"O Reencontro Sob a Chuva Eterna" Capítulo 6
Sofia assentiu entre soluços. “Ela com certeza viu. João... nós... nós não deveríamos ter ficado tão próximos, não é?”
“Não existe 'nós' nesse sentido”, João a cortou bruscamente.
“Escute bem, Sofia”, disse ele, pausadamente. “Três anos atrás, quando sua família faliu, seus pais deram até o último centavo para te mandar para o exterior. E a Alice ficou para trás com todas as dívidas. Ela não teve uma vida fácil nesses três anos.”
“E quanto a mim,” ele fez uma pausa, com a voz pesada, “eu e ela somos casados. Isso é um fato. Sobre aquele diário,” ele evitou o assunto, “isso é passado. Agora, você é apenas minha irmã, irmã da Alice, e nada mais.”
“Agora, volte para o seu quarto.”
Sofia parecia ter sido apunhalada pela frieza dele. O sangue sumiu de seu rosto e ela tremia enquanto as lágrimas fluíam. Diante do distanciamento e da irritação nos olhos de João, ela recuou cambaleante, deu meia-volta e correu para o próprio quarto, batendo a porta com força.
O corredor voltou ao silêncio. João encostou-se no batente da porta e passou a mão pelo cabelo, transtornado.
Alice sabia.
Ela sabia e não disse nada. Esse silêncio era muito mais assustador do que qualquer briga. O que ela estaria pensando? Estaria decepcionada a ponto de planejar ir embora? Por isso aceitou o encontro tão rápido? Ele lembrou das reações quase robóticas de Alice.
Não, as coisas entre ele e Alice não podiam terminar assim. Pelo menos não dessa forma humilhante. Ele precisava se explicar, precisava reconquistá-la. Ela era sua esposa, e isso não mudaria.
João tentou se acalmar, pegou o celular e discou para Alice novamente. Sem resposta. A irritação cresceu. Será que ela não atende porque me viu com a Sofia? Ou ela realmente decidiu se afastar de vez?
Quando ia tentar de novo, um número desconhecido ligou.
“Alô, falo com o senhor João? Aqui é do Hospital Municipal.”
O coração de João deu um salto. “Sim, sou eu. O que houve?”
A voz do outro lado era neutra: “Senhor João, lamentamos informar que sua esposa, a senhora Alice, devido à falência múltipla de órgãos decorrente de um câncer de estômago em estágio avançado, veio a óbito às 23h59 de ontem, após tentativas de reanimação sem sucesso. Por favor...”
Nesse momento, uma última bateria de fogos atrasados explodiu do lado de fora. O estrondo ensurdecedor abafou as palavras do telefone.
“O quê? O que você disse? Quem?”, João não ouviu o resto, captando apenas "hospital" e "esposa". O pânico tomou conta. “O que aconteceu com a Alice? Repita!”
Antes que o médico pudesse repetir, a porta do quarto atrás dele se escancarou. Sua sogra saiu correndo, em prantos e desesperada. “João! O hospital... o hospital ligou dizendo que a Alice... que a Alice se foi!!”
O sogro vinha logo atrás, pálido e tremendo. O mundo de João ficou em silêncio. Ele virou a cabeça mecanicamente e colou o celular no ouvido. A voz do médico agora era clara:
“Senhor João? Está ouvindo? Meus pêsames. Sua esposa, a senhora Alice, faleceu às 23h59 de ontem.”
Capítulo 10
Ao desligar o telefone, João sentiu um frio glacial percorrer seu corpo. Seus dedos tremiam incontrolavelmente. Ele encarou a tela escura do celular. “Não... não é possível...”, murmurou, recusando-se a aceitar aquela notícia absurda.
A sogra, amparada pelo marido, parecia ter passado do colapso inicial para uma negação misturada com raiva. Ela olhou para João, que parecia ter perdido a alma, e disse com a voz rouca:
“João... você não acha que a Alice ficou brava porque viemos viajar sem ela? Será que ela não combinou com o hospital para fazer essa brincadeira de mau gosto e nos assustar?”
O sogro não disse nada, mas sua testa franzida mostrava uma dúvida semelhante e certa irritação.
Brincadeira? Aquela palavra feriu João. Alice? A Alice que sempre fora silenciosa e submissa faria uma brincadeira macabra de "fingir a própria morte"? Mas, no fundo, ele queria desesperadamente que fosse verdade, mesmo que fosse a piada mais cruel do mundo.
Ele precisava de provas. Discou rapidamente para um amigo que morava perto de sua casa.
“Alô? Ricardo? Sou eu, João. Por favor, vá até a minha casa agora. Veja se as luzes da sala ou do quarto estão acesas. Sim, agora, é urgente! Me ligue assim que ver!”
