"Ela Foi Embora, e o Amanhã Parou" Capítulo 10
Já passava da meia-noite quando Ricardo retornou. Ele jogou o paletó displicentemente no sofá e, observando a sala vazia, perguntou à empregada entre bocejos:
— Por que me ligaram tantas vezes de casa ontem?
A empregada, que terminava a limpeza, respondeu respeitosamente:
— O patrão e a patroa convidaram a família Cavalcanti para jantar. Eles estiveram aqui ontem e...
Ainda remoendo a raiva, Ricardo sentiu uma onda de impaciência ao ouvir o nome "Cavalcanti" e a interrompeu bruscamente.
— Chega. De agora em diante, não precisa me contar mais nada sobre os Cavalcanti.
Dito isso, subiu direto para o quarto.
Quando acordou, já era meio-dia do dia seguinte. Ao descer, encontrou os pais almoçando, e eles acenaram para ele.
— Rico, ligue para a Ceci e pergunte se eles já chegaram no...
Ele se sentou à mesa com uma expressão gélida e recusou:
— Tenho que vistoriar o local do casamento. Não tenho tempo.
A Sra. Almeida não insistiu. Ela mesma iniciou uma chamada de vídeo. No momento em que a ligação conectou, o celular de Ricardo tocou: era Isadora. Um sorriso terno surgiu no rosto dele enquanto colocava os fones de ouvido.
— Acordou cedo hoje? Vou passar aí para tomarmos café juntos.
Enquanto falava, Ricardo se levantou. Ao passar pela mãe, ele lançou um olhar fugaz para a tela do celular dela e viu o rosto de Cecília com um leve sorriso, tendo ao fundo um quarto que parecia ser de um hotel.
Onde ela está a essa hora? Por que não está em casa?
Uma ponta de suspeita surgiu em sua mente, mas antes que pudesse perguntar, ouviu Isadora escolher o cardápio:
— Quero massa com caranguejo. Venha logo para irmos juntos.
Ele não demorou mais. Foi até o hall para calçar os sapatos, ouvindo vagamente a voz da mãe na sala:
— Ceci, vocês já chegaram? Como está o tempo por aí?
Chegaram onde? Os Cavalcanti foram viajar?
Essa foi a única possibilidade que passou pela cabeça de Ricardo. No entanto, ele não deu importância ao fato e saiu apressadamente.
Durante o mês seguinte, Ricardo mergulhou nos preparativos do casamento, saindo cedo e voltando tarde todos os dias. O tempo foi diluindo sua raiva. Aos poucos, ele começou a deixar de lado o incidente da boate, pensando que, assim que Cecília viesse lhe pedir desculpas e admitir o erro, ele agiria como se nada tivesse acontecido.
Contudo, Cecília parecia ter evaporado da face da terra. Sem notícias, sem rastros, sem sinal de vida. Ricardo não estava nem um pouco preocupado. Afinal, não importava onde ela estivesse, com a amizade de décadas entre as famílias, os Cavalcanti jamais faltariam ao seu casamento. Na hora certa, Cecília seria trazida, mesmo que a contragosto, para participar da cerimônia.
Ele estava confiante e tranquilo, quase visualizando a cena da reconciliação. Tinha até planejado as palavras que usaria para dar a ela uma saída honrosa.
Porém, na véspera do casamento, ao passar pela casa dos Cavalcanti, ele notou que a mansão continuava mergulhada na escuridão. Ele parou o carro e tocou a campainha insistentemente, mas ninguém apareceu. Encarando aquelas janelas negras, Ricardo sentiu um aperto súbito e inexplicável no peito.
Ele pegou o celular e abriu a conversa com Cecília. A última mensagem ainda era o convite eletrônico enviado no dia do seu aniversário. Ele chegou a digitar uma frase:
"Só para avisar, meu casamento é amanhã."
O dedo hesitou sobre o botão de enviar por um longo tempo. Entre ele e Cecília, ele sempre fora o soberano, aquele que controlava tudo de cima. Ele não queria ser o primeiro a ceder. No fim, não enviou a mensagem. Mas passou a noite inteira inquieto, sem conseguir pregar o olho direito.
No dia seguinte, por volta das quatro da manhã, ele já estava de pé para começar a maquiagem e os preparativos. Após as cerimônias tradicionais de buscar a noiva e servir o chá, ele levou Isadora para o local da festa.
Ele já havia entrado naquele hotel inúmeras vezes, e seu coração sempre transbordava com a alegria de realizar seu desejo. Mas hoje, por algum motivo, ao olhar para o salão decorado de forma romântica e fantasiosa, Ricardo sentiu-se atordoado.
Vou mesmo me casar? Vou mesmo tomar Isadora como minha esposa?
O momento que ele tanto almejara estava agora a um passo de distância. No entanto, ele não se sentia tão firme e decidido quanto antes.
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