"O Reencontro Sob a Chuva Eterna" Capítulo 2
João olhou para cima, franziu levemente a testa e fez um sinal com os lábios: “Abra a porta. Ela dormiu, faça silêncio”.
Assim que a porta abriu uma fresta, João entrou de lado. A porta do quarto principal foi empurrada suavemente e fechada logo em seguida. Lá de dentro, vinham sons de um conforto que era quase um sussurro, e o ruído de lençóis sendo arrumados.
Depois de um longo tempo, João saiu, fechando a porta com cuidado.
Ele caminhou até a sala. “Ainda não dormiu?”, perguntou em voz baixa. “A Sofia bebeu demais, não estava se sentindo bem e estava difícil conseguir um táxi, então a trouxe para cá. Ela vai dormir aqui esta noite.” Ele fez uma pausa, como se explicasse ou desse uma ordem. “Vá para o quarto de hóspedes por hoje.”
O olhar de Alice moveu-se do rosto dele para a porta fechada do quarto principal, e depois voltou.
João pareceu se lembrar de algo e deu dois passos à frente: “A propósito, por que você ligou tantas vezes hoje? Aconteceu alguma coisa?”.
Ele notou a palidez dela e o suor frio em sua testa, franzindo a testa novamente. “Por que você está com essa cara? O estômago atacou de novo?”.
Alice balançou a cabeça. Seus lábios se moveram, mas nenhum som saiu.
“Que bom que não é nada”, João disse, parecendo aliviado. “A Sofia não vai ficar muito tempo, ela vai embora depois do Ano Novo. Quero passar este último mês com ela.”
A dor no estômago de Alice vinha em ondas cada vez mais fortes, drenando todas as suas forças. Ela abriu a boca e sua voz saiu fraca: “João... eu... este mês, eu também não estou me sentindo bem”.
Ela ergueu os olhos para ele, esperando que, talvez, ele demonstrasse preocupação como antigamente e a levasse ao hospital imediatamente.
Mas o cenho de João se fechou ainda mais. Ele olhou para Alice com um tom de reprovação e incompreensão: “Alice, a Sofia finalmente voltou por um tempo. Você sempre gostou de competir com ela quando era criança, por que continua assim agora que cresceu?”.
Ele suspirou. “Pare com isso, está bem? Temos o resto da vida pela frente, você pode ter minha companhia pelo tempo que quiser depois. Só este mês, deixe o espaço dela, sim?”.
A dor no estômago e o gelo no coração de Alice se fundiram em uma dormência completa.
Ela forçou um canto de sorriso. “Entendi.”
Capítulo 3
Durante a semana seguinte, João raramente aparecia em casa. No entanto, todas as noites, pontualmente às sete e meia, a notificação de entrega de comida brilhava na tela do celular de Alice. Logo depois, vinha a mensagem dele: “Tome o mingau enquanto está quente, coma na hora certa, não me deixe preocupado”.
Ela se lembrou de como era no passado. Não importava o quão ocupado João estivesse, ele sempre dava um jeito de voltar e passar uma ou duas horas na cozinha, preparando lentamente uma sopa que ela gostava. Ele dizia que comida de rua não era limpa e que nada superava o cuidado de algo feito em casa.
Alice nunca mais tocou nos pratos que ele enviava.
Em vez disso, ela abria aquela conta secreta com uma calma gélida. Como esperado, havia atualizações diárias.
“Sexagésimo quinto dia do reencontro. Levei ela para visitar nossa antiga escola. Caminhamos pela alameda arborizada e parecia que nada havia mudado.”
“Sexagésimo sétimo dia do reencontro. Ela pegou um resfriado. Comprei remédios e preparei um chá de gengibre. Ela ainda não sabe cuidar de si mesma.”
“Septuagésimo dia do reencontro. Fui com ela ver alguns apartamentos. Ela quer construir um lar aqui no país também.”
Na segunda semana, Alice foi sozinha ao hospital para os exames de retorno. O processo da quimioterapia era doloroso e interminável. Seguiu-se uma náusea avassaladora; ela vomitou tanto no banheiro do hospital que sentiu como se fosse expelir a própria bile. Observando no espelho seu rosto cadavérico e o cabelo tão ralo que já não cobria o couro cabeludo, ela abriu a torneira e lavou o rosto repetidamente com água gelada.
Assim que chegou à escada, o celular tocou. O nome "Pai" brilhava na tela. Alice hesitou. Seu pai raramente ligava por iniciativa própria. Ela atendeu, mas antes que pudesse dizer uma palavra, a voz furiosa dele disparou do outro lado:
“Alice! Onde você se meteu hoje? Você tem noção de que hoje é o aniversário da sua mãe? A família inteira está esperando por você para jantar até agora! Sua mãe passou a tarde toda se matando na cozinha e você simplesmente esquece?”
