"Memórias de um Amor Perdido" Capítulo 7
Murilo, um professor universitário, tinha os olhos vermelhos por trás das lentes de seus óculos de armação dourada.
"A Tali foi criada como o tesouro da nossa família. Você acha que não sabíamos de todas as humilhações que ela passou por sua causa? Só não interferimos porque a respeitávamos; respeitávamos o fato de ela ser uma adulta capaz de lidar com as próprias emoções."
"Mas nunca imaginamos que o preço da nossa discrição seria perdê-la para sempre."
Naquela época, Xavier, ainda debilitado pelos ferimentos, não foi páreo para Murilo. Ele ficou caído ao pé da escada, desgrenhado e humilhado, enquanto Murilo o olhava de cima, sentenciando palavra por palavra: "Não volte aqui. Talita Rocha não tem mais nada a ver com você. Não teve no passado e não terá no futuro."
O som de uma buzina na rua trouxe Xavier de volta à realidade. Ele se desvencilhou das lembranças pesadas, mas seus olhos ainda carregavam uma tristeza profunda e incurável.
Ele perdera a capacidade de amar há muito tempo. Se não fosse Talita Rocha, não seria mais ninguém.
Xavier seguiu em frente por aquele caminho que ele e Talita haviam percorrido inúmeras vezes.
Aquele lugar guardava os melhores momentos: risadas, brincadeiras e até brigas bobas, numa época em que ambos tinham a certeza absoluta de que jamais se separariam.
Um sorriso autodepreciativo surgiu nos lábios de Xavier. Ele cobriu os olhos levemente avermelhados com a mão; o sol estava forte demais.
Quando conseguiu recompor suas emoções, notou pelo canto do olho uma moça vestindo um longo vestido azul, carregando um buquê de girassóis e guiando um cachorro. Ao passar por ele, sentiu um aroma familiar de tangerina.
Os nervos de Xavier estremeceram. Ele baixou a mão bruscamente, e a luz do sol inundou sua visão.
Sua vista estava um pouco embaçada, e ele deu dois passos à frente por instinto, mas estancou ao ver o cachorro com clareza.
Não poderia ser Talita Rocha. Ela estava morta.
Mas as costas daquela moça de azul eram tão parecidas com as dela que Xavier ficou em transe por um instante.
Ele fixou o olhar nela enquanto ela atravessava a faixa de pedestres.
Ela segurava a guia de um cão-guia; ela era cega.
Uma compaixão inexplicável surgiu no coração de Xavier, um sentimento que veio de forma avassaladora e partiu tão rápido quanto chegou.
Ele desviou o olhar, rindo de si mesmo.
Nos últimos anos, ele fizera muitas caridades e buscara conforto em templos e igrejas, apenas desejando que Talita estivesse bem, onde quer que estivesse, e que sua alma encontrasse paz.
Mas era inútil. Ela nunca lhe daria uma resposta, ele não poderia salvá-la, e tampouco conseguia salvar a si mesmo da vontade de desistir.
...
Beco Treze.
"Tali, você voltou!" Uma senhora que vendia esculturas de madeira cumprimentou alegremente a moça de azul.
"Oi, Dona Lúcia!" Talita Rocha virou o rosto na direção da voz, embora seus olhos estivessem sem foco. O cachorro aos seus pés parou obedientemente.
"Vá logo para casa. Sua mãe veio aqui várias vezes te procurar, com medo de que você se perdesse."
Percebendo o tom brincalhão da vizinha, Talita deu um sorriso tímido e disse ao cão-guia: "Babu, vamos, vamos para casa."
Ao ouvir o comando, Babu se empertigou e guiou Talita em direção à residência.
Capítulo 15
"Mãe, cheguei!" Talita chamou pela mãe em voz alta.
A mãe de Talita saiu imediatamente da cozinha e, ao ver a filha entrando, disse ansiosa: "Tali, cuidado com o degrau!"
"Eu sei, mãe. A senhora já disse isso várias vezes." Talita deu um leve sorriso, revelando suas covinhas.
A mãe respondeu em tom de censura carinhosa: "Você esqueceu de quantas vezes tropeçou aqui quando estava se acostumando com o Babu? Seu pai queria até arrancar esse degrau."
"Como foi o movimento na floricultura hoje?" Talita mudou de assunto astutamente.
"Como sempre. Nem muito bom, nem muito ruim, mas pode ficar tranquila que dá para te sustentar."
Talita percebeu o subtexto naquelas palavras. Ela não retrucou, apenas puxou a manga da mãe e disse: "Mãe, vou 'assistir' TV."
A palavra "assistir" fez o corpo da mãe enrijecer e seus olhos se encherem de lágrimas instantaneamente, mas ela não deixou Talita perceber.
Ela conteve a emoção e respondeu com um murmúrio positivo.
Talita sentou-se no sofá; para ela, era mais ouvir do que assistir.
