"Troca Cruel: Nos Braços do Inimigo" Capítulo 19
22
Após três meses longe da mansão dos Vasconcelos, percebi que a situação estava realmente decadente; o sinal mais óbvio era que o número de funcionários havia caído pela metade, deixando o lugar com um ar de abandono.
Mas isso não tinha nada a ver comigo.
Isadora não esperava o meu retorno e se colocou na minha frente com arrogância, destilando sarcasmo: "Achei que você fosse tão virtuosa, mas bastou saber que o Lucas precisava de você para voltar correndo?".
Ignorei-a e fui direto pegar meu registro civil. Depois, fiz questão de exibi-lo na frente dela: "Pois é, eu vou me casar com o Lucas. Está feliz? Satisfeita? Depois de todas as suas armações, o Lucas ainda me escolheu. Você não esperava por essa, não é?".
Eu estava provocando Isadora propositalmente; tirar dela o que ela mais desejava me trazia uma sensação de alívio.
Como esperado, ela ficou fora de si de raiva: "Isso não vai acontecer! Meus pais só reconhecem a mim como herdeira! Eu posso dar muito mais ao Lucas, e você? Você não passa de uma caipira de classe baixa! Não permitirei que se case com ele!".
Isadora tentou avançar para tomar o documento da minha mão, mas eu me esquivei e desferi um chute na parte de trás de sua perna: "Isadora, se eu sou de classe baixa, o que você é? Não se esqueça de que compartilhamos o mesmo sangue".
Ela não era páreo para mim e começou a gritar histericamente.
Bernardo e Helena surgiram correndo para protegê-la e já se preparavam para me questionar como de costume, mas eu ergui o registro civil: "Foram vocês que me imploraram para voltar. O Lucas quer casar comigo, e se a Isadora não aceita, é porque ela não se conforma".
A expressão no rosto dos dois era impagável.
Eles sentiam pena da Isadora, mas não podiam abrir mão da fortuna da família; por isso, tiveram que engolir o fato de eu levar o documento para me casar com o Lucas.
Claro que eu não me casaria com ele.
Ser idiota uma vez é compreensível, mas ser duas vezes seria erro meu.
Saí pelos portões da mansão com o documento em mãos, sem dificuldades.
Dante estava me esperando a pouca distância, encostado no capô do carro. Ele usava um boné preto e seu maxilar estava rígido, com os lábios finos comprimidos em uma linha reta.
"Vinte minutos. Se você demorasse mais um pouco, eu mesmo entraria para fazer uma visita à minha sogra".
Dante estava preocupado que eu fosse maltratada e não tirou os olhos do portão. Corri em sua direção saltitante e mostrei o documento: "Olha, eu consegui".
O canto de sua boca se elevou levemente e ele me puxou para perto. Sob a aba do boné, seu rosto atraente parecia uma pintura. Ele depositou um beijo gélido em meu rosto: "Minha boa Bia, vamos voltar para a cidadezinha primeiro. Só vamos registrar nossa união depois que seus pais adotivos concordarem".
Balancei o documento: "Meus pais adotivos já concordaram há muito tempo!".
Mas eu não percebi que havia alguém atrás de mim. Uma mão larga arrancou o registro civil das minhas mãos, e uma voz fria ecoou:
"Quem deu permissão para vocês registrarem essa união escondidos?".
23
Lucas apareceu atrás de mim, e Dante o viu antes que eu pudesse reagir.
Ele me puxou para seus braços e, antes que eu percebesse, colocou o boné dele na minha cabeça.
A aba ficou tão baixa que eu mal conseguia ver quem estava à frente, apenas ouvi a voz arrogante de Dante: "Não olhe muito, faz mal para os olhos".
Desisti de tirar o boné.
Dante recuperou o registro civil e o guardou de volta em meus braços.
A voz de Lucas soou distante e carregada de deboche: "Dante, ela só está te usando para tentar me esquecer. O que te faz pensar que tem motivos para comemorar?".
Senti um sobressalto, temendo que Dante entendesse errado. Antes que eu pudesse explicar, Dante me colocou dentro do carro: "Espere por mim aí dentro".
Lucas permanecia parado à distância, observando.
Não hesitei e, antes de entrar, segurei o braço de Dante: "Não vale a pena perder a cabeça com ele".
