"Memórias de um Amor Perdido" Capítulo 13
Embora o homem que falara com ela estivesse com a voz rouca, o timbre era muito parecido com o dele.
Quando ele segurou seu pulso, o calor das pontas dos dedos e o perfume familiar transmitiram a Talita uma única mensagem.
Era o Xavier Silva.
Mas o que ela não entendia era: por quê?
Por que ele apareceria ali?
Ele a esquecera há muito tempo e já devia estar casado após esses três anos.
Será que ele recuperara a memória?
Um sorriso amargo surgiu no rosto de Talita; ela riu de si mesma.
Talita, Talita... o que você está esperando?
Mesmo que ele tenha lembrado, o casamento dele e a sua cegueira são obstáculos intransponíveis entre os dois.
Talvez eles realmente não fossem feitos um para o outro.
Um amor que deveria ter sido comum passou por tantas provações; isso só provava que esse relacionamento não era destinado a dar certo.
“Tali, venha depressa! Seu irmão trouxe algo gostoso para você.” A voz alegre de Zilah soou do lado de fora. Talita balançou a cabeça negativamente; ela não devia se afundar em sofrimentos hipotéticos, havia muito mais o que fazer neste mundo.
Mesmo que não fosse por si mesma, ela precisava viver bem por seus pais e sua família.
“Já estou indo!” Talita levantou-se devagar, e Babu roçou em suas pernas, como se tentasse consolar seu humor alterado.
Capítulo 29
Assim que Talita entrou no pátio, Zilah começou a conversar com ela alegremente.
Talita respondia suavemente, mas notou que não ouvira a voz de Murilo por um bom tempo.
Ela perguntou: “O Murilo... meu irmão está no pátio?”
“Estou aqui”, a voz de Murilo soou profunda, sem muita diferença do habitual, mas Talita instintivamente sentiu que o humor dele não estava bom.
Lembrando-se do encontro com Sofia, ela sentiu-se culpada e um pouco apreensiva.
“Você não disse que ia viajar a trabalho? Como teve tempo de voltar hoje?” perguntou ela com a voz hesitante.
Murilo já estava irritado e, ao ouvir o tom pouco natural da irmã, o alerta ligou em sua mente: “Talita Rocha, você aprontou alguma coisa?”
“Eu não! O que eu poderia aprontar se nem enxergo?” rebateu ela rapidamente.
Zilah interveio, franzindo o cenho para o filho: “Sua irmã fica em casa quietinha o dia todo, o que ela poderia ter feito?”
Murilo massageou as têmporas e disse com a voz fria: “Certo. É bom que eu não descubra nada.”
Talita mordeu o lábio, mexendo na comida que a mãe lhe dera como se estivesse descontando a frustração.
“Não vai descobrir”, respondeu ela de forma ríspida, sem deixar claro se queria dizer que não aprontaria ou que não deixaria que ele soubesse.
Murilo soltou um longo suspiro. Mulheres eram mesmo complicadas.
“Não vou jantar em casa hoje, tenho compromisso.”
Dito isso, Murilo pegou seu paletó e saiu rapidamente.
Talita sentiu apenas o deslocamento do ar e ouviu as recomendações de sua mãe.
...
No dia seguinte, Talita entregava as flores para Bia conforme o solicitado.
Subitamente, uma voz feminina veio da porta: “Senhorita Rocha, tem um momento? Gostaria de conversar com você.”
Era Sofia. Ela vestia um vestido longo preto e exalava uma aura gentil e intelectual.
Bia não vira Sofia da última vez, apenas transmitira o recado através de terceiros. Agora, vendo a beleza de Sofia, não pôde deixar de pensar que pessoas bonitas sempre andam com pessoas bonitas.
Ao ser chamada de repente, Talita levou um susto, espetando o dedo no espinho de uma rosa e soltando um gemido de dor por instinto.
Bia correu para ajudá-la. Sofia, na porta, também ficou surpresa e caminhou em direção a elas.
Tudo estava escuro diante de Talita; sentindo alguém se aproximar subitamente, seu coração apertou e seus nervos ficaram à flor da pele, assumindo uma postura defensiva por reflexo.
“Tali, sou eu”, disse Bia. Após meses convivendo com ela, Bia passara a entender os hábitos de Talita: ela odiava aproximações repentinas, pois, como não conseguia identificar quem era de imediato, sentia uma extrema falta de segurança.
Bia acalmou os sentimentos de Talita com cuidado.
Sofia parou a alguns passos de distância, um pouco atônita.
No primeiro encontro, a performance de Talita, exceto pelo fato de não ver, parecia a de uma pessoa normal.
Mas hoje ela percebera que pensara de forma simplista demais.
Alguém que perdeu a visão enfrenta dificuldades em todos os aspectos; por mais que tentem disfarçar, a vida nunca será igual à de uma pessoa que enxerga.
“Sinto muito”, disse Talita com o rosto levemente pálido, após Bia colocar um curativo em seu dedo.
Bia, sempre despreocupada, apenas aproveitou para dar um abraço na "amiga bonita" e deixou passar.
