"O Reencontro Sob a Chuva Eterna" Capítulo 9
"Tirem do meu", disse João, arregaçando as mangas para a enfermeira. "Sou tipo O, usem o meu para a emergência."
A enfermeira balançou a cabeça: "Senhor, a paciente tem sangue Rh negativo. Precisa ser uma transfusão do mesmo tipo, o tipo O não serve, causaria uma reação de hemólise grave".
João parou. Rh negativo? Ele sabia que o tipo sanguíneo da sogra era raro, mas não imaginava que fosse esse.
"E... e a Sofia?", o pai de Alice perguntou, agarrando-se à última esperança. "Sofia, você é filha dela, qual o seu tipo?"
A enfermeira olhou para Sofia e depois para os formulários: "Já testamos o sangue da senhorita Sofia. O tipo dela é B positivo. Não é compatível".
"O quê?", o pai de Alice arregalou os olhos, olhando incrédulo para Sofia. João também ficou atônito. Se ambos os pais biológicos de Alice tinham Rh negativo, como seria possível... a menos que?
O sogro claramente pensou o mesmo. Ele olhou para a porta fechada da reanimação e depois para a filha diante dele. Seus lábios tremiam, mas nenhuma palavra saiu.
Capítulo 16
Após a transfusão, a mãe de Alice felizmente saiu de perigo e foi transferida para um quarto comum. Quando a anestesia passou, Sofia aproximou-se imediatamente: "Mãe, a senhora acordou? Como se sente?". Sua voz estava carregada de preocupação, mas continha uma tensão imperceptível.
A mãe de Alice olhou para ela, fixando o olhar em seu rosto.
"Sofia", começou ela, com a voz rouca e seca, exalando um cansaço extremo. "A enfermeira me mostrou o seu relatório de tipagem sanguínea."
O corpo de Sofia ficou rígido e ela desviou o olhar: "Mãe, tipo sanguíneo não prova nada, talvez... talvez o hospital tenha errado na época, ou..."
"Errado?", a mãe fechou os olhos. Ao abri-los, havia uma dor profunda. "Uma vez é erro, mas e duas? Quando te trouxemos de volta, foi por causa das fotos de infância, da marca de nascença e da história dos seus pais adotivos. Mas houve um exame médico depois; eu vi o relatório e tive dúvidas. Mas vendo como você era obediente e pensando que poderia ser algum erro de análise, não tive coragem de deixar você passar pela dor do abandono de novo. Eu me enganei propositalmente."
A cada frase, o rosto de Sofia ficava mais pálido.
"Eu pensava que, como a Alice ocupou o seu lugar por tantos anos, nós devíamos compensar você. Por isso eu te favoreci, te mimei, te dei o melhor e até ignorei a Alice. Maltratei a Alice." Lágrimas rolaram de seus olhos cansados. "Achei que estava corrigindo um erro, que estava agindo conforme a minha consciência."
"Mãe! Não! Não pense assim!", Sofia entrou em pânico, segurando a mão da mãe. "Eu sou sua filha! Nosso carinho de todos esses anos é falso? Eu sei que fui egoísta às vezes, mas é porque tinha medo de perder vocês! Quando descobri que talvez não fosse filha biológica, também tive medo, mas vocês eram tão bons para mim que eu não quis abrir mão desse calor! Eu não quis roubar as coisas da minha irmã, eu só queria ser amada!" Ela chorava copiosamente.
Então, ela já sabia de tudo. A mãe de Alice puxou a mão bruscamente e olhou para Sofia com um olhar de desfecho.
"Vá embora." Ela virou o rosto. "Saia daqui. Não apareça mais na minha frente."
"Mãe?", Sofia sentiu como se tivesse sido atingida por um raio. Não acreditava que a mãe que sempre a protegera diria algo tão cruel. Ela olhou desesperada para o pai silencioso: "Pai! Diga alguma coisa! A mamãe está confusa pela raiva, não está?".
O pai de Alice deu um suspiro profundo, olhando para Sofia com uma mistura complexa de decepção e mágoa. Por fim, ele apenas virou o rosto e acenou com a mão, em um gesto claro.
O coração de Sofia gelou. Ela então olhou para João, que estava de costas para eles junto à janela, e correu para segurar o braço dele: "João! Ajude-me a convencê-los! É só um choque passageiro, nós temos anos de história, fale por mim! Você me conhece melhor do que ninguém!"
João virou-se lentamente. Ele soltou, um a um, os dedos de Sofia de seu braço.
"Sofia", disse ele. "Nós crescemos juntos. Eu valorizo essa amizade."
Uma ponta de esperança surgiu nos olhos dela. Mas João continuou: "Eu não matei a Alice diretamente, mas ela morreu por minha causa. A morte dela está nas mãos de todos nesta sala: nas suas, nas minhas e nas de todos desta família."
