"O Reencontro Sob a Chuva Eterna" Capítulo 3
Capítulo 4
No dia seguinte, Alice arrastou seu corpo pesado para fora do banco. A tela do celular mostrava a notificação de uma transferência bem-sucedida. Ela se encostou na estrutura fria do caixa eletrônico e soltou um suspiro profundo.
Estava pago. A última dívida deixada pela falência da família estava finalmente quitada antes de sua partida.
De repente, sua visão escureceu. O saguão do banco começou a girar e as vozes ao redor tornaram-se distantes. Ela tentou se segurar em algo, mas seus braços não tinham força para se levantar.
Quando Alice abriu os olhos novamente, demorou a recuperar o foco.
“Você acordou?”, perguntou uma voz feminina de meia-idade, carregada de preocupação. Alice virou a cabeça com esforço e viu uma senhora de aparência gentil ao lado da cama.
A senhora se aproximou. “Você desmaiou no banco. Vi que o contato de emergência era seu marido e tentei ligar várias vezes, mas ninguém atendeu. Liguei para 'Pai' e 'Mãe', e também não atenderam. Não tive escolha a não ser ficar aqui cuidando de você.”
Alice pegou o celular e abriu o registro de chamadas. Ver aquela sequência de números vermelhos em "Marido", "Pai" e "Mãe" fez suas pontas dos dedos gelarem.
Nesse exato momento, o celular vibrou. Era João.
“Ai, atende logo! Com certeza é o seu marido procurando por você!”, incentivou a senhora.
“Alô?”, a voz de João veio do outro lado. “Alice? Você ligou? Meu celular estava no silencioso, não ouvi. Aconteceu alguma coisa?”
Alice abriu a boca, mas sua garganta parecia bloqueada; nem uma palavra saía. A senhora ao lado, perdendo a paciência, pegou o celular e disse com urgência: “Alô? Você é o marido dela? Sua esposa desmaiou e está agora no pronto-socorro do Hospital Central!”
Houve um silêncio de alguns segundos. Então, a voz de João retornou, com uma mistura de choque e uma leve pontada de pânico: “Hospital? Desmaiou? O que... o que aconteceu com ela?”.
Cerca de vinte minutos depois, João chegou apressado. Ele tinha gotas de suor na testa e a respiração ofegante. Seu olhar percorreu Alice, que estava sentada e parecia não ter ferimentos graves, e ele franziu o cenho com força.
“O que houve com você?”, ele se aproximou. “Sua mãe acabou de me dizer que você provavelmente está fingindo estar doente de novo para me prender a você. Alice, como você ainda usa esse truque?”
“Você tem ideia de que dia é hoje? Eu finalmente consegui os ingressos para o musical que a Sofia tanto queria ver! Era a última apresentação que ela queria assistir com a nossa família antes de ir embora! Por sua causa, está tudo arruinado!”
“Família?”, Alice finalmente falou, sua voz era leve como uma pena. “A família de vocês não me inclui?”
João ficou atônito com a pergunta. Ao olhar para o vazio nos olhos dela, um desconforto e uma culpa inexplicáveis atravessaram seu peito. Ele desviou o olhar, suavizando o tom. “Não foi isso que eu quis dizer, Alice. Se você quiser ver o musical, podemos ir em outra ocasião, a qualquer hora. É que esses ingressos foram muito difíceis de conseguir, só consegui quatro, e a Sofia já está de partida.”
“Quatro.” Alice repetiu e deu um sorriso amargo. “Pai, mãe, Sofia e você. O número exato.”
Aquele sorriso deixou João ansioso. Ele segurou a mão gelada dela. “Alice, não fique assim. Assim que a Sofia for embora, eu te levo, está bem?”
“Eu estou bem agora”, Alice puxou a mão de volta. “Foi só uma queda de pressão, coisa antiga. Pode ir, não perca o espetáculo.”
João olhou para o rosto calmo dela, depois para o relógio. Hesitou por alguns segundos. “Você tem certeza? Consegue ir sozinha?”
“Sim”, Alice assentiu. “Vou pegar um táxi daqui a pouco.”
João pareceu lutar consigo mesmo por um instante, mas, por fim, virou-se e saiu apressado do pronto-socorro, sem olhar para trás nem uma única vez. A senhora que a ajudara observava a cena boquiaberta. Ela suspirou e entregou um copo de água morna para Alice.
Ela nunca tinha visto um musical. De repente, sentiu uma vontade imensa de saber como era aquela apresentação que João valorizava tanto, que Sofia esperava tanto e que tornava a "família" tão completa.
A fachada do teatro estava esplêndida, com um mar de gente. Ela foi até a bilheteria. “Com licença, ainda tem ingressos para 'O Retorno do Tempo'? Qualquer lugar serve, eu pago a mais.”
O funcionário a olhou com estranheza. “‘O Retorno do Tempo’? Essa peça nunca enche. Tem muitos ingressos, não precisa pagar a mais. Qual setor você deseja?”