Os dedos de Alice apertaram o aparelho com força, as unhas cravando na palma da mão. Com o tormento das sessões de quimioterapia e as dores cada vez mais intensas, ela realmente havia esquecido.
“Desculpa, pai”, sua voz saiu baixa, com uma fraqueza que ela não conseguia esconder. “Eu...”
“Não invente desculpas!”, ele a interrompeu. “Venha para cá agora mesmo! A comida vai esfriar!”
A ligação foi encerrada bruscamente. Alice ficou ali, ouvindo o sinal de ocupado no corredor movimentado do hospital por um longo tempo. Seu estômago revirava e a náusea que acabara de reprimir voltou com tudo. Ela se apoiou na parede fria, respirou fundo várias vezes e só então conseguiu controlar a tontura.
No caminho, ela pediu ao motorista que parasse em frente a uma loja de lenços de luxo. Entrou e, usando o pouco saldo que restava em sua conta, escolheu o modelo mais novo recomendado pela vendedora. Aquele seria, provavelmente, o último presente de aniversário que daria à mãe.
A porta se abriu rapidamente. Sua mãe estava lá com um sorriso radiante, mas, ao ver Alice, a expressão murchou instantaneamente, sendo substituída por um descontentamento e um desprezo indisfarçáveis. Ela mediu Alice de cima a baixo, notando o rosto pálido e os olhos sem brilho.
“Como você ficou com essa aparência horrível?”, a voz da mãe era aguda e impaciente. “Tão sem vida, chega a dar agonia só de olhar! Veja a Sofia, tão iluminada, traz alegria para quem vê!”
O coração de Alice doeu de uma forma sufocante. Ela baixou os cílios, sem retrucar, e apenas disse suavemente: “Mãe, feliz aniversário”. Ela entregou a caixa sofisticada com o lenço.
A mãe deu uma olhada rápida, não pegou o presente e apenas deu espaço para ela passar. “Entre logo, só faltava você.”
Alice entrou. A mesa estava farta: camarões ao alho e óleo, caranguejos no vapor, frutos do mar e sopa de peixe. João levantou-se imediatamente e puxou a cadeira ao lado dele.
“Desculpa, Alice”, João sussurrou ao se aproximar. “Estive muito ocupado. Só soube que hoje era o aniversário da sua mãe porque a Sofia comentou. Eu ia te avisar, mas esqueci na correria. A Sofia me chamou para vir agora há pouco.”
Alice assentiu com serenidade. “Tudo bem.”
João estranhou a reação excessivamente calma dela. Nesse momento, Sofia colocou um pedaço de caranguejo no prato da mãe. “Mãe, a senhora se esforçou tanto! Experimente esse caranguejo que a senhora mesma fez. Seu tempero está cada vez melhor!”
“Ah, sua boba, sempre com essas palavras doces!”, a mãe ria sem parar e retribuía o carinho colocando um camarão no prato de Sofia. “Coma bastante, se você gostou!”
O clima na mesa voltou a ficar animado. O pai bebericava seu vinho, a mãe e Sofia conversavam alegremente, e João intervinha ocasionalmente, com o olhar sempre voltando para Sofia de forma inconsciente. Alice permanecia em silêncio, com o prato vazio à sua frente. Ela serviu-se apenas de um pouco de brócolis com alho, que era o prato mais próximo, e comia pequenas porções de arroz branco.
“Alice, por que não come os outros pratos?”, a mãe percebeu e franziu a testa novamente. “Será que agora que você tem sua própria vida, a minha comida não é mais boa o suficiente para você?”
Um silêncio súbito caiu sobre a mesa. João olhou ao redor e pareceu se dar conta de algo. “Mãe, a Alice é alérgica a frutos do mar. Tem muita coisa aqui que ela não pode comer.”
A mãe hesitou por um segundo, olhou para a mesa cheia de camarões e caranguejos, e depois para o pequeno prato solitário de Alice com vegetais. Um leve desconforto passou por seu rosto, mas logo foi substituído por irritação.
“Sempre cheia de frescura!”, resmungou. “Não pode comer isso, não pode comer aquilo... Não admira que esteja magra como um esqueleto.”
Dito isso, ela não olhou mais para Alice. Voltou-se para Sofia com um sorriso largo. “Sofia, esse peixe está delicioso, experimente! A mamãe descasca o camarão para você.”
João olhou para a tigela de arroz de Alice, que estava quase intocada, e para o perfil magro dela. Sentindo um aperto de culpa, ele colocou um pedaço de carne assada no prato dela. “Coma isso primeiro. Quando voltarmos, preparo algo gostoso para você, aquele mingau que você gosta.”
Alice olhou para a carne gordurosa em seu prato e sentiu seu estômago revirar. Aquele era o jantar de aniversário da "família" pelo qual ela esperara por tantos anos.
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