"Troca Cruel: Nos Braços do Inimigo" Capítulo 10
11
"Dante, o que exatamente você vê em mim?"
Finalmente não aguentei e quebrei o silêncio daquela atmosfera carregada de tensão. Eu tinha medo de que, se continuasse assim, acabaria me perdendo por ele. Mas, ao mesmo tempo, eu não ousava acreditar. Desperdicei seis anos com o Lucas e nunca consegui fazer com que ele gostasse de mim; como seria possível que o Dante, em apenas seis meses e sem que nada tivesse acontecido entre nós, gostasse tanto de mim?
Além disso, mesmo que ele gostasse, e eu? Eu seria digna desse afeto?
Soltei um suspiro silencioso. Dante, porém, não respondeu à minha pergunta; apenas fixou os olhos em mim e disse: "Aceite ser minha namorada e eu te conto".
"Esquece então".
Soltei essas palavras e, aproveitando que ele estava distraído, destravei as portas e saí do carro. "Vou indo. Pode voltar também". Dante permaneceu em silêncio, sentado no carro, observando-me desaparecer ao longe.
Ao chegar em casa, antes mesmo de entrar, ouvi as risadas e a conversa animada de Isadora com meus pais. Assim que entrei, o riso cessou abruptamente.
Bernardo foi o primeiro a falar: "Onde você esteve nesses últimos dois dias? Não sabe fazer uma ligação?"
Abaixei a cabeça para trocar os sapatos e permaneci em silêncio. Eu havia pedido licença na empresa; se Bernardo realmente se importasse, saberia do meu paradeiro. Ou talvez ele até soubesse que eu estava doente, mas simplesmente não teve a intenção de demonstrar preocupação.
Diante do meu silêncio, Helena acrescentou: "Bia, seu pai está preocupado. É falta de educação não responder quando ele fala com você".
"É verdade, irmã. Dois dias sem aparecer em casa... Não foi naquele dia que você saiu para beber com colegas?"
Terminei de calçar os chinelos e me levantei, encarando os três sentados em harmonia na sala. "Pedi licença médica ao RH. Se realmente estivessem preocupados, saberiam que eu estava doente", respondi com a voz exausta.
Bernardo hesitou por um momento, e Helena, visivelmente sem graça, continuou: "Minha filha, por que não contou para a mamãe? Foi grave? Não culpe seu pai, ele é o presidente, não tem tempo para cuidar de cada detalhe da empresa".
"Pois é, o papai é o presidente, mas quando a Isadora tem um resfriado qualquer, ele desmarca reuniões para acompanhá-la. Eu acabei de passar dois dias internada em um hospital".
"Irmã, por que você tem que ser tão sarcástica?", Isadora disse, segurando a mão de Bernardo com um ar mimado. "O papai trabalha tanto para sustentar esta família e você, em vez de ser grata, ainda fala mal dele?"
"Sarcástica? Grata?", soltei uma risada fria. "Isadora, você sabe por que eu adoeci? Passei um mês inteiro virando noites para finalizar aquele projeto com perfeição. Alguém teve consideração por mim? Quando você quer dinheiro, basta pedir aos nossos pais. E eu? Cada centavo que uso foi ganho por mim mesma".
"Ah, claro, dizem que sou a primogênita dos Vasconcelos, mas tenho que me expor bebendo e negociando com parceiros, e ainda por cima ver meu noivo ser entregue a outra pessoa sem poder reclamar. Agora que adoeço e ninguém se importa, eu é que sou a sarcástica por comentar o óbvio?"
Isadora, pega de surpresa pela minha firmeza, empalideceu. "Irmã, você ainda guarda rancor... Sim, a culpa é toda minha por ter a saúde frágil... Se não fosse por isso, você não teria que carregar o fardo da família sozinha... A culpa é minha, minha... cof, cof..."
Ela começou a tossir forçadamente, encenando um mal-estar que eu sabia ser falso. Mas aquela atuação barata foi o suficiente para que Bernardo e Helena ficassem desesperados. "Bia, chega! Você fica assim só por causa de uma doença? A Isadora sempre foi frágil, custa ceder um pouco para ela?"
Respirei fundo e olhei para os três. Esperar qualquer sinal de arrependimento naqueles olhares era pura ilusão.
Disse calmamente: "Que tal fazermos assim? Não quero mais o título de primogênita dos Vasconcelos. Isadora, eu te agradeço formalmente por ter ficado com o meu noivo. Seja muito feliz".
"Beatriz, o que você quer dizer com isso?"
Bernardo levantou-se bruscamente. "Eu sei que você se sentiu injustiçada ultimamente, e já decidimos que você não precisa mais publicar aquele comunicado. Por que continuar com essas reclamações? Nós nos esforçamos tanto para te trazer de volta, foi para você nos matar de desgosto?!"
"Pai, mãe... No dia em que eu me perdi, vocês dois não foram buscar a Isadora?"
Eu tinha seis anos quando me perdi, idade suficiente para lembrar de algumas coisas. Lembro-me de esperar meus pais na porta da escola, mas eles não vieram. Segui alguém que se parecia com a minha mãe e acabei partindo. Mais tarde, descobri que, naquele dia, ambos tinham ido buscar a Isadora no jardim de infância.
Às vezes me sinto culpada, chego até a me odiar. Quão detestável uma pessoa precisa ser para ser abandonada simultaneamente por ambos os pais? Será que eu não fui boa o suficiente?
Nos seis anos desde que voltei, embora meu desejo inicial fosse estar perto do Lucas, eu me esforcei desesperadamente para aprender tudo sobre negócios e ser impecável. Não era apenas para ser digna dele, mas também para ser o orgulho dos meus pais.
Mas foi inútil. Quando as pessoas não gostam de você, não importa o que você faça. Eu via a Isadora agindo de forma mimada com eles e sentia uma inveja profunda. Ela não precisava fazer nada para ter o amor de todos e podia ser exatamente quem quisesse. E eu? Por mais que fizesse, nunca era o suficiente. Talvez eu realmente fosse uma pessoa difícil de se gostar.
"Já entreguei meu pedido de demissão ao RH. Pai, mãe, não irei mais à empresa a partir de amanhã".
Após dizer isso, dei um passo para trás, virei-me e fechei a porta. Como sempre, ninguém veio atrás de mim, e eu também não olhei para trás.
Deixei a família Vasconcelos, deixei o Lucas e deixei a empresa. Vou começar uma nova vida. Viver, finalmente, por mim mesma.
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