Três anos atrás, Talita sofrera ferimentos gravíssimos. A família percorrera vários lugares em busca de uma chance de sobrevivência. Quando ela finalmente acordou, descobriu que um coágulo estava pressionando seus nervos, e havia uma enorme probabilidade de que ela nunca mais voltasse a enxergar.
A mãe desviou o olhar. Na verdade, a palavra "ver" ou "olhar" tornara-se quase um tabu naquela casa nos últimos dois anos, embora Talita agisse como se não se importasse.
Mas como mãe, ela conhecia o medo e o desamparo que Talita escondia.
Talita não queria que eles se preocupassem, e eles evitavam tocar no assunto.
Mas toda vez que Talita se escondia debaixo das cobertas para chorar, a mãe também chorava do outro lado da porta, sem saber por quanto tempo.
Seu coração doía pela filha. Sua Tali fora tão brilhante, com um currículo impecável apesar da pouca idade, cirurgiã do Hospital Municipal.
Agora, ela era obrigada a ficar em casa, com medo de sair e se tornar um fardo para os outros.
Se não fosse pela insistência do irmão, ela provavelmente continuaria trancada em casa.
"Tali, seu irmão disse que horas vem para cá?" perguntou a mãe.
Talita respondeu lentamente: "O Murilo disse que não vem hoje."
"Não o chame de Murilo, ele é seu irmão!" repreendeu a mãe.
"Tá bom, tá bom", respondeu Talita em voz alta.
Depois, virou o rosto e sussurrou para si mesma: "Irmão nada, ele é um ditador autoritário!"
Após falar, o único som ao redor era o vento soprando pelo corredor e o diálogo da televisão. Talita encostou-se exausta no sofá, com Babu deitado aos seus pés, muito comportado.
Ela não saía de casa há muito tempo. Hoje, Murilo a forçara a sair usando o pretexto de entregar alguns documentos. Com Babu, ela conseguiu caminhar com relativa tranquilidade até o escritório do irmão.
O sol brilhava sobre sua cabeça. Por causa da cegueira, seus outros sentidos tornaram-se extremamente aguçados. O barulho do trânsito e a mistura de aromas nas ruas a faziam sentir como se estivesse se reintegrando à sociedade.
Mas a escuridão diante de seus olhos lembrava-lhe cruelmente da realidade.
Ela não podia mais salvar vidas como antes e tinha dificuldade até para viver sozinha.
Seus pais, que já deveriam estar aposentados, voltaram a trabalhar por causa dela, e seu irmão continuava solteiro.
Era difícil não sentir desprezo por si mesma.
E havia aquela pessoa... Talita ainda sentia o coração oscilar ao pensar no nome dele.
Ele provavelmente já estaria casado.
Parecia que apenas ela ficara presa no mesmo lugar para sempre.
"Tali, o jantar está pronto!" A voz da mãe resgatou Talita de seus pensamentos. Ela levantou-se devagar e tateou o caminho até a sala de jantar.
Enquanto ouvia o falatório habitual da mãe, Talita interrompeu subitamente: "Mãe, posso tentar ajudar na floricultura?"
A mãe soltou um "Ah?" de surpresa. Os olhos de Talita continuavam sem foco, mas sua voz era estranhamente firme: "Não posso ficar em casa sendo uma inválida para sempre."
Capítulo 16
"Tali, nós nunca achamos que você fosse uma inválida. Você pode levar o tempo que precisar, não há pressa. Seu pai e eu ainda temos condições, não se preocupe com a casa", disse a mãe, com os olhos marejados.
"Eu sei, mas não posso ficar parada esperando que vocês me carreguem. Eu preciso me adaptar, mesmo que nunca mais volte a enxergar." O nariz de Talita ardeu, mas sua voz permaneceu firme.
"Posso começar aprendendo coisas pequenas. Além disso, um dia vocês vão partir, e o Murilo precisa ter a vida dele. O mundo de vocês não pode girar sempre em torno de mim."
"Eu vou ficar bem sozinha, mãe."
A mãe olhou para a expressão serena da filha e, instintivamente, olhou para o pai de Talita, que havia acabado de chegar e estava parado no batente da porta.
Os olhos do pai também estavam vermelhos, mas ele assentiu lentamente para a esposa.
A mãe apertou as mãos com força e disse com a voz rouca: "Tudo bem. Amanhã eu te levo comigo."
Ao ouvir a confirmação da mãe, um leve sorriso surgiu nos lábios de Talita. Ela prometeu: "Vou me esforçar muito para não atrapalhar a senhora."
Talita estendeu a mão para procurar a da mãe. A mãe, contendo a tristeza, segurou com força a mão fria da filha: "Tali, tudo vai ficar bem. Seus olhos também vão melhorar."
Talita sorriu sem dizer nada. A esperança que um dia preenchera seu peito fora se acalmando após sucessivas decepções.
Independentemente do que viesse pela frente, ficar presa em seu próprio casulo nunca fora o estilo de Talita Rocha.
...
"Tali... Tali..."
"Não, por favor, por favor..."
"Eu errei, não me deixe, eu realmente me arrependi..."
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