Sofia, porém, tinha o olhar carregado de arrependimento: “Eu é que peço desculpas, eu te assustei.”
Talita tateou as pontas dos dedos: “A professora Sofia quer falar comigo sobre o quê?”
Sofia respirou fundo: “Sinto muito pelo que aconteceu da última vez, fui pouco educada. Vim pedir desculpas e, também, conversar sobre o seu irmão.”
O tom de Sofia era extremamente sincero, e Talita relaxou: “Tudo bem. Onde podemos conversar?”
“Onde for melhor para você, por mim tanto faz.”
Capítulo 30
Talita virou o rosto na direção de Bia e perguntou: “Você consegue cuidar da loja sozinha?”
Bia assentiu prontamente: “Claro! Pode ir resolver seus assuntos, Tali.”
Meia hora depois, em uma cafeteria.
Ao som de uma música suave, Talita sentia-se um pouco retraída.
Sofia, segurando a xícara de café, notou e perguntou com doçura: “Não está confortável?”
“É...”, Talita baixou os cílios. “Depois do acidente, faz muito tempo que não frequento esses lugares.”
Ao ouvir aquilo, Sofia sentiu um aperto no peito. Ela não conseguia imaginar como reagiria se perdesse a visão tão jovem, mas tinha certeza de que não seria tão forte quanto Talita.
“Se você se sentir incomodada, podemos mudar de lugar”, sugeriu Sofia.
Talita balançou a cabeça: “Não precisa. Eu tenho que me esforçar para me adaptar, não posso ficar trancada em casa para sempre.”
Sofia observava a moça à sua frente; os cantos dos lábios de Talita se elevaram levemente, revelando covinhas sutis.
“Você e seu irmão não se parecem nada fisicamente”, comentou Sofia, iniciando o assunto principal.
“É... o Murilo se parece mais com a nossa mãe, e eu sou mais parecida com o meu pai”, explicou Talita.
“Seu irmão viajou a trabalho esta semana... ele provavelmente não contou a vocês, mas a universidade ofereceu a ele uma vaga de especialização no exterior, e ele recusou”, disse Sofia em tom calmo.
O coração de Talita foi atingido por uma onda de choque; por um momento, ela ficou sem palavras.
Sofia continuou: “Eu acho que a escolha dele não foi errada. Se fosse eu, também escolheria minha família.”
“Mas, infelizmente, eu não tenho mais família.”
O coração de Talita apertou-se. Se a recusa de Murilo a deixara brava, a revelação de Sofia a fizera sentir dor por ela.
“Sinto muito”, disse Talita, sem saber o que mais dizer.
Sofia riu, como se não se importasse: “Pequena, por que está pedindo desculpas? Não é sua culpa eu não ter família.”
“Pequena...?” Talita repetiu a palavra por instinto, sentindo o rosto corar.
Sofia olhou surpresa para a timidez de Talita e explicou gentilmente: “Na minha terra natal, chamamos as crianças e os mais jovens assim.”
“Ah...”, respondeu Talita, um pouco sem jeito.
“Meu irmão gosta muito de você de verdade”, disse Talita de forma apressada, com os pensamentos um pouco confusos.
Sofia ergueu uma sobrancelha. No primeiro encontro, as palavras de Talita a deixaram irritada, mas agora ela sabia que a moça não tinha má intenção.
Desta vez, ela achava Talita adorável e digna de compaixão, mas não esperava ouvir aquilo dela.
Talita estava sendo "cupido" pela primeira vez, tentando unir o irmão e a futura cunhada, o que a deixava bastante nervosa.
“Gosta como, exatamente?” a personalidade de Sofia era bem menos dócil do que sua aparência sugeria; ela tinha um toque de travessura em sua essência.
“Gosta... do jeito dele”, Talita ficou sem palavras por um momento.
“Você já amou alguém?” Sofia achou a reação dela fofíssima e não resistiu em provocá-la.
“Já...”, ao lembrar daquela pessoa, o humor de Talita caiu visivelmente.
“Mas não estamos mais juntos.”
“Foi por causa dos seus olhos? Ele te rejeitou?” o tom de Sofia tornou-se severo instantaneamente.
Talita balançou as mãos rapidamente: “Não, não foi isso. Simplesmente não era para ser.”
Ela provavelmente não percebia o quanto de melancolia e apego havia em sua voz.
Sofia não insistiu no assunto, e então ouviu Talita dizer: “Eu ouço falar da professora Sofia há muito tempo, através dos diários do meu irmão. Se a professora tiver curiosidade, pode perguntar a ele.”
Os olhos de Talita não tinham brilho, mas sua expressão era de uma determinação absoluta: “Eu quero que meu irmão e a professora fiquem juntos. Desejo que vocês sejam felizes.”
Capítulo 31
Após se despedirem, Talita Rocha não voltou para a floricultura, mas seguiu direto para casa.
Sofia a acompanhou no caminho, e as duas conversaram calmamente sobre Murilo Rocha, trocando frases curtas e amigáveis.
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