"O Reencontro Sob a Chuva Eterna" Capítulo 5
“Mãe, não fale assim com ela”, a voz de João interveio. Ele virou a câmera de volta para si. “A Alice não está bem de saúde, a senhora sabe.”
Ele sorriu de forma reconfortante para Alice e levantou-se, caminhando para o que parecia ser uma sacada. O barulho de fundo diminuiu, dando lugar ao som do vento e aos estouros mais nítidos de fogos ao longe.
“Alice, veja os fogos.”
Ele apontou a câmera para o céu. Na tela, grandes flores de luz desabrochavam na escuridão, multicoloridas, iluminando a noite por um instante antes de desaparecerem em fumaça.
Era lindo.
Alice observava aquele brilho efêmero, mas sua visão tornava-se cada vez mais turva. O som da TV, a voz de João contando detalhes da viagem, falando sobre a melhora do cachorro e sobre os petiscos que traria para ela provar... tudo começou a soar distante.
“Alice? Está me ouvindo?” João pareceu notar o silêncio.
“Sim...”, ela respondeu em um fio de voz quase imperceptível.
Na televisão, o especial chegava ao clímax. O apresentador e o público começaram a contagem regressiva em coro:
“Dez!”
“Nove!”
“Oito!”
Vindo da direção do centro da cidade, o som dos fogos se fundiu em um rugido constante para receber o novo ano.
“Sete!”
“Seis!”
“Cinco!”
A voz de João e a contagem da TV se sobrepuseram. Ele aumentou o tom, cheio de alegria e votos de felicidade: “Alice! Feliz Ano Novo! Nós vamos, em breve...”.
“Quatro!”
“Três!”
“Dois!”
No último segundo, o aparelho de monitoramento no quarto emitiu um som agudo e contínuo:
“Pi————”
A mão de Alice, que ela mantinha erguida com esforço para esconder a câmera, perdeu toda a força e caiu pesadamente sobre o lençol branco. O celular escorregou de seus dedos inertes, caindo sobre o travesseiro macio.
Do outro lado, João continuava gritando entusiasmado: “Feliz Ano Novo! Espere eu chegar em casa, Alice!”.
Capítulo 8
“Alice? Alice? O que houve? O celular caiu? Alice?”
João gritou para a tela do celular, que agora mostrava apenas um borrão do lençol e do teto. Os fogos de artifício continuavam a explodir do lado de fora, iluminando seu rosto em flashes de luz e sombra. O sentimento de leveza da virada de ano foi rapidamente substituído por uma inquietação inexplicável.
No entanto, antes que obtivesse qualquer resposta, a voz risonha de Sofia veio da sala da suíte do hotel:
“João! Vem logo! Mamãe disse para fazermos um brinde para celebrar o Ano Novo! Para de falar no telefone!”
Logo em seguida, veio a voz carinhosa de sua sogra: “João, é Ano Novo! O que tiver para falar, fale quando voltarmos! Vem logo, estamos só te esperando!”
João franziu a testa e chamou mais duas vezes por Alice. O único retorno foi o som longo e monótono de algum aparelho vindo do outro lado, misturado ao som abafado da televisão.
Deve ter caído, o sinal deve estar ruim, pensou ele. A agitação vinda da sala ajudou a dissipar um pouco daquela angústia. Talvez Alice estivesse apenas exausta e tivesse caído no sono, deixando o aparelho escorregar. Ultimamente, ela estava sempre sem energia.
Ele finalmente apertou o botão para encerrar a chamada e a tela escureceu. Ao se virar, voltou para a sala iluminada e acolhedora. Sobre a mesa, garrafas de vinho e suco pela metade; na TV, o especial de Ano Novo continuava com canções alegres.
Sofia, com as bochechas levemente coradas e olhos brilhantes, entregou-lhe uma taça. A mãe de Alice tinha um sorriso satisfeito, e o pai, embora calado, parecia relaxado.
“Um brinde! Feliz Ano Novo! Que nossa família tenha muitos momentos como este!”, celebrou a mãe, transbordando felicidade.
“Feliz Ano Novo!”, Sofia ecoou imediatamente, com a voz cheia de esperança.
“Feliz Ano Novo”, disse João, brindando com elas.
Ao dar um gole no vinho, porém, João sentiu um vazio em algum lugar do peito, como se aquela ligação interrompida tivesse deixado uma pequena ferida aberta.
“A Alice também, em pleno Ano Novo, não tem a decência de ligar para desejar felicidades, você que teve que ligar”, disse a sogra ao baixar a taça, com seu tom habitual de desdém. “Atende e nem mostra o rosto, some sem dizer nada... com certeza é birra. Não age como uma irmã mais velha; a Sofia nunca faria algo assim.”
João ouviu e franziu o cenho involuntariamente. Era verdade, Alice estava estranhamente "calma" ultimamente, quase sem vida. Diferente de antes, quando demonstrava mágoa ou insatisfação por causa de Sofia. Agora, parecia que ela aceitava tudo, que nada mais importava.
