"Sob o Olhar do Capitão" Capítulo 9
Capítulo 9: Capitão Ricardo, o que eu fiz de indecente?
Ricardo acabara de sair da sala de interrogatório. Ele vestia a camisa do uniforme, com as mangas dobradas, revelando antebraços fortes e definidos. A barra da camisa estava impecavelmente para dentro da calça tática, e o cinto preto de acabamento fosco delineava sua cintura firme e o abdômen enxuto.
Alto, imponente e com aquela beleza rústica e fria, ele transbordava uma masculinidade implacável.
— Doutora Alice, aquela é a Clara. Ela é do Centro de Inteligência e Informação. Antes de você chegar, ela era a "musa" do nosso distrito, mas agora que você veio, o título com certeza é seu.
Ultimamente, Lipe tinha ficado mais próximo de Alice e, em particular, já a chamava pelo nome em vez de apenas "doutora".
— Nada de rivalidades femininas, Lipe. Cada mulher tem sua beleza única, não se compara.
Lipe sorriu e assentiu:
— Você tem toda a razão.
Alice viu Clara seguir Ricardo para dentro do escritório dele.
— O nosso chefe é realmente muito disputado. Não sei que tipo de feitiço aquela noiva dele jogou; entre tantas pretendentes, ele só tinha olhos para aquela mulher fútil que o menosprezava.
Alice olhou para Lipe, curiosa:
— Tem muita gente atrás do seu chefe?
— Ah, se tem! A Clara nem se fala, os olhos dela brilham toda vez que o vê — Lipe baixou a voz, em tom de fofoca. — Teve até uma empresária riquíssima que foi sequestrada e salva por ele. Depois, ela quis "se entregar" em agradecimento. Mandava noventa e nove rosas todos os dias e pagava banquetes para toda a nossa equipe. O chefe simplesmente a avisou que, se ela aparecesse de novo, ele a processaria por assédio.
Alice imaginou a cena. Realmente, era a cara do Ricardo dizer algo assim.
— Lipe, não inveje seu chefe. Você também é um cara bonito. Qualquer dia desses eu te apresento umas amigas.
O rosto bronzeado de Lipe esquentou na hora, e ele coçou a cabeça, encabulado:
— Bom, já agradeço de antemão então!
Após bater o ponto e sair do trabalho, Alice foi ao supermercado. Estava tão ocupada desde que se mudara para o novo apartamento que ainda não tinha cozinhado nada para si mesma.
Ela entrou no elevador carregando as sacolas. Quando as portas iam se fechar, alguém apertou o botão do lado de fora. As portas se abriram novamente.
Uma silhueta alta e ereta entrou.
Ricardo.
No instante em que o viu, um brilho de surpresa passou pelos olhos de Alice.
O que ele estava fazendo ali?
Havia outros moradores no elevador, além dos dois. Vendo que Ricardo nem sequer olhava para ela, Alice fingiu que não o conhecia também. Mas, pelo canto do olho, não conseguia evitar observá-lo.
Ele estava com uma das mãos no bolso da calça, com feições gélidas e uma aura de "não se aproxime". Ele entrou e nem sequer apertou o botão de algum andar.
Será que ele descobriu onde eu moro e veio me procurar?
Não era ele quem não queria "casos" com colegas?
Que fingido. Homem reprimido.
Um sorriso que ela mesma não percebeu surgiu no canto de seus lábios.
O apartamento de Alice era no sexto andar. Quando o elevador parou, ela saiu primeiro, atenta aos movimentos do homem.
Como esperado, ele a seguiu para fora.
Alice deu alguns passos pelo corredor e, de repente, virou-se para encará-lo.
Ricardo provavelmente não esperava que ela se virasse; ele não teve tempo de parar, e o corpo dela colidiu diretamente contra o peito dele.
Ricardo tensionou os músculos e deu alguns passos rápidos para trás.
Ao ver como ele a evitava como se fosse uma praga, Alice sentiu irritação e vontade de rir ao mesmo tempo. Ela largou as sacolas no chão e deu alguns passos para frente, aproximando-se dele.
Ricardo não recuou mais. Ele a encarou com olhos profundos:
— O que você está fazendo?
Alice olhou para cima, fitando-o. A luz do corredor iluminava seu rosto esculpido, a mandíbula marcante e o nariz altivo. Era um rosto extremamente bonito e íntegro. Se não fosse por aquela frieza cortante, seria perfeito.
O olhar dela desceu do rosto para o pomo de adão proeminente dele. Lembrando-se da química daquela noite, ela passou a língua levemente pelos lábios.
Ao ver o gesto, as sobrancelhas dele se franziram discretamente:
— Alice, comporte-se de forma decente.
Alice encarou aqueles olhos negros e estreitos que pareciam esconder correntes turbulentas. Um sorriso brotou em seus lábios vermelhos:
— Sinto muito, é que acabei de lembrar daquela cena de você comendo as cerejas...
Ela ergueu o queixo; o pescoço era longo, alvo e elegante. Pela proximidade, as veias azuladas sob a pele delicada eram visíveis.
Ricardo pressionou a língua contra a bochecha, sentindo as orelhas esquentarem. Ele desviou o olhar:
— Se tem algo a dizer, diga logo.
Austero, autoritário e totalmente sério.
Um homem completamente diferente daquele que apertou sua cintura e a beijou com ferocidade naquela noite. Se não tivessem o mesmo rosto, ela suspeitaria de dupla personalidade.
