"Casei com o Irmão do Meu Ex" Capítulo 19
— Amor? — Bernardo soltou a mão dela bruscamente, como se tivesse tocado em algo imundo, com a voz tremendo de fúria extrema.
— O seu amor consiste em incriminá-la repetidamente, deixando que ela fosse mal compreendida, espancada até ficar em carne viva, forçada a doar sangue e quase morta?!
Valentina, assustada com a ferocidade no olhar dele, parou de chorar subitamente, restando apenas soluços de pavor.
— Mas agora você é meu marido! — gritou ela, agarrando-se à última esperança. — Nós tivemos um casamento! Você deveria estar do meu lado! O que a Leticia significa agora? Ela já se casou com seu irmão! Ela é uma qualquer!
— Cale-se! — Bernardo a interrompeu severamente, com o peito arfando violentamente.
Ele olhou para aquela mulher de rosto distorcido e sentiu um nojo profundo. O silêncio se espalhou pelo ar, sufocante. Após um longo tempo, Bernardo falou lentamente, com uma voz exausta e gélida:
— Valentina, entre nós, tudo termina aqui.
Valentina ergueu a cabeça, incrédula: — O que... o que você quer dizer?
— O casamento não conta. Eu não vou assinar os papéis da união estável. — Bernardo enfatizou cada palavra com clareza absoluta. — Nossa relação está suspensa. Não... está encerrada.
— Não! Não pode ser! — Valentina atirou-se sobre ele, abraçando suas pernas. — Bernardo! Você não pode fazer isso comigo! Eu sou sua esposa! Eu te amo tanto! Você não pode me descartar por causa daquela Leticia!
Bernardo desvencilhou-se dela sem piedade, deu um passo atrás e seu olhar agora continha apenas indiferença e distanciamento total.
— Siga sua vida.
Dito isso, ele não olhou para ela nem mais uma vez; virou-se e partiu definitivamente da casa dos Xu. Atrás dele, soavam os gritos de desespero e o barulho de objetos sendo quebrados por Valentina. Bernardo não deu ouvidos. Entrou no carro, recostou-se exausto e disse ao motorista: — Vá para... a residência do Pietro.
Ele precisava ver Leticia. Agora, imediatamente. Ele precisava pedir perdão. Ele precisava implorar por sua misericórdia, mesmo que houvesse apenas uma chance em um milhão.
O carro de Bernardo parou na calçada em frente à mansão de Pietro. Ele ficou sentado no veículo, sem descer de imediato. Precisava organizar as palavras, pensar em como encarar Leticia. No entanto, naquele momento, viu a porta da mansão se abrir.
Pietro e Leticia saíram juntos. Ambos vestiam roupas esportivas, como se tivessem acabado de voltar de uma corrida matinal.
O sol da manhã banhava os dois, criando uma aura dourada e quente. Pietro tinha pequenas gotas de suor na testa, mas pegou primeiro a toalha em seu pescoço para limpar, de forma natural e cuidadosa, o suor nas têmporas e no pescoço de Leticia.
Leticia erguia levemente o rosto, sem se esquivar, exibindo até um leve rubor de relaxamento pós-exercício.
O coração de Bernardo sentiu uma pontada. Então, ele viu os dois caminharem até uma barraca de café da manhã na entrada do condomínio.
Pietro cumprimentou o dono da banca com familiaridade e pediu duas tigelas de leite de soja e alguns churros.
Ele pegou o leite de soja, colocou o canudo com cuidado e entregou a Leticia. Depois, pegou um churro, partiu-o em pedaços pequenos e mergulhou na tigela dela.
— Coma quando estiver mais macio, fica melhor — disse Pietro sorrindo, com uma ternura no olhar que Bernardo nunca vira antes.
Leticia olhou para a tigela, seus lábios curvaram-se levemente em um sorriso e, sem dizer nada, pegou a colher e começou a comer.
Era como se aquela manhã e aquela interação tivessem se repetido mil vezes.
Bernardo, de dentro do carro, assistia a tudo através do vidro. Seu coração parecia apertado por uma mão invisível, doendo tanto que ele mal conseguia respirar.
Lembrou-se de que, antigamente, Leticia também acordava cedo e tentava, desajeitadamente, fazer o café da manhã para levar à sua empresa.
Ele ou reclamava que estava doce demais, ou que ela estava atrasando o seu tempo; a maioria daquelas demonstrações de carinho acabava no lixo.
Ele nunca limpara o suor dela, nunca a acompanhara em um café da manhã de rua e, principalmente... nunca cuidara de seus gostos de forma tão minuciosa.
No fim, não era que ela fosse naturalmente arrogante ou causadora de problemas. Era apenas que ele nunca lhe dera a ternura e a paciência devidas.
Diante dele, ela estava sempre tensa, tentando agradar, usando formas desajeitadas para chamar sua atenção.
Já diante de Pietro, ela podia ser silenciosa, relaxada e ser ela mesma.
Ele não soube quanto tempo ficou parado ali, até que finalmente a viu saindo sozinha. Ele abriu a porta do carro e desceu.
— Lê. — Ele a chamou.
Leticia parecia já ter notado o carro dele; ao ouvir a voz, virou-se.
Ao vê-lo, seu rosto não demonstrou surpresa nem qualquer oscilação emocional; apenas o olhou calmamente, como se visse um estranho.
— Algum assunto? — perguntou ela, com tom monótono.
Bernardo sentiu a garganta apertar. Ele aproximou-se e entregou-lhe o envelope de papel pardo que trazia nas mãos.
— Eu descobri tudo. — Sua voz estava seca. — A loja de vestidos, o elevador e... muitas coisas do passado. Foi a Valentina... ela esteve te incriminando o tempo todo.
Leticia olhou para o envelope por um instante, pegou-o e, sem abri-lo de imediato, apenas sentiu o peso do papel. Então, ergueu o olhar para Bernardo.
— E daí? — perguntou ela.
Novamente aquelas duas palavras. Calmas e sem ondas. Todas as palavras que Bernardo preparara — as explicações, o arrependimento, as confissões dolorosas — travaram em sua garganta diante daquele questionamento simples. Ele olhou para os olhos claros mas distantes dela; não havia fúria, mágoa ou alívio. Nada. Apenas indiferença.
Como se o que ele entregara não fosse a prova de sua inocência, mas apenas um documento irrelevante.
— Me perdoe. — Bernardo ouviu sua própria voz rouca, carregada de uma humildade sem precedentes. — Eu fui cego, fui estúpido. Eu te entendi mal e te machuquei tantas vezes, te fiz passar por tantas injustiças... Me perdoe, Leticia.
Ele baixou a cabeça; aquele homem sempre orgulhoso, imponente e arrogante, pela primeira vez baixava sua cabeça diante de uma mulher.
Leticia o observou por alguns segundos e, então, deu um sorriso de canto.
— Seu pedido de desculpas foi recebido.
Ela segurou o envelope e falou com a naturalidade de quem comenta sobre o clima:
— Se não houver mais nada, não vou te acompanhar até a saída.
Dito isso, ela virou-se para entrar.
— Lê! — Bernardo estendeu a mão bruscamente e segurou o pulso dela. A pele sob seu toque estava levemente fria e delicada. Aquele toque fez seu coração tremer, como se segurasse um gelo prestes a derreter.
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