E se ela estivesse aqui...
O pensamento surgiu de repente. Se ela estivesse naquela sala quente e alegre, sentada ao lado dele, como seria? Provavelmente estaria quieta em um canto, pálida, forçando um sorriso para acompanhar os outros, exatamente como no jantar de aniversário da mãe.
Essa imagem mental trouxe um aperto súbito ao coração de João e uma irritação difícil de explicar. Ele cortou o pensamento e interrompeu as reclamações da sogra.
“Mãe, está ficando tarde e o dia foi cansativo. É melhor descansarmos”, disse ele, baixando a taça. “Não íamos visitar a vila histórica amanhã cedo?”
A mãe olhou para o relógio e bocejou. “É verdade, a idade chega e a gente não aguenta mais virar a noite. Sofia, vá dormir também.”
“Pode deixar, mãe”, respondeu Sofia, obediente.
João acompanhou os sogros até o quarto deles e viu Sofia entrar no quarto de hóspedes ao lado do seu.
“Boa noite, João”, disse Sofia na porta, com um sorriso radiante.
“Boa noite”, ele retribuiu. A beleza daquele sorriso ajudou a dispersar um pouco da estranheza causada por Alice.
Ele entrou em seu próprio quarto e fechou a porta, isolando-se do barulho externo. O silêncio se instalou, quebrado apenas por estalidos distantes de fogos. Tirou o paletó, sentou-se na beira da cama e, por instinto, pegou o celular para ver o registro de chamadas. A última era aquela chamada de vídeo interrompida.
Ele hesitou, mas não ligou de volta. Talvez ela tenha dormido mesmo. É Ano Novo, não há por que acordá-la. Ligo amanhã de manhã, disse a si mesmo. Estava prestes a se levantar para o banho quando ouviu batidas suaves na porta.
“João? Está acordado?”, era a voz suave de Sofia.
João abriu a porta. Sofia usava um pijama macio, com um casaco por cima, abraçando o próprio travesseiro. Estava descalça sobre o tapete felpudo do corredor.
“Sofia? O que houve? Por que não está dormindo?”, perguntou João.
Sofia mordeu o lábio inferior e olhou para ele com um toque de fragilidade e manha. “João, estou com medo. O quarto é grande demais... posso dormir com você esta noite? Como fazíamos quando éramos crianças?”
Ela deu um pequeno passo à frente, quase encostando nele. O rosto erguido e os cílios tremendo a faziam parecer uma figura digna de proteção. João ficou estático. Olhando para aquele rosto tão próximo, as memórias da infância, os arrependimentos do passado e a agitação do reencontro inundaram seus pensamentos. O corredor estava silencioso, e o ar parecia carregado de uma tensão ambígua.
Ele abriu a boca, sentindo a garganta seca.
Capítulo 9
No instante em que o “está bem” quase escapou de seus lábios, o rosto de outra pessoa surgiu em sua mente. Pálido, sereno.
Uma irritação súbita substituiu o clima de sedução. Ele franziu a testa, deu meio passo para trás para criar distância e disse com clareza: “Sofia, pare com isso”.
A expectativa no rosto de Sofia congelou, transformando-se em choque e mágoa. “João...”
“O que houve entre nós ficou no passado”, João a interrompeu, com o tom firme. “Já disse que agora te vejo apenas como uma irmã.”
“Irmã?”, a voz de Sofia subiu de tom, carregada de uma indignação chorosa. “Apenas uma irmã? Então por que você registrou cada dia do nosso reencontro naquele diário e postou naquela conta secreta? Você tem ideia de como eu me sinto cada vez que leio aquilo? De como eu não consigo evitar ter... ter esperanças?”
Ela finalmente gritou o que estava guardado, as lágrimas rolando pesadamente. João ficou em choque. Sua expressão mudou da calma para o espanto e para uma vergonha por ter seu segredo exposto. “Como... como você sabe daquela conta?”
Ele tinha certeza de que havia escondido bem. Ninguém deveria saber.
Sofia, vendo o pânico dele, sentiu um misto de mágoa e um prazer vingativo. “Como eu sei? Eu vi no celular da Alice! Ela segue aquela conta, ela leu cada palavra, tudo!”
Um estrondo mental atingiu João.
Alice sabia.
Aquela conta, os registros, todos os seus sentimentos ocultos sobre o reencontro, a nostalgia e até o ressentimento por ter sido abandonado no passado... Alice sabia de tudo!
Por isso... por isso ela esteve tão silenciosa e calma nos últimos meses. Por isso ela aceitou tão facilmente a sugestão da mãe de "ceder o lugar" e ir a um encontro. Por isso ela reagia com tanta frieza ou indiferença aos cuidados dele.
“Então, todo o comportamento estranho dela foi por causa disso?”, João perguntou a Sofia, com a voz sombria.
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