"Ela Foi Embora, e o Amanhã Parou" Capítulo 8
Cecília sentiu um imenso alívio ao ouvir do médico que o impacto não havia atingido o osso, sendo apenas um ferimento superficial. Após fazer o curativo, ela voltou para casa.
A data da partida se aproximava e a sala estava repleta de malas de todos os tamanhos. Ela descansou por dois dias e, então, contou a alguns amigos próximos sobre a imigração. Eles organizaram uma pequena reunião de despedida. O clima era de melancolia; todos estavam relutantes em deixá-la ir e pediam que ela mantivesse contato constante após a mudança.
A festa só terminou perto da madrugada. Depois de se despedir de todos, Cecília pagou a conta e voltou ao camarote para buscar sua bolsa. Ao passar pelo quarto ao lado, ouviu vozes familiares.
— E aí, Rico? Qual é a sensação de finalmente conquistar a sua "mulher de branco"? — perguntou um dos amigos.
A porta estava entreaberta e ela pôde ouvir claramente a voz risonha de Ricardo:
— Sinceramente? Se eu tivesse que morrer agora, morreria feliz.
Assim que ele terminou de falar, o quarto foi inundado por gargalhadas e uma provocação surgiu no meio do barulho:
— E aquela sua "amiguinha" de infância? A Ceci?
Houve um silêncio de alguns segundos antes de Ricardo responder, mantendo o tom descompromissado de sempre:
— Ela? Ah... ela é boa de cama.
— Ter uma parceira assim, que vem quando você estala os dedos e vai embora sem cobrar satisfação ou responsabilidade... Cara, você vai acabar matando a gente de inveja — comentou outro, entre risos.
Ricardo apenas arqueou uma sobrancelha, sem dizer uma palavra de negação.
— Mas agora que você está noivo da Isadora, o que pretende fazer com a Cecília?
— Terminar tudo amigavelmente. Meu coração pertence apenas à Isa. Além dela, eu não quero mais ninguém.
Ele falou com tanta convicção que todos começaram a elogiar sua suposta "lealdade". No corredor, Cecília cravava as unhas na palma das mãos até os nós dos dedos ficarem brancos. Ela pensou que não seria mais capaz de sentir dor, mas ouvir aquilo com os próprios ouvidos a deixou em carne viva.
Vinte anos de convivência, as horas ao telefone, as mãos dadas, os beijos, as noites de amor... tudo resumido a:
“Ela é boa de cama.”
Ela mordeu o lábio com força para conter o grito de angústia que subia pelo peito e, com passos pesados, deu as costas e saiu.
Lá fora chovia. Ao entrar sob a cortina de água, seu caminho foi bloqueado. Isadora, acompanhada de quatro ou cinco garotas, parou diante dela, encarando-a com fixidez. Cecília não disse nada e tentou chamar um táxi, mas Isadora a segurou pelo braço com violência.
— Eu já desconfiava que havia algo errado entre vocês, e agora finalmente confirmei. Você é tão baixa assim? Se rastejando para dormir com o meu namorado durante todo esse tempo?
O tom era tão carregado de veneno que Cecília empalideceu. Ela tentou se explicar, mas Isadora não lhe deu chance, olhando-a com profundo desprezo.
— O que passou, passou. Mas agora que eu e o Rico estamos noivos, você ainda vem atrás dele? Gosta tanto assim de ser a amantezinha que ninguém assume?
Cecília sentiu o peito arder. Respirou fundo e disse:
— Eu não sou amante de ninguém, e hoje eu não vim atrás do Ricardo...
Antes que pudesse terminar, Isadora fez um sinal para as amigas.
— Arrastem ela para dentro. E tragam alguns daqueles mendigos da rua.
As garotas entenderam o recado e começaram a empurrar Cecília escada acima.
— O que vocês estão fazendo?! Soltem-me!
O coração de Cecília disparou. Ela lutou com todas as suas forças, mas não era páreo para o número de agressoras. Foi trancada no camarote mais afastado do corredor.
Pouco depois, uma das garotas entrou trazendo um homem em trapos. Isadora bateu palmas e abriu caminho com um sorriso cruel.
— Essa mulher está desesperada. Ela vai se entregar de graça para você, então trate de satisfazê-la bem.
Dito isso, ela ordenou que fechassem a porta. No espaço confinado, o homem avançou com um brilho perturbador nos olhos. Cecília arranhava e chutava, lutando por sua dignidade, mas a força bruta do homem era superior. Seu vestido foi rasgado, expondo sua pele ao frio e ao perigo.
Ele avançou sobre ela, exalando um odor nauseabundo de esgoto. Em um misto de desespero e fúria, Cecília tateou a mesa, alcançou um cinzeiro de cristal e, sem hesitar, golpeou a cabeça do homem.
Com um som seco, ele desabou no chão.
Aproveitando a chance, Cecília agarrou o celular e correu para fora, encontrando Isadora no topo da escada. Ao vê-la escapar, a expressão de Isadora mudou para o pânico e ela segurou as mãos de Cecília com força.
— Como você conseguiu sair?!
Ela tentou empurrar Cecília de volta, mas ao notar um vulto virando o corredor, Isadora mudou abruptamente de semblante. Com uma expressão de terror fingido, ela se jogou para trás e rolou escada abaixo.
Ricardo, que acabara de sair do quarto ao lado, presenciou a cena. Em choque, ele correu e amparou Isadora nos braços. Ao ver os hematomas e o estado dela, ele olhou para Cecília com um ódio mortal.
— Cecília Cavalcanti! Por que você empurrou a Isadora?!
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