"Casei com o Irmão do Meu Ex" Capítulo 20
Leticia parou, sem olhar para trás, e disse apenas: — Solte-me.
— Me dê mais uma chance. — Bernardo apertou os dedos, como se segurasse a última tábua de salvação; sua voz tremia com um súplico que ele mesmo não reconhecia. — Lê, me dê mais uma chance, está bem?
— O meu casamento com a Valentina pode ser anulado. Eu nunca... eu nunca toquei nela. Legalmente, ainda não temos vínculo. Eu posso limpar tudo isso...
— Bernardo. — Leticia o interrompeu. Sua voz continuava calma, mas com uma autoridade inquestionável. Ela virou-se lentamente e o encarou. A luz do sol estava forte, e ela semicerrou os olhos, analisando-o como se analisasse um problema incompreensível. — Você está fazendo isso agora por amor ou por culpa?
Bernardo estacou.
— Ou será, — Leticia continuou, com o olhar afiado, como se atravessasse sua pele para enxergar seu interior caótico — que você percebeu que perdeu aquela boba que vivia por você, e agora se sente inconformado?
As pupilas de Bernardo contraíram-se e ele tentou negar instintivamente: — Não! Eu...
— Não? — Leticia sorriu levemente, um sorriso carregado de sarcasmo. — Então diga-me, o que você ama em mim?
— Ama o fato de eu ser arrogante? Ama a minha rebeldia? Ama o fato de eu te causar problemas todos os dias e tirar sua paz?
— Não era exatamente isso o que você mais odiava, o que mais te irritava e o que você mais queria que eu mudasse?
— Bernardo, você diz que me ama, mas ama o quê? O meu perseguir obstinado ou a minha obediência cega? Mas tudo isso já acabou, não foi?
Sua sequência de perguntas caiu como marteladas no coração de Bernardo, deixando-o atordoado e sem palavras. Ele abriu a boca, mas percebeu que não conseguia articular nada. O que ele amava nela? Ele nunca pensara nisso.
Antes, ele só via a superfície: a agitação, a teimosia, a imaturidade. Via-a apenas como um problema, uma irmã que ele precisava cuidar mas que lhe dava dor de cabeça.
Depois, ela tornou-se silenciosa, distante, fria; quando ela começou a olhá-lo como um estranho, ele começou a se sentir mal e a entrar em pânico.
Mais tarde, ela casou-se com outro, sorria para outro, exibia nos braços de outro uma leveza que ele nunca vira; ele enlouqueceu de ciúmes, sentindo o coração sufocar de dor.
Ele só sabia que não aceitava que ela partisse, não aceitava que ela pertencesse a outro. Mas isso... era amor? Ou, como ela disse, era apenas inconformismo, desejo de posse e o hábito de ser perseguido?
Ao ver a expressão perdida e dolorosa de Bernardo, o último vestígio de emoção nos olhos de Leticia extinguiu-se.
— Viu? Você não sabe dizer. — A voz dela era leve, mas como um estilete de gelo, perfurou a última ilusão de Bernardo. — Você apenas não está acostumado. Não está acostumado a não me ter correndo atrás de você, não está acostumado a não ser o centro do meu mundo... não está acostumado a perder aquela boba que você descartava quando queria.
— Isso não é amor. É apenas o seu desejo de posse agindo.
Ela forçou, dedo por dedo, a mão de Bernardo a soltar seu pulso. Os dedos dele estavam gelados e tremiam levemente.
— Não me procure mais. — Leticia olhou-o pela última vez, com um olhar calmo, indiferente e sem qualquer saudade. — Eu estou muito bem agora e não quero mais nenhum vínculo com você.
— Aceito seu pedido de desculpas. Mas perdoar ou não é uma decisão minha. E quanto a nós, já estamos quites faz tempo.
— Não... não estamos quites... — Bernardo olhava para as costas dela enquanto ela se afastava com determinação. A dor lancinante finalmente rompeu sua garganta em uma voz rouca e quebrada: — Lê... me perdoe... eu realmente...
Mas a pesada porta da mansão fechou-se lentamente diante dele. Isolando sua visão e todos os seus lamentos e súplicas que ele mesmo não sabia se eram sinceros. O sol continuava brilhando, mas Bernardo sentia um frio mortal. Ele ficou parado ali, diante da porta fechada, diante da pessoa que ele talvez tivesse perdido para sempre, sentindo pela primeira vez a dor de ter o coração atravessado por mil flechas — a dor do arrependimento tardio.
Lá dentro, Leticia encostou as costas na porta fria e escorregou até sentar-se no chão. O envelope em suas mãos parecia pesado.
Ela olhou para o envelope por um longo tempo antes de abri-lo e retirar os papéis. Página por página, as provas registravam como Valentina a incriminara repetidamente, e como Bernardo... acreditara tão prontamente em mentiras tão óbvias.
Seu olhar era calmo.
Não houve a agitação de quem teve a honra limpa, nem o alívio da verdade revelada. Havia apenas um cansaço profundo e uma sensação de absurdo.
Ela cobriu os olhos com a mão.
Não havia lágrimas.
Não soube quanto tempo ficou sentada ali, até que ouviu um "plim" vindo da cozinha — o timer do forno. Em seguida, ouviu-se o som de chinelos aproximando-se.
— Querida? Por que demorou tanto para jogar o lixo fora? Meus cookies acabaram de sair e vão esfriar... caramba! Por que você está sentada no chão?
Pietro, vestindo um avental de desenho animado e segurando luvas térmicas, apareceu na cozinha e assustou-se ao ver Leticia sentada no chão encostada na porta. Ele correu até ela.
— O que houve? Está se sentindo mal? — Ele agachou-se para ajudá-la a levantar, com uma preocupação indisfarçável.
Leticia baixou a mão e olhou para ele. O sorriso no rosto de Pietro congelou. Ele viu os papéis espalhados nas mãos dela e a calma quase entorpecida em seu rosto. Ele entendeu tudo instantaneamente.
— Ele... veio te procurar? — A voz de Pietro ficou sombria. Ele tentou pegar os papéis: — Te deu isso?
Leticia não disse nada, o que foi uma confirmação. Pietro soltou um estalo de língua irritado, pegou os papéis das mãos dela e, sem olhar, amassou-os e jogou-os com precisão na lixeira a alguns passos de distância.
— Que coisa de mau agouro, para que olhar para isso? — resmungou ele, puxando Leticia do chão sem aceitar recusa. — O chão está frio, levante logo. Meus cookies novos são de chocolate, estão maravilhosos. Se não comer agora, vão esfriar de verdade!
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