Alice ficou paralisada.
Ao entrar no teatro escuro, a peça já havia começado. As luzes no palco eram belas e as vozes dos atores, melódicas, mas ela não conseguia absorver nada. Seus olhos estavam fixos na primeira fileira, bem no centro.
Lá, quatro pessoas estavam sentadas lado a lado. O pai mantinha a cabeça levemente erguida, a mãe inclinava-se para sussurrar algo para Sofia com um sorriso afetuoso. Sofia observava o palco com atenção, soltando exclamações de admiração de vez em quando. João estava na ponta; seu perfil parecia suave sob as luzes do palco, seu olhar alternando entre a cena e, ocasionalmente, Sofia.
Alice estava sentada em um canto distante, como uma ladra espiando a felicidade alheia.
Ela não sabia como conseguiu aguentar até o final. Quando as luzes se acenderam, ela baixou o rosto apressadamente e saiu com a multidão, querendo apenas evitá-los. No pânico, entrou no banheiro e se escondeu em uma cabine, encostando-se na divisória fria para acalmar o coração que parecia querer saltar do peito.
Nesse momento, vozes familiares vieram de fora.
“Mãe, aqui está o dinheiro para as despesas deste mês”, disse a voz de Sofia em tom mimado.
“Ah, veja só a minha cabeça!”, respondeu a mãe com carinho. “Hoje cedo sua irmã me transferiu uma quantia, disse que era a última parte da dívida. Vou transferir para você agora mesmo. Não se prive de nada lá fora, compre o que quiser.”
“Obrigada, mãe! Mas, se a minha irmã souber que o dinheiro que ela suou tanto para pagar a dívida nesses anos na verdade foi para o meu sustento, porque a dívida não era tão grande assim... ela ficaria brava?”, a voz de Sofia tinha um leve tom de ansiedade.
Dentro da cabine, Alice ficou estática.
A voz despreocupada da mãe respondeu: “Brava com o quê? Ela é a irmã mais velha, cuidar de você e te ajudar é obrigação dela. A Alice é ajuizada, ela vai entender”.
O som da torneira sendo aberta abafou o restante da conversa. Alice, no cubículo apertado, tremia inteira. Ela não sabia quanto tempo ficou ali parada, até que suas pernas ficaram dormentes. Só então empurrou a porta mecanicamente e saiu cambaleante.
Quando estava quase chegando à saída do teatro, seu olhar captou, não muito longe, Sofia segurando carinhosamente o braço da mãe. Com a outra mão, Sofia segurava a coleira de um cachorrinho branco de estimação, muito bem cuidado.
O lenço que deveria estar no pescoço da mãe, carregando o último gesto de carinho de Alice, havia sido dobrado de qualquer jeito e amarrado rudemente como uma coleira improvisada no pescoço do cachorro. Enquanto o animal pulava, o lenço arrastava-se pelo chão polido.
Capítulo 5
Faltava uma semana para o Ano Novo. Alice estava encolhida na cama; o efeito do analgésico tinha acabado de passar e uma nova onda de dor aguda começava a se espalhar pelas profundezas de seu estômago.
A campainha tocou. Alice abriu a porta.
“Mãe.”
Sua mãe a mediu de cima a baixo, franzindo a testa por hábito: “Em pleno dia e você ainda está com essa cara péssima? Não dormiu direito?”.
“Sim.” Alice deu um passo para o lado, deixando-a entrar.
“Vim aqui hoje porque tenho algo para te falar.” A mãe limpou a garganta, fixando o olhar no rosto de Alice. “É o seguinte: depois do Ano Novo, tem o filho de um parente da Dona Regina, aquela minha amiga. Ele acabou de chegar do exterior, é um bom rapaz e tem um ótimo emprego. Estava pensando em marcar um encontro para vocês se conhecerem.”
Alice ficou estática, sem processar a informação de imediato.
“Um encontro, Alice. Para se conhecerem”, repetiu a mãe. “Você sabe que sua irmã e o João terminaram na época por causa dos problemas da família e porque ela foi morar fora. Foi um desencontro. Agora que ela voltou, ela disse que não quer mais ir embora.”
A mãe fez uma pausa, observando a reação de Alice. Vendo que ela apenas permanecia pálida, sem explosões, continuou: “Penso que o seu casamento com o João foi algo apressado. Já que sua irmã tem esse desejo e o João ainda sente algo por ela, se você for ajuizada, saberá o que fazer. Mesmo que se divorciem, você, o João e a nossa família ainda seremos uma só. Eu te arranjo alguém melhor, você não vai sair perdendo”.
Ela terminou de falar e ficou olhando para Alice, esperando a rejeição, o choro ou, no mínimo, um questionamento indignado. No entanto, Alice apenas continuou sentada em silêncio. Ela ergueu os olhos e encarou a mãe.
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