Assim que desligou, a porta de Sofia abriu-se novamente. Ela se aproximou de João e disse suavemente:
“João, pai, mãe... não fiquem tão preocupados. A saúde da minha irmã sempre foi boa, deve ser apenas um problema leve de estômago. Com certeza isso é...” Ela mordeu o lábio, os olhos cheios de lágrimas, e baixou a cabeça com culpa. “Com certeza a culpa é minha. Eu voltei e tirei a atenção de todos. Ela deve ter se sentido deixada de lado e resolveu fazer essa cena para chamar atenção.”
Ela olhou para João e para os pais com um olhar suplicante. “Mas a minha irmã exagerou desta vez... como ela pôde escolher o Ano Novo para assustar todo mundo com algo assim? Fez vocês ficarem nesse estado... eu não devia ter voltado agora.”
A mãe de Alice soltou um longo suspiro de alívio. A tensão em seu rosto se dissipou, dando lugar a uma mistura de carinho pela "compreensão" de Sofia e irritação pela "imaturidade" de Alice. “Sofia, não se culpe por tudo. Ela é quem não tem juízo! Uma mulher feita fazendo essas criancices! Quando voltarmos, ela vai ouvir umas boas!”
O pai de Alice assentiu, claramente preferindo acreditar naquela versão.
Apenas João continuava a tremer. As palavras de Sofia soavam como vento, mas não conseguiam afastar o pressentimento sombrio que crescia em seu peito. Ele lembrou da chamada de vídeo cortada, do som longo do monitor, da forma como a imagem dela desapareceu.
Alice não era assim. Ela jamais brincaria com a morte. Jamais.
Ele ia retrucar a sogra, quando sentiu algo roçando em sua perna. Era o Floquinho, o cachorro de Sofia. O animal estava com a cabeça baixa, ganindo de dor, e de repente vomitou novamente no chão do hotel.
Capítulo 11
— Ah! Floquinho! Por que você vomitou de novo? — Sofia soltou um grito de susto e imediatamente se agachou, pegando o cachorrinho nos braços com os olhos marejados de preocupação enquanto olhava para João. — João, o que eu faço? O Floquinho parece estar pior! Ele já estava mal antes e agora vomitou de novo. Não conhecemos nada nesta cidade, não sei qual clínica veterinária é boa. Você poderia nos levar para procurar um hospital? Estou muito preocupada.
A mãe de Alice concordou imediatamente: — Isso mesmo, João, leve a Sofia e o Floquinho logo! Um animal também é uma vida, não podemos demorar! Quanto à Alice, esperamos ela responder depois. Com certeza é apenas uma brincadeira de mau gosto!
João olhou para o pequeno cão nos braços de Sofia e sentiu uma onda de absurdo e impotência atingi-lo. Ele quis recusar, quis dizer que o mais importante agora era confirmar a situação de sua esposa, mas ao ver os rostos ansiosos dos sogros e de Sofia, as palavras morreram em sua garganta.
— ... Está bem — ele finalmente cedeu, com a voz seca. — Vou pegar o carro.
Os sogros, ainda inquietos, decidiram acompanhá-los. O carro saiu do estacionamento do hotel e entrou no fluxo esparso de veículos da madrugada de Ano Novo. O clima dentro do automóvel era opressivo, quebrado apenas pelos ganidos ocasionais do cão e pelos sussurros de consolo de Sofia.
No banco de trás, a mãe de Alice continuava a resmungar: — Quando voltarmos, vou dar uma bronca daquelas na Alice! Que falta de juízo! Fazer a família inteira sair no meio da noite de Ano Novo para procurar um hospital por causa de um cachorro... onde já se viu uma coisa dessas?
João segurava o volante, mantendo os olhos fixos na estrada, sem dizer uma palavra. Seu coração parecia estar sendo assado em fogo lento. O celular estava no suporte ao lado, com a tela escura, aguardando o retorno crucial da ligação.
— João, vire à direita no próximo cruzamento. Vi no GPS que parece haver uma clínica 24 horas por ali — disse Sofia, apontando para o aparelho.
João deu a seta e preparou-se para a conversão. No exato momento em que a frente do carro ia entrar na rua à direita...
Triiiiiiim!
O toque estridente do celular ecoou subitamente, cortando o silêncio da cabine. O Bluetooth do carro conectou-se automaticamente e a voz de seu amigo Ricardo saiu pelos alto-falantes, carregada de dúvida: — Alô, João? Acabei de chegar na frente do seu prédio. As luzes do seu apartamento estão todas apagadas, não tem brilho nenhum. Eu bati na porta, mas ninguém atende. Sua esposa não está em casa?
A corda de tensão na mente de João arrebentou. Se fosse uma brincadeira, por que não haveria ninguém em casa? Se Alice quisesse apenas pregá-los uma peça, não deveria estar lá esperando para ver a reação deles? Ela não estava bem de saúde; onde poderia estar a essa hora? A menos que... a menos que o hospital estivesse dizendo a verdade.
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