Ele observou o rosto de Sofia empalidecer ainda mais. "Pela consideração de tantos anos e pelo fato de você tê-los chamado de pais por tanto tempo, eu pagarei o restante das suas despesas de estudo no exterior. Depois disso, você terá que se virar."
Ele fez uma pausa, o olhar passando pela sogra que chorava na cama e pelo sogro desolado, antes de voltar para Sofia.
"Não volte mais."
Sofia soltou o braço dele, desolada. Recuou dois passos, sem olhar para mais ninguém, e saiu correndo do quarto. O hospital foi tomado por um silêncio mortal.
Capítulo 17
João perdeu a consciência em meio a uma sensação de asfixia aguda. O frasco vazio de soníferos ao lado da urna de Alice, a carta de despedida sobre a mesa cheia de arrependimento e o último olhar de dor profunda que ele lançou à foto do casamento. Ele achou que finalmente encontraria com ela, mesmo que fosse apenas para se ajoelhar e pedir um "perdão" tardio.
No entanto, a escuridão eterna não chegou. Em vez disso, após uma sensação de solavanco, João abriu os olhos bruscamente, ofegante. Percebeu que estava sentado no banco do motorista. Lá fora caía uma chuva torrencial; os limpadores de para-brisa oscilavam freneticamente, mas era difícil ver o caminho.
Ruas familiares passavam rapidamente pela chuva. Onde... ele estava? Olhou confuso para as próprias mãos no volante: eram jovens. As roupas que vestia eram as do seu sobretudo cinza-escuro favorito de três anos atrás. A data no painel do carro o deixou estático.
Três anos atrás! O exato entardecer em que a família de Alice faliu, Sofia foi para o exterior e ele saiu de carro para procurar por Alice.
Reencarnação?! Esse pensamento absurdo veio acompanhado de uma alegria frenética. Seu coração batia tão forte que parecia querer pular do peito. Ele voltou! Voltou para antes da tragédia começar! Para quando Alice ainda estava viva e tudo poderia ser salvo!
Trêmulo de emoção, ele pisou fundo no acelerador, dirigindo em direção ao ponto de ônibus conforme sua memória. Chegou! Era ali! Através da cortina de chuva e dos respingos de água, viu aquela silhueta magra encolhida sob o abrigo. Exatamente como em sua lembrança, encharcada.
O coração de João apertou-se, inundado de uma ternura dolorosa. Ele parou o carro bruscamente e, sem se importar com o guarda-chuva, correu para o frio da tempestade. A água o encharcou em segundos, mas ele só tinha olhos para ela.
"Alice!", ele gritou o nome dela. A figura agachada moveu-se e ergueu o rosto lentamente.
Era ela! Realmente ela! A Alice jovem e viva! João não conseguiu se conter; avançou, abriu os braços e, com toda a força que tinha, envolveu aquele corpinho molhado em um abraço apertado.
"Alice", ele enterrou o rosto nos cabelos molhados dela, a voz rouca. "Alice, eu te encontrei. Não tenha medo, estou aqui. Vamos para casa. Vamos para casa."
No entanto, a pessoa em seus braços não desabou em prantos nem o abraçou de volta como na sua lembrança. Ela o empurrou gentilmente.
João ficou confuso, olhando para ela sem saber o que fazer. Alice ergueu os olhos, com a água da chuva escorrendo pelas bochechas.
"João?", ela o chamou. "Obrigada. Mas estou esperando o ônibus."
Esperando o ônibus? A alegria no rosto de João transformou-se em perplexidade. Ele repetiu mecanicamente: "Ônibus? Esperando o quê? Alice, não brinque, é difícil conseguir transporte com essa chuva, eu te levo. Vamos para o carro, sim?".
Ele tentou pegar a mão dela, mas uma pontada de ansiedade começou a surgir. Alice desviou a mão e olhou para a rua atrás dele. Um carro preto aproximou-se lentamente. O vidro do motorista baixou, revelando um rosto que João não conhecia.
O homem olhou para Alice e assentiu: "Senhorita Alice, o trânsito estava ruim, peço desculpas pelo atraso. Por favor, suba".
Alice fez um aceno educado: "Sem problemas, obrigada pelo esforço, Sr. Carlos".
Então, sem lançar nem mais um olhar para João, que estava paralisado no lugar, ela pegou sua mochila velha, abriu a porta e sentou-se no banco de trás do carro com movimentos decididos. A porta fechou-se com um clique, isolando o vento e a chuva, e também o olhar de incredulidade de João.
Por que... por que estava diferente? O que tinha dado errado nesta vida?
Capítulo 18
A porta do carro se fechou e ela se encostou no estofado macio do banco traseiro, soltando um longo suspiro. As roupas encharcadas colavam na pele, trazendo um calafrio desconfortável, mas seu coração estava estranhamente sereno.
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