— Por que está fingindo? — O dedo fino de Alice tocou levemente o músculo rígido do braço dele. — Você não veio me procurar?
Ela ficou na ponta dos pés, aproximando os lábios do ouvido dele:
— Não era você que não queria casos com colegas? Como veio parar atrás de mim então?
Os dedos de Alice engancharam levemente no botão da camisa dele:
— Não sabia que o Capitão era tão ousado a ponto de bater na minha porta...
Antes que ela terminasse, foi empurrada friamente pelo homem.
Alice não estava firme e cambaleou alguns passos para trás. Suas costas bateram contra a parede, e sentiu uma pontada de dor na escápula.
Ela olhou para Ricardo com indignação:
— Por que tanta pose? Se veio atrás de mim, é porque quer...
As palavras morreram em sua boca.
Ela viu o homem caminhar até a porta oposta ao seu apartamento, digitar a senha e entrar.
BUM!
A porta se fechou.
Alice ficou boquiaberta.
Ao perceber que Ricardo não a estava seguindo, mas que ele simplesmente morava na frente dela, sua mente começou a zumbir e seu rosto ficou vermelho como brasa.
Ela ficou parada ali, querendo um buraco no chão para se esconder.
Meu Deus. Que mico. Que vontade de se enterrar viva.
Alice respirou fundo, pegou as sacolas e correu para dentro do seu apartamento.
Depois de guardar as compras, correu para o banheiro e lavou o rosto com água gelada. Demorou um bom tempo para o calor do rosto diminuir.
Enquanto comia, ela conversou com sua melhor amiga, Bárbara.
Bárbara: 「Bloqueei a Camila. Dizem que amar alguém é como cultivar uma flor, mas o Mateus é puro herbicida. Quem encosta, morre.」
Bárbara: 「Amiga, por favor, não se feche. Não deixe um traste fazer você desistir de todos os homens do mundo.」
Alice respondeu: 「Eu superei totalmente. Homem bonito é pra olhar e brincar; casar é pedir pra perder anos de vida.」
A mãe dela ligou, pedindo que ela fosse jantar em casa no final de semana.
Após desligar, Alice ia continuar a conversa com Bárbara, mas percebeu que a mensagem que enviara não estava na conversa com a amiga.
Ela saiu da tela e viu que o grupo de trabalho da polícia tinha mais de 99 mensagens.
Ela abriu. E quase enfartou.
Ela havia enviado aquela mensagem, por engano, no grupo do trabalho.
No momento em que enviou, o grupo estava movimentado e ela nem olhou o nome no topo antes de digitar e mandar. Agora, já era tarde demais para apagar.
O grupo estava em polvorosa por causa do comentário dela.
Lipe a marcou: 「Doutora Alice, você levou um fora?」
Gabriel a marcou: 「Doutora, quem te machucou tanto assim pra você desistir de nós homens?」
Vic a marcou: 「Um abraço, doutora.」
Até a psicóloga da corporação a marcou: 「Alice, passe na minha sala na segunda-feira para uma conversa.」
Alice queria morrer de vergonha. Seria tarde demais para sair do grupo?
Ela rolou as mensagens e viu um comentário de uma tal de Júlia que chamou sua atenção.
Júlia: 「Sou a única que acha que essa frase dela soa bem tóxica? Espero que não queime o filme da nossa delegacia.」
Logo abaixo, Clara respondeu: 「Júlia, não fale assim no grupo.」
Júlia: 「Ah, Clara, você é muito pura. O pessoal da investigação precisa abrir o olho pra não ser enganado por certas pessoas com essa carinha de santa.」
Alice sentiu um gosto amargo ao ler os comentários de Júlia. Ela nem conhecia a mulher, por que tanta hostilidade?
Enfim, ela acabara de chegar e não valia a pena discutir em grupo.
Lembrando que já tinha o contato de Lipe e Gabriel, mas ainda não o de Ricardo, ela o procurou na lista de membros.
A foto de perfil de Ricardo era uma foto de perfil dele vestindo uma jaqueta preta e óculos escuros. O nariz era imponente, os traços rígidos e a mandíbula afiada. Mesmo através da tela, ele exalava uma frieza impessoal. Mas, ao mesmo tempo, era absurdamente atraente.
Não é à toa que tantas mulheres gostam, ele realmente tem um magnetismo.
O nome dele no contato era apenas "Ricardo". Alice escreveu seu nome na nota de solicitação e enviou o pedido de amizade. Com o contato, a comunicação de trabalho seria mais fácil. E sobre o mal-entendido de hoje, ela planejava pedir desculpas assim que ele aceitasse. Ela sempre fora do tipo que assume os erros e tenta corrigi-los.
Alice foi lavar a louça e, ao terminar, pegou o celular.
Ricardo ainda não tinha aceitado o pedido.
Talvez ele não tivesse visto o celular. Ela resolveu esperar.
Pendurou a roupa na varanda e foi tomar banho. Já se passara uma hora desde que enviara o pedido.
Ela olhou o celular novamente. Nada.
!!!
Ela começou a ficar irritada.
Qual era a do Ricardo? Estava ignorando de propósito?
Alice não era de ficar sofrendo por antecipação. Ela abriu a porta do apartamento e foi direto para a porta em frente.
POC! POC! POC!
Ela bateu com força.
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