido" não passava de um vilão sob um disfarce hipócrita, cuja essência era egoísta e mesquinha, em nada diferente dos herdeiros libertinos de sua classe social.
Estela cerrou os punhos e os soltou repetidas vezes. Quando finalmente falou, sua voz transbordava escárnio:
— Dimitri, com que cara você ousa criar esse personagem? Marido amoroso? Você quase quebrou a minha perna, retalhou meu corpo com mil cortes, deu as cinzas do meu pai para cães vira-latas e ainda permitiu que matassem o meu filho antes mesmo de ele nascer.
Aquelas dores, mesmo que cicatrizassem, deixaram marcas indeléveis que jamais poderiam ser apagadas ou suavizadas.
— Dimitri, eu destruí o banquete da sua mãe, eu gravei os vídeos, eu chamei o Dr. Lucas. Eu estou bem aqui, você não precisa se esforçar tanto fingindo que me procura para se vingar.
— Estela, não é nada disso...
Ele não imaginava que, ao reencontrar a amada pela qual ansiava dia e noite, estariam em posições tão antagônicas. O ódio que emanava de Estela o mantinha a quilômetros de distância. Ele tentou se aproximar apressadamente.
— Não vim me vingar. Eu errei, foi tudo culpa minha. Eu acreditei naquela golpista da Valentina e te machuquei. Ela ainda está presa por mim; ela está passando por tudo o que você sofreu. Você pode puni-la ou descarregar sua raiva como quiser.
Valentina era uma farsa, mas o sofrimento causado por ela fora real. Estela recuou vários passos, enojada.
— Você me traiu.
— Eu... eu fui enganado por ela, ela me seduziu! Estela, vamos deixar isso no passado, pode ser? Eu vim te buscar para irmos para casa.
Ele baixou a guarda totalmente, usando um tom que era quase uma súplica. Mas para cada passo que ele dava à frente, ela recuava dois.
— Casa?
Casa é um lugar cheio de amor, não um lugar de memórias dolorosas. Estela soltou uma risada amarga, engolindo as lágrimas.
— Dimitri, aquilo não era uma casa, era uma gaiola onde você me mantinha presa. Nós nunca fomos casados; a cerimônia foi falsa, sua mãe era falsa, eram todos atores contratados. Até quando você vai me enganar? Eu realmente pensei em passar a vida com você. Enquanto a Valentina me torturava, passei noites dizendo a mim mesma para aguentar porque eu queria estar com você. E você? Você só mentia para mim!
Ele sabia que essa mentira viria à tona cedo ou tarde, mas ainda assim causara esse abismo entre eles.
— Eu tive meus motivos. Eu conheço minha mãe, ela não aceitaria sua origem de imediato. Por isso contratei os atores. Foi porque eu te amo demais e não queria que você sofresse que contei essa mentira piedosa. Eu planejava esperar que ela te aceitasse aos poucos para então registrarmos o casamento e eu te explicar tudo.
Mentiras piedosas exigem sinceridade, e Estela não acreditava que ele tivesse um pingo de sinceridade.
— Foi mentira desde o começo? Então o que é real? No que mais eu deveria acreditar? Dimitri, você só sabe mentir.
— Não, eu só menti sobre isso, eu juro!
Ele levantou a mão direita para jurar, mas Estela nem sequer olhou; virou-se e entrou na cabana.
— Nada disso tem mais a ver comigo.
Mariana, que momentos antes admirava a "devoção" de Dimitri, ao ouvir esses fragmentos da verdade, imediatamente mudou de lado.
— Seu lixo! Só de ouvir essas coisas já sinto ódio! Onde você estava com a cabeça? Você merece mesmo sofrer para tentar reconquistá-la!
Dimitri, porém, manteve a fachada de falsa virtude e pediu com extrema educação:
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