"Ele está te difamando. Se eu não der uma surra nele, não vou conseguir engolir esse desaforo". Dante cerrou os punhos, e as veias de seus braços fortes saltaram.
Eu o contive e, diante de Lucas, inclinei-me para beijar o canto da boca de Dante: "Ainda está bravo?".
Dante paralisou, encarando-me com seus olhos negros semicerrados, com um olhar perigoso.
Fiquei sem jeito e sussurrei com carinho: "É que eu tenho medo que você se machuque, não fique mais bravo".
Em um instante, Dante pareceu um leão que acabara de ter a juba acariciada; ele ficou em silêncio observando-me.
Lucas explodiu de raiva: "Beatriz! Você não dizia que me amava?".
"Você é louco".
Finalmente perdi a paciência. Eu já queria dizer isso desde que Lucas começou com esse papo de que "não podia viver sem mim". Alguém com a mente sã não faria esse tipo de coisa.
"Eu realmente amei você no passado, mas não amo mais".
"Por quê?!", Lucas questionou furioso.
"Não há um porquê. Eu simplesmente não te amo mais, Lucas. Eu nunca senti o que é o amor de verdade estando ao seu lado".
"Você me escolheu agora apenas porque não quer que falem mal do seu caráter, não é? Sua nova empresa com o meu nome não passa de uma jogada de marketing para que as pessoas comprem seus produtos usando a nossa história, certo?".
"Então, para que fingir todo esse sentimento?".
24
Lucas ficou sem palavras diante dos meus argumentos. Dante, com um sorriso no rosto, apertou minha bochecha com carinho: "Minha Bia é incrível".
"É porque tive um bom professor", respondi, acompanhando o tom de Dante. Sem olhar para Lucas nem mais uma vez, entrei no carro e pedi que Dante partisse.
Lucas ficou parado lá por muito tempo...
Mas de que adiantava? Eu não olharia para trás.
Um arrependimento tardio é mais desprezível que grama seca.
Em todos os momentos em que eu quis estar bem com ele, fui repelida por sua indiferença. Em meio a tanta mágoa e humilhação, ele sentiu pena de mim uma única vez?
Não. Senti uma melancolia e soltei um suspiro.
Dante parou o carro de repente e se virou para mim.
Voltei a mim e perguntei confusa: "O que foi?".
Dante apoiou uma das mãos no volante e estreitou seus olhos sedutores: "Pensando no Lucas?".
"Não..."
Mas ao encontrar o olhar dele, acabei confessando:
"Estava pensando nele, sim, mas não por amor. Apenas percebi subitamente que esse homem não tem mais nada da imagem que eu amava".
Lembro-me de quando o amava aos 16 anos. Ele era vibrante, atraente e frio; em meu coração, ele era o jovem puro e impecável. Mas depois, o interesse financeiro se tornou pesado demais em seus olhos, e os desejos dele ficaram intensos demais, enquanto o meu amor se tornou humilhante. Todo o encanto desapareceu naquele noivado.
Apontei para a rua à nossa frente com tristeza e disse a Dante: "Eu adorava passar por esta rua, porque era o caminho de volta da escola com o Lucas. Mas agora, ao lembrar, só tenho memórias ruins".
Nesta rua, eu sempre estive observando as costas de Lucas, vendo-o proteger a Isadora, vendo sua frieza e distanciamento.
"Eu tenho um jeito de transformar essas memórias em algo bom", disse Dante de repente.
Perguntei curiosa: "Como?".
Dante não respondeu. Apenas soltou o cinto de segurança e se inclinou em minha direção. Seu rosto atraente se aproximou, e um beijo muito, muito gentil pousou em minha face.
Arregalei os olhos, com os cílios tremendo de timidez: "Por que assim tão de repente...".
Dante segurou minha nuca e se aproximou ainda mais, com uma voz rouca e sedutora: "Concentre-se no beijo".
Então, foi um beijo concentrado.
Beijou-me até eu quase perder o fôlego. Quando ele me soltou, deu mais um beijo na minha testa: "De agora em diante, quando passar por esta rua, você só lembrará de mim e deste beijo".
Não contive um sorriso: "Dante, com quantas garotas você já namorou? Como pode ser tão galante?".
"Apenas uma".
Dante voltou à sua postura séria e começou a dirigir. Só depois de dobrar a próxima esquina é que ele continuou:
"Mas em meus sonhos, eu já namorei com você inúmeras vezes".
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